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Rejeitada pelo Alfa da Lua Sombria
Rejeitada pelo Alfa da Lua Sombria
Por: Evilyn Sá
CAPÍTULO 1 — A CERIMÔNIA DA LUA

A Lua Sombria sempre foi um presságio.

Desde pequena, eu ouvira as anciãs dizerem que, quando ela surgia no céu com aquele tom profundo e avermelhado, nada permanecia igual. Laços eram formados. Verdades vinham à tona. Destinos eram selados — ou destruídos.

Mesmo assim, eu nunca imaginei que ela olharia diretamente para mim.

A clareira sagrada estava tomada pela matilha. O círculo de pedras antigas delimitava o espaço onde apenas os Alfas, Betas de alto escalão e os anciãos podiam ficar. Ômegas como eu permaneciam na borda, misturadas às sombras das árvores, observando em silêncio.

Era onde eu sempre estivera.

À margem.

Invisível.

O vento noturno carregava o cheiro de pinho, terra úmida e incenso queimado. Cada respiração parecia pesada demais, como se o próprio ar estivesse carregado de expectativa. Eu sentia isso na pele, um arrepio constante que subia pelos meus braços e se alojava no fundo do meu peito.

Algo estava errado.

Não no sentido ruim — mas no sentido perigoso.

Meu coração batia rápido demais, e eu não entendia o motivo. A cerimônia ainda nem havia começado oficialmente, mas meu corpo reagia como se estivesse prestes a ser lançado de um penhasco.

— Elira.

A voz suave de Mara, outra Ômega, me alcançou. Ela estava ao meu lado, com os ombros encolhidos e o olhar baixo, como se temesse chamar atenção até da Lua.

— Você está pálida. Tem certeza de que está bem?

Assenti, mesmo sem estar. Não queria falar. Qualquer som parecia um erro naquela noite.

Então, os tambores começaram.

Um som grave, profundo, que ecoou pela floresta e fez o chão vibrar sob meus pés. O murmúrio da matilha cessou imediatamente. Todos se viraram para a entrada da clareira, onde os Alfas surgiam em formação.

E no centro deles… ele.

Kael Blackfang.

Não importava quantas vezes eu o tivesse visto antes — e foram muitas, à distância, sempre à distância —, meu corpo reagia da mesma forma. Tensão. Alerta. Um respeito instintivo misturado a algo que eu nunca ousara nomear.

Ele era alto, mais do que a maioria, com ombros largos e postura firme. O cabelo escuro caía de forma desleixada sobre a testa, e seus olhos dourados refletiam a luz da Lua como se pertencessem mais à noite do que ao mundo dos vivos.

O Alfa Supremo.

O homem que comandava não apenas nossa matilha, mas várias outras sob alianças antigas.

Quando ele entrou no círculo, o ar pareceu se dobrar à sua presença.

Todos se curvaram.

Eu também.

Mas algo dentro de mim se recusou a baixar a cabeça por completo.

Foi sutil. Um erro mínimo. Ainda assim, senti.

O calor.

Não vinha da fogueira central. Vinha de dentro.

Meu peito ardeu, como se um fio invisível tivesse sido puxado com força. Levei a mão ao colarinho do vestido simples que eu usava, tentando respirar fundo.

— Não agora… — murmurei para mim mesma.

A cerimônia prosseguiu. Os anciãos entoaram cânticos antigos, palavras na língua da Lua, invocando equilíbrio e verdade. O ritual era o mesmo de sempre — pelo menos, era o que eu pensava.

Até Kael erguer o olhar.

Eu senti antes de ver.

Foi como um impacto direto no estômago. Um choque que percorreu minha espinha e me fez dar um passo involuntário para trás.

Quando levantei o rosto, nossos olhares se encontraram.

O mundo desapareceu.

Não havia mais clareira, nem matilha, nem tambores. Apenas ele. Apenas eu. E algo antigo, poderoso, despertando entre nós.

O vínculo.

Meu corpo reagiu de forma traiçoeira. O coração acelerou, a respiração falhou, e uma onda de calor se espalhou pela minha pele. Era errado. Impossível. Ridículo.

Eu era uma Ômega sem posição, sem influência, sem nada.

Ele era o Alfa.

Kael franziu o cenho por uma fração de segundo — tempo suficiente para eu saber que ele sentira também. Seus olhos dourados escureceram, e a tensão tomou cada músculo de seu corpo.

Não.

Não podia ser.

A Lua Sombria parecia pulsar acima de nós, como se observasse em silêncio cruel.

— Alfa Kael? — chamou um dos anciãos, percebendo a interrupção no fluxo do ritual.

Kael não respondeu de imediato.

Seu olhar permaneceu preso ao meu, intenso demais, afiado demais. Eu quis desviar. Juro que quis. Mas algo me mantinha ali, presa, exposta.

Mate.

A palavra ecoou na minha mente como um trovão.

Não completo. Não selado. Mas real o suficiente para doer.

Um murmúrio começou a se espalhar pela matilha. Alguns notaram a tensão. Outros apenas sentiram o peso no ar.

Eu senti vergonha.

Porque, mesmo sem ninguém dizer nada, eu sabia: se aquilo fosse verdade, se a Lua tivesse cometido aquele erro… eu seria o erro.

Kael finalmente desviou o olhar. Um gesto simples. Devastador.

— Continue — disse ele aos anciãos, com a voz fria, controlada.

O ritual seguiu, mas nada mais fez sentido para mim. Cada palavra cantada parecia distante. Cada batida do tambor ecoava dentro do meu peito como um aviso.

Isso não terminaria bem.

Quando a cerimônia se aproximou do fim, os anciãos chamaram os presentes ao centro para o reconhecimento final da Lua — o momento em que vínculos latentes podiam se revelar.

Meu estômago se revirou.

Eu não deveria ir. Ômegas raramente eram chamadas. Mas, naquela noite, senti pés que não me obedeciam me levarem adiante, como se algo maior tivesse decidido por mim.

O círculo pareceu se estreitar.

Kael estava ali, imóvel, com os punhos cerrados ao lado do corpo.

Quando parei a poucos passos dele, o ar entre nós ficou pesado demais para ignorar.

O reconhecimento aconteceu no instante em que ficamos frente a frente.

Não houve luz. Não houve explosão visível.

Houve silêncio.

E então, dor.

Um laço se formou e se rompeu parcialmente ao mesmo tempo, como se estivesse condenado desde o início. Eu arquejei, levando a mão ao peito, sentindo o coração bater descompassado.

Os anciãos se entreolharam.

— A Lua falou… — murmurou um deles, confuso.

Kael ergueu o queixo.

E, naquele momento, eu soube.

Ele não me aceitaria.

O orgulho dele era maior que qualquer destino.

E a Lua Sombria, impassível no céu, apenas observava enquanto minha vida começava a ruir.

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