Mundo ficciónIniciar sesiónArthur acordou antes do despertador, não era insônia — era hábito. O tipo de hábito que se constrói quando o descanso nunca foi prioridade. Ainda assim, naquela manhã, havia algo diferente. Um incômodo silencioso, difícil de nomear, que não vinha de números, prazos ou decisões estratégicas. Vinha da lembrança da noite anterior.
Da imagem de Sofia caminhando pelo corredor de mãos dadas com Helena, do riso baixo que escapara da boca da filha, da sensação estranha de casa ocupada por algo além de silêncio.
Ele se levantou, tomou banho e se vestiu como sempre: camisa impecável, movimentos precisos, nenhuma margem para improviso. Quando saiu do quarto, encontrou a cozinha parcialmente iluminada pela luz suave da manhã.
Helena estava ali. Usava uma blusa simples e jeans, os cabelos presos em um coque frouxo, alguns fios escapando de propósito ou descuido. Ela cortava frutas com cuidado, concentrada, como se aquela tarefa fosse tão importante quanto qualquer reunião de conselho.
Arthur parou por um segundo a mais do que deveria, ela percebeu a presença dele e se virou imediatamente.
— Bom dia! — disse, ajeitando-se de forma quase automática — O café já está passando.
— Bom dia! — respondeu ele, a voz baixa, ainda carregada de sono.
Houve um silêncio breve. Não desconfortável, apenas… novo. Sofia apareceu logo depois, arrastando os pés, os cabelos despenteados e o rosto ainda marcado pelo travesseiro.
— Bom dia! — murmurou, indo direto até Helena, que se abaixou para ajeitar o elástico frouxo do cabelo da menina.
Arthur observou a cena com atenção contida. Não havia exagero nos gestos de Helena, nem esforço para parecer indispensável. Ela apenas estava ali, fazendo o que precisava ser feito, com uma naturalidade que o desarmava mais do que gostaria de admitir.
— Papai! — Sofia disse, de repente — A Helena disse que hoje posso levar o desenho pra escola.
Arthur franziu a testa.
— Que desenho?
Sofia correu até a mesa e mostrou uma folha colorida, cheia de traços e figuras indefinidas.
— Eu desenhei a gente.
Arthur reconheceu a si mesmo em uma figura alta demais e séria demais. Reconheceu Sofia, de mãos dadas com alguém de vestido claro. Helena.
— Ficou bonito! — ele disse, após alguns segundos — Pode levar.
Sofia sorriu, satisfeita, e voltou para a cadeira.
Arthur pegou a xícara de café, mas seus olhos retornaram ao papel.
— Você não devia incentivá-la a se apegar tão rápido. — disse, por fim.
Não havia acusação direta na voz, apenas cautela. Helena ergueu o olhar lentamente.
— Eu não incentivo apego. — respondeu com calma — Eu incentivo segurança, há uma diferença.
Arthur a observou, atento à firmeza tranquila com que ela sustentava o próprio ponto.
— Crianças precisam saber que alguém vai estar ali amanhã, mesmo que esse alguém mude no futuro. — completou.
Ele não respondeu de imediato, porque aquela frase não era apenas sobre Sofia.
— Não quero confusão emocional. — disse, por fim — Já deixei isso claro.
— E eu respeito isso. — Helena respondeu, convicta — Meu papel aqui é profissional.
Arthur assentiu. Era exatamente o que queria ouvir, ainda assim, algo dentro dele permaneceu inquieto.
-
Os dias seguintes se organizaram com uma precisão surpreendente. Helena se adaptou à rotina da casa como se tivesse sido desenhada para ela. Sofia passou a acordar com menos resistência, a falar mais sobre a escola, a dormir sem chamar pelo pai no meio da noite.
Arthur percebeu tudo, mesmo fingindo não perceber.
Ele chegava tarde, mas sempre encontrava relatos organizados, tarefas cumpridas, uma casa silenciosa — e viva. Às vezes, ouvia risadas baixas antes de entrar, às vezes, encontrava desenhos novos na geladeira e, quase sempre, encontrava Helena.
Não como uma presença invasiva, mas como algo constante demais para ser ignorado.
Numa dessas noites, ao chegar mais cedo do que o habitual, Arthur encontrou a sala às escuras, iluminada apenas pela luz da televisão desligada. Helena estava sentada no sofá, Sofia adormecida sobre o peito dela, um livro infantil aberto de forma desajeitada.
Arthur parou, indeciso entre interromper ou recuar. Helena ergueu o olhar e o viu.
— Ela dormiu antes do final. — sussurrou.
— Percebi. — respondeu ele, igualmente baixo.
Helena tentou se levantar, mas Sofia se mexeu, resmungando algo incompreensível. Helena congelou.
Arthur se aproximou.
— Deixa. — disse, suavemente — Eu levo.
Ele se inclinou com cuidado e pegou a filha nos braços. Sofia se acomodou imediatamente, como se reconhecesse o abrigo sem precisar acordar. Arthur sentiu o peso conhecido, mas naquela noite havia algo a mais: tranquilidade.
— Obrigada. — Helena disse, ficando de pé — Ela teve um dia cheio.
— Imagino.
Eles caminharam juntos até o quarto de Sofia. Arthur a colocou na cama com cuidado, ajeitou o cobertor e observou por alguns segundos o rosto sereno da filha. Quando se virou, Helena ainda estava ali, parada à porta.
— Boa noite, Helena.
— Boa noite, Arthur.
Foi a primeira vez que ela disse o nome dele sem hesitar, o som pareceu diferente no ar.
Arthur a acompanhou até a sala, sentindo-se inexplicavelmente relutante em encerrar aquela conversa curta demais.
— Você está se adaptando bem. — disse, como se precisasse justificar a atenção.
— Estou. — respondeu, sorrindo docemente — Sofia ajuda.
— Ela se apega fácil.
Helena o encarou com suavidade.
— Não é fraqueza. É coragem.
Arthur desviou o olhar. Ele não respondeu, não precisava.
Mas quando Helena se afastou em direção ao quarto de hóspedes, Arthur ficou ali por alguns segundos, parado no meio da sala, sentindo o peso de algo que não estava no contrato. Linhas invisíveis estavam sendo cruzadas, não por gestos explícitos, não por palavras proibidas, mas por algo muito mais perigoso. Convivência. E Arthur sabia que, cedo ou tarde, aquilo cobraria um preço.







