Mundo ficciónIniciar sesiónNa noite da Cerimônia da Lua Sombria, Elira descobre que seu destino está ligado ao homem mais poderoso da matilha. Kael Blackfang, o Alfa Supremo. Mas, diante de todos, ele a rejeita. Não por falta de vínculo — e sim por orgulho. Humilhada, marcada pela dor e pelo desprezo, Elira foge da matilha jurando nunca mais se curvar a um Alfa que a descartou como se fosse nada. O que Kael não esperava era que a rejeição quebraria o equilíbrio do vínculo, despertando em Elira uma força que nem a própria Lua previa. Agora, enquanto Kael luta contra um laço que se recusa a morrer, Elira retorna diferente: mais forte, mais fria… e decidida a não se deixar reivindicar. Ele quer recuperá-la. Ela quer escolher por si mesma. Entre desejo, poder e destino, apenas um deles poderá vencer. Ele a rejeitou quando ela era fraca. Agora terá que enfrentá-la quando ela se tornou impossível de ignorar.
Leer másA Lua Sombria sempre foi um presságio.
Desde pequena, eu ouvira as anciãs dizerem que, quando ela surgia no céu com aquele tom profundo e avermelhado, nada permanecia igual. Laços eram formados. Verdades vinham à tona. Destinos eram selados — ou destruídos.
Mesmo assim, eu nunca imaginei que ela olharia diretamente para mim.
A clareira sagrada estava tomada pela matilha. O círculo de pedras antigas delimitava o espaço onde apenas os Alfas, Betas de alto escalão e os anciãos podiam ficar. Ômegas como eu permaneciam na borda, misturadas às sombras das árvores, observando em silêncio.
Era onde eu sempre estivera.
O vento noturno carregava o cheiro de pinho, terra úmida e incenso queimado. Cada respiração parecia pesada demais, como se o próprio ar estivesse carregado de expectativa. Eu sentia isso na pele, um arrepio constante que subia pelos meus braços e se alojava no fundo do meu peito.
Algo estava errado.
Não no sentido ruim — mas no sentido perigoso.
Meu coração batia rápido demais, e eu não entendia o motivo. A cerimônia ainda nem havia começado oficialmente, mas meu corpo reagia como se estivesse prestes a ser lançado de um penhasco.
— Elira.
A voz suave de Mara, outra Ômega, me alcançou. Ela estava ao meu lado, com os ombros encolhidos e o olhar baixo, como se temesse chamar atenção até da Lua.
— Você está pálida. Tem certeza de que está bem?
Assenti, mesmo sem estar. Não queria falar. Qualquer som parecia um erro naquela noite.
Então, os tambores começaram.
Um som grave, profundo, que ecoou pela floresta e fez o chão vibrar sob meus pés. O murmúrio da matilha cessou imediatamente. Todos se viraram para a entrada da clareira, onde os Alfas surgiam em formação.
E no centro deles… ele.
Kael Blackfang.
Não importava quantas vezes eu o tivesse visto antes — e foram muitas, à distância, sempre à distância —, meu corpo reagia da mesma forma. Tensão. Alerta. Um respeito instintivo misturado a algo que eu nunca ousara nomear.
Ele era alto, mais do que a maioria, com ombros largos e postura firme. O cabelo escuro caía de forma desleixada sobre a testa, e seus olhos dourados refletiam a luz da Lua como se pertencessem mais à noite do que ao mundo dos vivos.
O Alfa Supremo.
O homem que comandava não apenas nossa matilha, mas várias outras sob alianças antigas.
Quando ele entrou no círculo, o ar pareceu se dobrar à sua presença.
Todos se curvaram.
Eu também.
Mas algo dentro de mim se recusou a baixar a cabeça por completo.
Foi sutil. Um erro mínimo. Ainda assim, senti.
O calor.
Não vinha da fogueira central. Vinha de dentro.
Meu peito ardeu, como se um fio invisível tivesse sido puxado com força. Levei a mão ao colarinho do vestido simples que eu usava, tentando respirar fundo.
— Não agora… — murmurei para mim mesma.
A cerimônia prosseguiu. Os anciãos entoaram cânticos antigos, palavras na língua da Lua, invocando equilíbrio e verdade. O ritual era o mesmo de sempre — pelo menos, era o que eu pensava.
Até Kael erguer o olhar.
Eu senti antes de ver.
Foi como um impacto direto no estômago. Um choque que percorreu minha espinha e me fez dar um passo involuntário para trás.
Quando levantei o rosto, nossos olhares se encontraram.
O mundo desapareceu.
Não havia mais clareira, nem matilha, nem tambores. Apenas ele. Apenas eu. E algo antigo, poderoso, despertando entre nós.
O vínculo.
