CAPÍTULO 5 — A FUGA DE ELIRA

Eu não esperei o amanhecer seguinte.

Não esperei ordens.

Não esperei permissão.

Esperei apenas o momento em que a vila mergulhou no silêncio profundo da madrugada — quando até os lobos mais atentos relaxam a guarda.

O céu ainda estava escuro, mas a Lua Sombria já começava a perder o tom vermelho intenso. Ela parecia menor agora. Mais distante.

Como se estivesse se retirando depois de ter feito seu estrago.

Eu carregava apenas o essencial: uma pequena bolsa de couro com roupas simples e um cantil de água. Nada que denunciasse planos grandiosos.

Não era uma guerra.

Era uma saída.

Mas meu coração sabia que era mais do que isso.

Cada passo que eu dava para longe dos alojamentos fazia o vínculo reagir. Não como dor intensa, mas como tensão crescente — um fio esticado demais.

Eu parei na borda da floresta.

Atrás de mim estava tudo o que eu conhecia.

À frente… o desconhecido.

Respirei fundo.

— Eu não sou sua prisão — sussurrei para o vento.

E dei o primeiro passo para dentro da mata.

A floresta era diferente à noite.

Os sons eram mais vivos. Mais atentos. Cada galho quebrado sob meus pés parecia um anúncio da minha decisão.

Quanto mais eu avançava, mais o vínculo reagia.

Primeiro, uma pressão leve no peito.

Depois, uma queimação.

Não era apenas emocional. Era físico. Meu lobo inquietava-se sob a pele, confuso, alerta.

Ele estava sentindo.

Eu sabia.

A distância não era neutra.

Era uma ruptura gradual.

Caminhei mais rápido.

Se eu hesitasse, voltaria.

Se eu pensasse demais, o medo venceria.

Então eu corri.

O ar frio cortava meu rosto enquanto eu atravessava as trilhas pouco usadas. As árvores pareciam fechar-se atrás de mim, como se guardassem o segredo da minha partida.

E então aconteceu.

A dor.

Não como antes.

Não como a rejeição.

Foi súbita.

Como se algo tivesse sido puxado violentamente para trás.

Eu tropecei, apoiando a mão em um tronco áspero para não cair. Meu coração disparou, e por um segundo achei que o vínculo estivesse se rompendo de vez.

Mas não.

Ele não se rompeu.

Ele resistiu.

Vibrando. Reagindo.

Como se alguém do outro lado tivesse acabado de perceber.

Kael

O impacto foi imediato.

Eu estava no centro do salão principal quando senti.

Uma contração violenta no peito.

Não era dor comum. Não era fraqueza.

Era o vínculo.

Eu parei no meio da frase que estava dizendo aos Betas.

— Alfa?

Ignorei a pergunta.

Fechei os olhos por um segundo, concentrando-me na sensação.

Ela estava se afastando.

Não emocionalmente.

Fisicamente.

O fio que nos ligava estava sendo esticado além do que deveria.

— Elira — murmurei, quase involuntariamente.

Os Betas se entreolharam.

Eu dei dois passos abruptos para trás, tentando estabilizar a respiração.

Não podia ser.

Ela não ousaria.

Mas o vínculo não mentia.

Cada metro que ela colocava entre nós era uma pressão nova no meu peito.

Raiva surgiu primeiro.

Como ela se atrevia?

Depois veio algo pior.

Preocupação.

Elira

Eu senti.

A mudança.

O vínculo deixou de ser apenas tensão. Agora havia resposta.

Ele sabia.

Uma parte cruel de mim sentiu satisfação.

Outra parte sentiu medo.

Se ele viesse atrás de mim…

Eu não sabia se teria forças para continuar.

A dor aumentou de novo.

Dessa vez mais intensa.

Levei a mão ao peito e me ajoelhei na terra úmida.

Era como se o vínculo estivesse sendo puxado em direções opostas.

Ele tentando me manter.

Eu tentando me libertar.

— Não… — sussurrei entre os dentes.

A floresta ficou silenciosa ao meu redor.

Eu respirei fundo, forçando meu corpo a se levantar.

Eu não estava fugindo por fraqueza.

Eu estava saindo porque precisava existir fora da sombra dele.

Mais alguns passos.

Mais distância.

A dor se transformou.

Não desapareceu.

Mas mudou.

De queimação aguda para um eco constante.

Como se o vínculo tivesse entendido que não poderia me impedir.

Kael

Ela não estava apenas caminhando.

Ela estava deixando a matilha.

A realização me atingiu como um golpe.

— Preparem dois lobos — ordenei aos Betas. — Agora.

— Alfa, o que—

— Agora.

Minha voz não deixou espaço para questionamentos.

Eu senti novamente.

Mais distante.

Mais fraca.

Mas ainda lá.

O vínculo não estava morrendo.

Estava sendo forçado a se adaptar à ausência.

E isso me irritava mais do que deveria.

Ela não podia simplesmente sair.

Não depois do que aconteceu.

Não com o vínculo instável daquele jeito.

Mas, no fundo, eu sabia.

Eu não estava reagindo como Alfa.

Estava reagindo como homem.

E isso era ainda mais perigoso.

Elira

A primeira luz do amanhecer começou a surgir entre as árvores quando eu finalmente parei.

Eu estava longe o suficiente para não ouvir mais nada da vila.

Longe o suficiente para que o ar parecesse diferente.

O vínculo ainda estava ali.

Mas mais silencioso.

Mais distante.

Como uma cicatriz recente.

Eu toquei o próprio peito.

Ele sentiu.

Eu tinha certeza.

Ele sentiu o momento exato em que escolhi ir.

E, pela primeira vez desde a cerimônia, a dor não vinha acompanhada de vergonha.

Vinha acompanhada de decisão.

Eu não sabia para onde estava indo.

Não sabia o que me esperava.

Mas sabia de uma coisa com clareza absoluta:

Eu não voltaria para me curvar.

Se ele quisesse me encontrar…

Se ele decidisse que o vínculo importava mais do que o orgulho…

Ele teria que atravessar mais do que a floresta.

Teria que atravessar a própria escolha que fez diante de todos.

O vento soprou suave.

A Lua Sombria já não era visível.

Mas a marca que ela deixou em mim era.

Eu respirei fundo.

E continuei andando.

Sem olhar para trás.

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