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CAPÍTULO 4 — DOR E HUMILHAÇÃO

Na manhã seguinte, a matilha já sabia.

Não que não tivesse presenciado. Mas havia uma diferença cruel entre assistir a algo acontecer… e repetir aquilo como história.

E eles repetiram.

Cada passo que dei pelos caminhos de terra da vila parecia ecoar mais alto do que deveria. Conversas diminuíam quando eu passava. Olhares se desviavam — ou se demoravam tempo demais.

Eu nunca fui notada antes.

Agora eu era impossível de ignorar.

A rejeitada.

A Ômega que ousou ser escolhida pela Lua.

Eu mantive o queixo erguido, mesmo sentindo o vínculo instável vibrar dentro do peito. Não era mais aquela dor aguda da noite anterior — agora era uma queimação constante, como uma brasa que se recusava a apagar.

Dormir fora impossível.

Toda vez que fechava os olhos, revivia o momento.

“Nunca a reconhecerei como Luna.”

A frieza da voz dele.

O silêncio da matilha.

A sensação de estar sendo arrancada de mim mesma.

— Elira.

Parei ao ouvir meu nome.

Lyra.

Ela estava encostada perto do poço central, cercada por duas lobas de posição mais alta. O sorriso dela era sutil demais para ser inocente.

— Eu só queria dizer que sinto muito pelo que aconteceu — disse ela, com falsa suavidade.

As duas ao lado dela trocaram olhares.

Eu permaneci em silêncio.

Ela se aproximou um passo.

— Deve ser difícil… acreditar que a Lua escolheu você. Imagino o constrangimento.

Constrangimento.

Eu senti o vínculo reagir. Uma vibração incômoda. Não por causa dela.

Por causa dele.

Ele estava perto.

Eu não sabia como, mas sentia.

— A Lua não erra — respondi, com voz firme.

Lyra inclinou a cabeça.

— Talvez não. Mas Alfas escolhem.

O golpe foi preciso.

Ela não precisava dizer mais nada.

O que doía não era a rejeição da Lua. Era a escolha dele.

Lyra passou por mim, deixando um rastro de perfume e vitória.

Eu respirei fundo e continuei andando.

Mas então eu o senti.

Mais forte dessa vez.

Como se alguém tivesse puxado o fio invisível entre nós.

Meu coração acelerou involuntariamente.

Ele estava definitivamente próximo.

E, antes que eu pudesse evitar, virei a esquina do alojamento principal… e dei de frente com Kael.

O impacto foi silencioso, mas devastador.

Ele estava sozinho.

Sem Lyra.

Sem Betas.

Sem plateia.

A luz do dia tornava seus traços ainda mais duros. Ele parecia mais tenso do que na noite anterior. Havia sombras sob seus olhos, quase imperceptíveis.

O vínculo reagiu de forma violenta.

Calor.

Dor.

Reconhecimento.

Eu desviei o olhar primeiro.

Não por submissão.

Por autopreservação.

— Você não deveria estar circulando sozinha — ele disse, a voz baixa, controlada.

Eu ri, sem humor.

— Ontem eu estava exposta diante de toda a matilha. Acho que andar sozinha não é o maior risco que enfrento.

Silêncio.

Ele se aproximou um passo.

O ar ficou pesado.

— O vínculo ainda não está rompido — disse ele.

Eu ergui o olhar lentamente.

— Eu percebi.

Seus olhos dourados encontraram os meus, e ali havia algo que ele estava lutando para esconder.

Irritação.

Inquietação.

Talvez… culpa?

— Ele vai enfraquecer — afirmou Kael. — Com o tempo.

Mentira.

Nós dois sabíamos.

Eu senti.

Ele também sentiu.

— Então por que você parece tão incomodado? — perguntei, antes que pudesse me conter.

A pergunta pairou entre nós.

O maxilar dele se contraiu.

— Porque instabilidade enfraquece a liderança.

Claro.