Meu corpo reagiu de forma traiçoeira. O coração acelerou, a respiração falhou, e uma onda de calor se espalhou pela minha pele. Era errado. Impossível. Ridículo.
Eu era uma Ômega sem posição, sem influência, sem nada.
Ele era o Alfa.
Kael franziu o cenho por uma fração de segundo — tempo suficiente para eu saber que ele sentira também. Seus olhos dourados escureceram, e a tensão tomou cada músculo de seu corpo.
Não.
A Lua Sombria parecia pulsar acima de nós, como se observasse em silêncio cruel.
— Alfa Kael? — chamou um dos anciãos, percebendo a interrupção no fluxo do ritual.
Kael não respondeu de imediato.
Seu olhar permaneceu preso ao meu, intenso demais, afiado demais. Eu quis desviar. Juro que quis. Mas algo me mantinha ali, presa, exposta.
Mate.
A palavra ecoou na minha mente como um trovão.
Não completo. Não selado. Mas real o suficiente para doer.
Um murmúrio começou a se espalhar pela matilha. Alguns notaram a tensão. Outros apenas sentiram o peso no ar.
Eu senti vergonha.
Porque, mesmo sem ninguém dizer nada, eu sabia: se aquilo fosse verdade, se a Lua tivesse cometido aquele erro… eu seria o erro.
Kael finalmente desviou o olhar. Um gesto simples. Devastador.
— Continue — disse ele aos anciãos, com a voz fria, controlada.
O ritual seguiu, mas nada mais fez sentido para mim. Cada palavra cantada parecia distante. Cada batida do tambor ecoava dentro do meu peito como um aviso.
Isso não terminaria bem.
Quando a cerimônia se aproximou do fim, os anciãos chamaram os presentes ao centro para o reconhecimento final da Lua — o momento em que vínculos latentes podiam se revelar.
Meu estômago se revirou.
Eu não deveria ir. Ômegas raramente eram chamadas. Mas, naquela noite, senti pés que não me obedeciam me levarem adiante, como se algo maior tivesse decidido por mim.
O círculo pareceu se estreitar.
Kael estava ali, imóvel, com os punhos cerrados ao lado do corpo.
Quando parei a poucos passos dele, o ar entre nós ficou pesado demais para ignorar.
O reconhecimento aconteceu no instante em que ficamos frente a frente.
Não houve luz. Não houve explosão visível.
Houve silêncio.
E então, dor.
Um laço se formou e se rompeu parcialmente ao mesmo tempo, como se estivesse condenado desde o início. Eu arquejei, levando a mão ao peito, sentindo o coração bater descompassado.
Os anciãos se entreolharam.
— A Lua falou… — murmurou um deles, confuso.
Kael ergueu o queixo.
E, naquele momento, eu soube.
Ele não me aceitaria.
O orgulho dele era maior que qualquer destino.
E a Lua Sombria, impassível no céu, apenas observava enquanto minha vida começava a ruir.
Elira sentiu antes mesmo de ser chamada.O vínculo estava inquieto.Não como dor.Não como ruptura.Como tensão contida.Ela estava na área de treinamento da Aurora Prateada, observando em silêncio os guerreiros praticarem forma híbrida. A disciplina ali era diferente da Lua Obsidiana. Não havia exibição. Não havia gritos de domínio.Havia precisão.Estratégia.— O Alfa quer vê-la.Ela se virou.Um dos guardas da Aurora a observava com postura neutra.O momento havia chegado.Ela assentiu e o seguiu.O salão da Aurora Prateada era amplo, mas não ostentoso. A madeira clara refletia a luz do dia que entrava pelas aberturas superiores. O símbolo da matilha — o lobo prateado sob lua crescente — estava entalhado na parede central.O Alfa estava sozinho.Ele não se levantou quando ela entrou.Apenas a observou.— Você sentiu — ele disse, sem introdução.Não era pergunta.Ela sustentou o olhar.— Senti o quê?Um leve arquear de sobrancelha.— Não subestime minha inteligência, Elira da Lua Obs
O cheiro dela ainda estava na floresta.Kael o sentiu antes mesmo de assumir completamente a forma lupina.Era fraco.Mas inconfundível.Elira.Misturado à terra úmida, ao medo contido, à decisão recente.Ele havia esperado até o amanhecer para agir. Orgulho o impediu de sair imediatamente na noite anterior. Mas quando o vínculo começou a reagir de forma instável — puxões irregulares, calor súbito, tensão física — ele soube que ela não estava apenas vagando.Ela estava se afastando de verdade.E isso era inaceitável.Agora, em forma de lobo, Kael liderava dois dos guerreiros mais confiáveis da Matilha da Lua Obsidiana pela trilha que cortava a floresta densa.O vento estava contra eles.Mas o vínculo não estava.Ele não precisava apenas do faro.Sentia a direção.Como uma bússola sob a pele.A cada quilômetro percorrido, o laço entre eles vibrava de forma diferente — menos dolorido, mais distante… mas ainda vivo.Isso o irritava.Ele a rejeitara.Ele declarara diante da Lua e da matil
