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CAPÍTULO 2 — O RECONHECIMENTO DO MATE

O silêncio que se seguiu foi pior do que qualquer grito.

A clareira inteira parecia suspensa no tempo, como se até a floresta tivesse prendido a respiração. O círculo sagrado, antes cheio de cânticos e movimento, agora era um espaço de expectativa pesada, quase sufocante.

Eu ainda estava ali.

No centro.

Exposta.

Meu coração batia tão forte que doía. Cada pulsação ecoava no meu ouvido, misturada ao som distante do vento passando entre as árvores. A Lua Sombria brilhava acima de nós, imensa e cruel, iluminando cada rosto voltado para mim — alguns curiosos, outros desconfiados, muitos julgadores.

Eu quis recuar.

Quis correr.

Quis desaparecer.

Mas meus pés não se moviam.

O vínculo pulsava dentro de mim como uma ferida aberta. Não era completo, eu sentia isso. Faltava algo. Como se estivesse quebrado antes mesmo de nascer. Ainda assim, era forte o suficiente para me fazer tremer inteira.

Ergui o olhar devagar.

Kael Blackfang estava a poucos passos de mim.

Ele parecia uma estátua esculpida em pedra antiga. O rosto impassível, a postura rígida, os olhos dourados fixos em algum ponto acima da minha cabeça — em qualquer lugar que não fosse em mim.

Isso doeu mais do que se ele tivesse gritado.

— Anciãos — disse Kael, por fim, com a voz firme, controlada demais. — Não houve reconhecimento válido.

Um murmúrio percorreu a matilha como um arrepio coletivo.

Meu estômago se contraiu.

— Alfa — respondeu um dos anciãos mais velhos, aproximando-se com cautela. — A Lua reagiu. O laço foi sentido por ambos.

Por ambos.

Kael apertou o maxilar. Eu vi o músculo se contrair, vi o esforço que ele fazia para manter o controle. O vínculo o incomodava. Eu sentia isso. Cada vez que meu coração acelerava, algo se agitava no ar ao redor dele também.

Ele sentia.

Mesmo negando.

— A Lua pode testar — respondeu Kael. — Mas não decide sozinha.

Alguns lobos trocaram olhares. Outros franziram a testa. O clima começava a mudar, passando da curiosidade para a tensão aberta.

Meu rosto queimava.

Eu não queria estar ali. Não queria ser o centro de algo tão grande, tão errado. Eu era só Elira. Uma Ômega sem importância, criada para servir, não para desafiar o destino de um Alfa.

— Elira — chamou uma das anciãs, com a voz suave, porém firme. — Aproxime-se.

Minhas pernas tremiam quando dei mais um passo à frente. Senti dezenas de olhos me seguindo, avaliando cada detalhe meu como se tentassem encontrar a falha que justificasse aquele erro da Lua.

Porque era isso que todos pensavam.

Um erro.

A anciã estendeu a mão, tocando meu pulso. Um arrepio percorreu meu corpo quando ela fechou os olhos, concentrando-se. O ar ao nosso redor vibrou levemente, como se algo invisível estivesse sendo puxado à superfície.

Prendi a respiração.

Kael deu um passo involuntário à frente.

Foi rápido. Quase imperceptível. Mas eu vi.

E soube.

O vínculo respondeu.

Meu peito ardeu com mais intensidade, uma dor misturada a um calor estranho, quase desesperado. Levei a mão ao coração, sentindo as lágrimas ameaçarem cair.

— Há um laço — disse a anciã, abrindo os olhos devagar. — Incompleto, instável… mas verdadeiro.

O silêncio explodiu em murmúrios.

— Uma Ômega?

— Isso é impossível.

— O Alfa Supremo?

As palavras cortavam como lâminas.

Kael ergueu a mão, exigindo silêncio imediato. A matilha obedeceu, como sempre. O poder dele era absoluto.

— Olhem para ela — disse ele, a voz fria, ecoando pela clareira. — Olhem bem.

Senti meu corpo enrijecer.

— Ela não tem força — continuou. — Não tem posição. Não tem nada que a torne digna de carregar o título de Luna.

Cada palavra era um golpe.

Eu queria gritar que não tinha pedido aquilo. Que não escolhera ser ligada a ele. Que também sentia medo. Mas minha garganta estava fechada demais para qualquer som.

— O vínculo — Kael prosseguiu — é uma falha da Lua. E falhas precisam ser corrigidas.

Meu coração disparou.

— Alfa Kael — tentou intervir um dos Betas. — A tradição—

— Eu conheço a tradição — interrompeu ele, ríspido. — E conheço minhas responsabilidades.

Ele finalmente olhou para mim.

Diretamente.

Seus olhos dourados encontraram os meus, e por um instante — apenas um instante — vi algo diferente ali. Conflito. Raiva. Algo que se parecia perigosamente com dor.

O vínculo pulsou com força.

Eu dei um passo para trás, instintivamente.

— Não — ele disse, baixo, como se falasse mais para si mesmo do que para mim. — Isso não vai acontecer.

A anciã retirou a mão do meu pulso.

— Alfa, a Lua Sombria não se manifesta sem razão — disse ela. — Rejeitar um laço, mesmo incompleto, pode ter consequências.

Kael endireitou os ombros.

— Eu assumo as consequências.

As palavras ecoaram pelo círculo.

Meu mundo começou a girar.

— Elira — chamou a anciã, com um olhar quase piedoso. — Você entende o que está sendo dito?

Entender?

Como eu poderia não entender?

Assenti lentamente, sentindo as lágrimas finalmente escorrerem, quentes e silenciosas.

— Sim — consegui responder, com a voz fraca. — Eu entendo.

Eu não era desejada.

Nunca fui.

O vínculo ainda pulsava, insistente, como se implorasse para não ser destruído. Era isso que doía mais. Saber que algo tão profundo podia ser descartado com tanta facilidade.

Kael deu um passo à frente.

O círculo pareceu se fechar ainda mais.

— Diante da matilha — começou ele, com a voz clara, poderosa — e sob a luz da Lua Sombria…

Meu coração quase parou.

Eu quis fechar os olhos. Não consegui.

— Eu, Kael Blackfang, Alfa Supremo, rejeito este vínculo.

O impacto foi imediato.

Uma dor lancinante atravessou meu peito, como se algo tivesse sido rasgado dentro de mim. Arquejei, perdendo o equilíbrio por um segundo. O vínculo gritou — não em som, mas em sensação — antes de se partir ainda mais, deixando um vazio cruel no lugar.

Ouvi exclamações.

Senti olhares.

Senti vergonha.

Kael permaneceu imóvel.

— Não a reconheço como minha companheira — concluiu ele. — E nunca a reconhecerei como Luna.

O silêncio que se seguiu foi absoluto.

E então, meu mundo desabou.

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