Sempre a liderança.

Sempre o poder.

Nunca eu.

— Você não me rejeitou por causa da matilha — eu disse, finalmente entendendo. — Você me rejeitou por medo.

Os olhos dele brilharam perigosamente.

— Cuidado com suas palavras, Ômega.

A palavra soou como um lembrete.

De posição.

De hierarquia.

Mas algo dentro de mim já estava cansado de se encolher.

— Eu não pedi por esse vínculo — falei, a voz mais firme do que eu esperava. — E você não pode fingir que ele não existe só porque não gosta do que ele diz sobre você.

O vínculo pulsou mais forte.

Ele deu mais um passo.

Agora estávamos próximos demais.

O cheiro dele — madeira, ferro, poder — invadiu meus sentidos. Meu lobo reagiu, traidor, reconhecendo o dele mesmo sob a tensão.

— Você acha que isso é sobre gostar? — ele murmurou.

O tom era diferente agora.

Mais baixo.

Mais perigoso.

— Eu sou Alfa Supremo. Eu não posso me ligar a alguém que—

Ele parou.

Mas eu entendi.

Alguém que a matilha considera fraca.

Alguém que não fortalece alianças.

Alguém que não é politicamente útil.

— Então me mantenha longe — eu disse, dando um passo para trás. — Se sou tão inadequada, mantenha distância.

Foi quando senti.

O puxão.

Não físico.

Instintivo.

Ele não queria que eu me afastasse.

O corpo dele reagiu antes da mente. O olhar escureceu levemente.

E então ele fez algo que me surpreendeu.

Ele fechou os olhos por um segundo.

Como se estivesse lutando.

Quando os abriu novamente, estavam frios outra vez.

— Você permanecerá na matilha até que o vínculo estabilize — declarou ele.

Uma ordem.

Sempre uma ordem.

— E se eu não quiser? — desafiei.

O silêncio ficou pesado.

— Você não tem escolha.

Eu sorri.

Não de alegria.

Mas de decisão.

— Ontem, você me disse diante de todos que eu não era sua. — Dei mais um passo para trás. — Então não aja como se ainda tivesse direito de decidir sobre mim.

Algo mudou no rosto dele.

Foi rápido.

Quase invisível.

Mas estava lá.

Raiva misturada com algo que parecia… perda.

Eu virei as costas antes que pudesse fraquejar.

Cada passo que eu dava para longe dele doía — não porque eu queria voltar, mas porque o vínculo protestava.

Ele estava sentindo também.

Eu sabia.

Sentia o eco da tensão atravessando aquele fio invisível.

Mas, pela primeira vez, não era só dor.

Era consciência.

Eu não era fraca.

Eu tinha sido descartada.

E isso não é a mesma coisa.

Quando cheguei ao limite da vila, onde a floresta começava a se fechar em sombras densas, parei.

O ar ali era diferente.

Mais livre.

Menos sufocante.

Eu olhei para trás uma última vez.

A matilha parecia tranquila à distância. Como se nada tivesse acontecido.

Como se eu não tivesse sido rasgada diante deles.

O vínculo vibrou novamente.

Mais instável.

Mais inquieto.

Se eu ficasse…

Ele me manteria sob vigilância.

Sob controle.

Sob humilhação constante.

Eu toquei o próprio peito.

— Isso não é uma prisão — murmurei para mim mesma.

Mas estava começando a parecer.

E, pela primeira vez desde a cerimônia, uma ideia clara se formou na minha mente.

Eu não precisava ficar.

Se ele me rejeitou como Luna…

Eu não devia nada à matilha.

Nem a ele.

O vento soprou mais forte, agitando meus cabelos.

A floresta parecia me chamar.

Não como ameaça.

Mas como possibilidade.

Eu respirei fundo.

E soube.

Eu não ficaria para assistir ele decidir o que fazer comigo.

Se a Lua havia me marcado…

Então eu escolheria o que fazer com essa marca.

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