O cheiro deles chegou antes que eu os visse.Não era o aroma familiar da Matilha da Lua Obsidiana — terra escura, ferro e domínio. Era diferente. Mais leve. Mais frio. Como neblina misturada a pinho e chuva recente.Eu havia atravessado território demais para não saber.Eu tinha entrado em terras rivais.Meu corpo ficou alerta imediatamente. O vínculo reagiu — um puxão breve, distante — como se Kael sentisse que eu cruzava uma linha invisível.Mas ele estava longe.E, pela primeira vez, eu também estava.O galho quebrou atrás de mim.Eu não corri.Se corressem atrás de mim, eu não teria vantagem.— Você está muito longe de casa, Ômega.A voz veio da esquerda. Firme. Masculina.Eu virei lentamente.Três lobos.Postura de guarda.Olhos atentos.Nenhum deles era Kael.E isso me deu força.— Não tenho mais casa — respondi.Eles trocaram olhares rápidos.— Está em território da Aurora Prateada — disse o mais alto deles. — Sabe o que isso significa?Sim.Significava que eu poderia morrer al
Eu não esperei o amanhecer seguinte.Não esperei ordens.Não esperei permissão.Esperei apenas o momento em que a vila mergulhou no silêncio profundo da madrugada — quando até os lobos mais atentos relaxam a guarda.O céu ainda estava escuro, mas a Lua Sombria já começava a perder o tom vermelho intenso. Ela parecia menor agora. Mais distante.Como se estivesse se retirando depois de ter feito seu estrago.Eu carregava apenas o essencial: uma pequena bolsa de couro com roupas simples e um cantil de água. Nada que denunciasse planos grandiosos.Não era uma guerra.Era uma saída.Mas meu coração sabia que era mais do que isso.Cada passo que eu dava para longe dos alojamentos fazia o vínculo reagir. Não como dor intensa, mas como tensão crescente — um fio esticado demais.Eu parei na borda da floresta.Atrás de mim estava tudo o que eu conhecia.À frente… o desconhecido.Respirei fundo.— Eu não sou sua prisão — sussurrei para o vento.E dei o primeiro passo para dentro da mata.A flore
Na manhã seguinte, a matilha já sabia.Não que não tivesse presenciado. Mas havia uma diferença cruel entre assistir a algo acontecer… e repetir aquilo como história.E eles repetiram.Cada passo que dei pelos caminhos de terra da vila parecia ecoar mais alto do que deveria. Conversas diminuíam quando eu passava. Olhares se desviavam — ou se demoravam tempo demais.Eu nunca fui notada antes.Agora eu era impossível de ignorar.A rejeitada.A Ômega que ousou ser escolhida pela Lua.Eu mantive o queixo erguido, mesmo sentindo o vínculo instável vibrar dentro do peito. Não era mais aquela dor aguda da noite anterior — agora era uma queimação constante, como uma brasa que se recusava a apagar.Dormir fora impossível.Toda vez que fechava os olhos, revivia o momento.“Nunca a reconhecerei como Luna.”A frieza da voz dele.O silêncio da matilha.A sensação de estar sendo arrancada de mim mesma.— Elira.Parei ao ouvir meu nome.Lyra.Ela estava encostada perto do poço central, cercada por d
A dor não foi apenas física.Ela foi viva.O momento em que Kael terminou a frase — “Nunca a reconhecerei como Luna” — foi o instante exato em que algo dentro de mim deixou de existir.O vínculo não desapareceu completamente. Ele não se quebrou como vidro. Ele se rasgou. Ficou irregular. Instável. Um fio partido que ainda queimava sob a pele.Caí de joelhos no círculo sagrado.O impacto não foi da queda.Foi da realidade.A clareira, que minutos antes estava envolta em respeito e solenidade, agora pulsava com murmúrios descontrolados. Eu podia ouvir tudo.— Ele a rejeitou.— Uma Ômega achando que poderia ser Luna?— A Lua errou desta vez.A Lua não errou.Eu senti isso.Ela não errou. Ele escolheu.Levantei o olhar lentamente.Kael não se movia. Seu rosto era uma máscara de autoridade absoluta. Nenhum arrependimento visível. Nenhuma hesitação.Mas eu ainda sentia o eco do vínculo nele.Ele estava sentindo também.Só que estava disposto a esmagar isso para preservar o poder.Um dos anc
Último capítulo