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CAPÍTULO 3 — A REJEIÇÃO PÚBLICA

A dor não foi apenas física.

Ela foi viva.

O momento em que Kael terminou a frase — “Nunca a reconhecerei como Luna” — foi o instante exato em que algo dentro de mim deixou de existir.

O vínculo não desapareceu completamente. Ele não se quebrou como vidro. Ele se rasgou. Ficou irregular. Instável. Um fio partido que ainda queimava sob a pele.

Caí de joelhos no círculo sagrado.

O impacto não foi da queda.

Foi da realidade.

A clareira, que minutos antes estava envolta em respeito e solenidade, agora pulsava com murmúrios descontrolados. Eu podia ouvir tudo.

— Ele a rejeitou.

— Uma Ômega achando que poderia ser Luna?

— A Lua errou desta vez.

A Lua não errou.

Eu senti isso.

Ela não errou. Ele escolheu.

Levantei o olhar lentamente.

Kael não se movia. Seu rosto era uma máscara de autoridade absoluta. Nenhum arrependimento visível. Nenhuma hesitação.

Mas eu ainda sentia o eco do vínculo nele.

Ele estava sentindo também.

Só que estava disposto a esmagar isso para preservar o poder.

Um dos anciãos deu um passo à frente.

— Alfa… a rejeição diante da matilha cria instabilidade. O vínculo não desaparece assim. Ele—

— Eu sei exatamente o que estou fazendo — interrompeu Kael.

A voz dele não estava alterada.

Estava pior.

Fria.

Controlada.

Distante.

Eu tentei me levantar. Minhas pernas falharam na primeira tentativa. A dor no peito não era apenas emocional; parecia que meu próprio lobo estava sendo contido à força, impedido de reagir.

Uma Ômega não desafia um Alfa.

Uma Ômega aceita.

Eu senti vergonha por ainda estar ali.

Por ainda respirar.

Lyra Silverclaw saiu do meio da multidão. Seus passos eram firmes, o queixo erguido, os olhos brilhando com algo que eu reconheci imediatamente: triunfo.

Ela se aproximou de Kael com naturalidade.

— Alfa — disse ela, com uma inclinação elegante de cabeça. — A matilha precisa de estabilidade. Uma decisão firme evita dúvidas.

Era um apoio público.

E estratégico.

Ela queria que todos vissem.

Kael não respondeu diretamente a ela, mas não a afastou.

Aquilo doeu mais do que a rejeição.

Porque ele poderia ter negado o vínculo… mas ainda assim manter distância dela.

Não manteve.

Eu consegui me levantar.

O mundo ainda girava levemente, mas eu me recusei a cair outra vez. Se ele queria me humilhar diante de todos, eu não daria o espetáculo completo.

— A cerimônia está encerrada — declarou Kael.

Encerrada.

Como se eu fosse apenas um erro administrativo resolvido.

Os tambores não tocaram para finalizar. Não houve encerramento tradicional. A matilha começou a se dispersar em pequenos grupos, cochichando.

Cada olhar que cruzava comigo carregava algo diferente: pena, desprezo, alívio.

Eu vi Ômegas abaixarem os olhos rapidamente quando passei por elas.

Eu era um aviso.

O que acontece quando alguém ultrapassa seu lugar.

— Elira.

A voz de Mara veio baixa, hesitante. Ela segurou meu braço.

— Você precisa descansar. O vínculo—

— Não me toque.

Minha resposta saiu mais dura do que eu pretendia.

Não era raiva dela.

Era de mim mesma.

Era do destino.

Era dele.

Eu senti novamente aquela pressão no peito, como se algo ainda estivesse conectado entre nós. Não estava completo. Não estava saudável. Mas estava lá.

E isso era a pior parte.

Porque significava que eu ainda estava ligada ao homem que acabara de me destruir diante de todos.

Kael começou a sair do círculo.

Por um segundo, apenas um segundo, nossos olhares se cruzaram novamente.

Eu esperava ver satisfação.

Não vi.

Vi tensão.

Raiva contida.

E algo que ele estava lutando para suprimir.

Isso me confundiu.

Se ele estava tão certo… por que parecia tão perturbado?

Lyra caminhava ao lado dele agora.

E então ela fez questão de falar alto o suficiente para que eu ouvisse:

— A Lua às vezes testa os mais fortes. Mas você fez o certo, Alfa.

Ele não respondeu.

Mas também não a silenciou.

O círculo sagrado, antes local de honra, agora parecia um tribunal onde eu fora condenada.

A anciã que havia tocado meu pulso se aproximou de mim novamente.

— Filha… — disse ela com cuidado. — O vínculo não está totalmente rompido. Isso pode causar…

— Dor? — completei, com um sorriso fraco. — Eu já senti.

Ela suspirou.

— Não apenas dor. Desequilíbrio. Para ambos.

Ambos.

Então ele também estava sentindo.

Uma parte pequena, amarga, de mim quis que ele sentisse.

Quis que o peito dele ardesse como o meu estava ardendo.

Quis que o orgulho não fosse suficiente para abafar aquilo.

Mas outra parte… ainda o queria.

Isso foi o que mais me envergonhou.

Eu me virei e comecei a andar.

Não para casa.

Não para os alojamentos das Ômegas.

Para a floresta.

O ar estava mais frio agora. A Lua Sombria parecia maior, como se estivesse observando cada passo meu.

Atrás de mim, ouvi passos rápidos.

Parei.

Não queria que fosse ele.

Não podia ser ele.

Mas, quando me virei, não era Kael.

Era um dos Betas.

— O Alfa ordenou que você permaneça na matilha — disse ele, evitando meu olhar direto. — Até segunda ordem.

Eu soltei uma risada baixa.

— Ele me rejeita diante de todos… mas ainda quer me manter sob controle?

O Beta não respondeu.

Não precisava.

Eu entendi.

Não era sobre mim.

Era sobre manter o vínculo sob vigilância.

Era sobre evitar que a fraqueza dele fosse exposta.

O vínculo pulsou novamente.

Mais fraco.

Mais instável.

Mas vivo.

Eu ergui o queixo.

— Diga ao seu Alfa que eu não sou propriedade dele.

O Beta hesitou.

— Elira—

— Diga.

Ele assentiu e recuou.

Eu continuei caminhando até a borda da floresta, onde as sombras eram mais densas e os sons da matilha ficavam distantes.

Ali, finalmente, deixei as lágrimas caírem.

Não chorei como uma Ômega fraca.

Chorei como alguém que foi quebrada publicamente.

A dor queimava. O orgulho estava em frangalhos.

Mas, sob tudo isso, algo novo começava a surgir.

Não era força ainda.

Era revolta.

Se ele pensava que poderia me descartar e seguir como se nada tivesse acontecido… ele estava errado.

A Lua não erra.

E vínculos não desaparecem só porque um Alfa decidiu que não gosta da escolha.

Eu toquei o próprio peito, sentindo o eco da conexão.

— Você vai sentir isso também — sussurrei para a noite.

Porque ele sentiria.

E quando sentisse…

Não haveria cerimônia.

Não haveria matilha.

Não haveria testemunhas.

Apenas nós dois.

E a consequência da escolha dele.

A Lua Sombria continuava brilhando acima de mim.

E, pela primeira vez, eu não me senti pequena sob sua luz.

Eu me senti marcada.

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