Mundo de ficçãoIniciar sessãoHelena acordou com a sensação incômoda de estar sendo observada, não abriu os olhos de imediato. Permaneceu imóvel, respirando devagar, tentando identificar de onde vinha aquele pressentimento. A casa estava silenciosa, como sempre pela manhã, mas havia algo diferente no ar — uma tensão suave, quase imperceptível. Quando finalmente se levantou e abriu a porta do quarto, encontrou Arthur na cozinha.
Ele estava encostado na bancada, ainda de camisa social, sem gravata, os punhos arregaçados. O café fumegava na xícara à sua frente, intocado. O olhar estava distante, como se ele estivesse ali apenas fisicamente.
— Bom dia! — Helena disse, quebrando o silêncio.
Arthur pareceu despertar.
— Bom dia.
Não houve rigidez na voz, tampouco frieza, apenas neutralidade. O tipo de neutralidade que exigia cuidado.
Helena foi até a pia, lavou as mãos e começou a separar os ingredientes do café da manhã de Sofia. Cada gesto era familiar agora, automático e, ainda assim, carregado de uma consciência nova: Arthur estava ali, observando sem observar.
— Sofia ainda está dormindo. — ele informou.
— Ela teve dificuldade pra pegar no sono ontem. — respondeu, calmamente — Sonhou que estava perdida.
— Ela disse isso? — perguntou, franzindo o cenho.
— Disse. — Helena confirmou — Mas não parecia um pesadelo. Mais como… medo de acordar sozinha.
Arthur apertou a xícara com mais força do que o necessário.
— Eu estava em uma ligação. — murmurou.
Não como justificativa, como constatação. Helena não respondeu. Não era acusação, não era defesa, era apenas um fato entre muitos.
Pouco depois, Sofia surgiu no corredor, arrastando o cobertor preferido atrás de si. Os cabelos ainda desgrenhados, os olhos sonolentos.
— Papai… — chamou, antes mesmo de vê-lo por completo.
Arthur se virou imediatamente.
— Bom dia, princesa.
Sofia correu até ele e se agarrou à sua perna. Arthur se abaixou e a envolveu com os braços, fechando os olhos por um instante mais longo do que o habitual. Helena desviou o olhar, respeitando aquele momento.
— A Helena disse que hoje a gente pode fazer panqueca. — Sofia anunciou, animada.
Arthur olhou para Helena.
— Disse?
— Se você permitir... — ela respondeu, tranquila — É sexta-feira.
— Panquecas estão autorizadas. — ele assentiu.
Sofia comemorou com um sorriso largo e subiu no banco alto da bancada, observando cada movimento de Helena como se fosse um ritual importante. Enquanto cozinhava, Helena sentia o olhar de Arthur volta e meia sobre ela. Não insistente, não invasivo, mas presente.
Silêncios preenchiam a cozinha — e, estranhamente, não eram desconfortáveis.
-
Mais tarde, depois de levar Sofia à escola, Arthur permaneceu em casa. Cancelou uma reunião, delegou decisões, atitudes impensáveis semanas atrás. Sentou-se no escritório, mas não conseguiu se concentrar. As palavras de Helena da noite anterior insistiam em retornar.
Controle não impede sentimentos, só os adia.
Ele odiava o quanto aquilo fazia sentido.
Quando Helena retornou da escola, encontrou Arthur ainda em casa.
— Achei que estivesse no escritório. — comentou, com uma surpresa contida.
— Mudei a agenda.
Ela assentiu, sem questionar.
— Sofia teve um bom dia. — disse, contente — A professora comentou que ela está mais participativa.
Arthur sorriu de leve.
— Mérito seu.
— Mérito dela. — corrigiu Helena — Crianças florescem quando se sentem seguras.
Arthur observou Helena por alguns segundos antes de falar:
— Você fala disso com muita convicção.
— Porque aprendi cedo o que acontece quando a segurança falta.
Ele não pediu que ela explicasse, mas também não desviou o olhar.
— Nem sempre consigo dar isso à Sofia. — admitiu.
Helena respirou fundo.
— Você dá o que pode. — fez uma pausa — Mas presença não se mede em tempo. Se mede em intenção. — Arthur assentiu lentamente.
Algo dentro dele — uma resistência antiga — começou a ceder.
-
Naquela noite, depois que Sofia dormiu, Helena permaneceu na sala, organizando alguns papéis da escola. Arthur se aproximou, apoiando-se no batente da porta.
— Posso me sentar? — perguntou.
A pergunta era simples, mas o gesto dizia muito.
— Claro.
Ele se sentou no sofá, mantendo uma distância segura. Por enquanto.
— Sofia gosta muito de você. — ele disse.
— Eu gosto muito dela.
Arthur respirou fundo.
— Não quero que isso termine mal.
Helena o encarou.
— Então não trate como algo provisório desde o início.
Ele sorriu, breve e quase imperceptível.
— Você não facilita as coisas.
— Nunca foi minha intenção.
— Boa noite, Helena.
— Boa noite, Arthur.
Ele parou por um segundo antes de seguir para o quarto.
— Obrigado. — disse, seguro — Por hoje.
Helena sorriu sozinha quando ele se foi, porque, pela primeira vez, Arthur Monteiro não parecia apenas um homem tentando controlar o mundo; parecia alguém começando a sentir. E isso — Helena sabia — era o começo de algo que nenhum dos dois seria capaz de conter por muito tempo.







