CAPÍTULO 5 - SILÊNCIOS QUE FALAM

Helena acordou com a sensação incômoda de estar sendo observada, não abriu os olhos de imediato. Permaneceu imóvel, respirando devagar, tentando identificar de onde vinha aquele pressentimento. A casa estava silenciosa, como sempre pela manhã, mas havia algo diferente no ar — uma tensão suave, quase imperceptível. Quando finalmente se levantou e abriu a porta do quarto, encontrou Arthur na cozinha.

Ele estava encostado na bancada, ainda de camisa social, sem gravata, os punhos arregaçados. O café fumegava na xícara à sua frente, intocado. O olhar estava distante, como se ele estivesse ali apenas fisicamente.

— Bom dia! — Helena disse, quebrando o silêncio.

Arthur pareceu despertar.

— Bom dia.

Não houve rigidez na voz, tampouco frieza, apenas neutralidade. O tipo de neutralidade que exigia cuidado.

Helena foi até a pia, lavou as mãos e começou a separar os ingredientes do café da manhã de Sofia. Cada gesto era familiar agora, automático e, ainda assim, carregado de uma consciência nova: Arthur estava ali, observando sem observar.

— Sofia ainda está dormindo. — ele informou.

— Ela teve dificuldade pra pegar no sono ontem. — respondeu, calmamente — Sonhou que estava perdida.

— Ela disse isso? — perguntou, franzindo o cenho.

— Disse. — Helena confirmou — Mas não parecia um pesadelo. Mais como… medo de acordar sozinha.

Arthur apertou a xícara com mais força do que o necessário.

— Eu estava em uma ligação. — murmurou.

Não como justificativa, como constatação. Helena não respondeu. Não era acusação, não era defesa, era apenas um fato entre muitos.

Pouco depois, Sofia surgiu no corredor, arrastando o cobertor preferido atrás de si. Os cabelos ainda desgrenhados, os olhos sonolentos.

— Papai… — chamou, antes mesmo de vê-lo por completo.

Arthur se virou imediatamente.

— Bom dia, princesa.

Sofia correu até ele e se agarrou à sua perna. Arthur se abaixou e a envolveu com os braços, fechando os olhos por um instante mais longo do que o habitual. Helena desviou o olhar, respeitando aquele momento.

— A Helena disse que hoje a gente pode fazer panqueca. — Sofia anunciou, animada.

Arthur olhou para Helena.

— Disse?

— Se você permitir... — ela respondeu, tranquila — É sexta-feira.

— Panquecas estão autorizadas. — ele assentiu.

Sofia comemorou com um sorriso largo e subiu no banco alto da bancada, observando cada movimento de Helena como se fosse um ritual importante. Enquanto cozinhava, Helena sentia o olhar de Arthur volta e meia sobre ela. Não insistente, não invasivo, mas presente.

Silêncios preenchiam a cozinha — e, estranhamente, não eram desconfortáveis.

-

Mais tarde, depois de levar Sofia à escola, Arthur permaneceu em casa. Cancelou uma reunião, delegou decisões, atitudes impensáveis semanas atrás. Sentou-se no escritório, mas não conseguiu se concentrar. As palavras de Helena da noite anterior insistiam em retornar.

Controle não impede sentimentos, só os adia.

Ele odiava o quanto aquilo fazia sentido.

Quando Helena retornou da escola, encontrou Arthur ainda em casa.

— Achei que estivesse no escritório. — comentou, com uma surpresa contida.

— Mudei a agenda.

Ela assentiu, sem questionar.

— Sofia teve um bom dia. — disse, contente — A professora comentou que ela está mais participativa.

Arthur sorriu de leve.

— Mérito seu.

— Mérito dela. — corrigiu Helena — Crianças florescem quando se sentem seguras.

Arthur observou Helena por alguns segundos antes de falar:

— Você fala disso com muita convicção.

— Porque aprendi cedo o que acontece quando a segurança falta.

Ele não pediu que ela explicasse, mas também não desviou o olhar.

— Nem sempre consigo dar isso à Sofia. — admitiu.

Helena respirou fundo.

— Você dá o que pode. — fez uma pausa — Mas presença não se mede em tempo. Se mede em intenção. — Arthur assentiu lentamente.

Algo dentro dele — uma resistência antiga — começou a ceder.

-

Naquela noite, depois que Sofia dormiu, Helena permaneceu na sala, organizando alguns papéis da escola. Arthur se aproximou, apoiando-se no batente da porta.

— Posso me sentar? — perguntou.

A pergunta era simples, mas o gesto dizia muito.

— Claro.

Ele se sentou no sofá, mantendo uma distância segura. Por enquanto.

— Sofia gosta muito de você. — ele disse.

— Eu gosto muito dela.

Arthur respirou fundo.

— Não quero que isso termine mal.

Helena o encarou.

— Então não trate como algo provisório desde o início.

Ele sorriu, breve e quase imperceptível.

— Você não facilita as coisas.

— Nunca foi minha intenção.

— Boa noite, Helena.

— Boa noite, Arthur.

Ele parou por um segundo antes de seguir para o quarto.

— Obrigado. — disse, seguro — Por hoje.

Helena sorriu sozinha quando ele se foi, porque, pela primeira vez, Arthur Monteiro não parecia apenas um homem tentando controlar o mundo; parecia alguém começando a sentir. E isso — Helena sabia — era o começo de algo que nenhum dos dois seria capaz de conter por muito tempo.

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