Ayres
Eu já aguentei invernos piores, mas nunca com tantas vozes medindo minha respiração.
— “Você pode continuar fingindo para os outros.” — Fenrir voltou, sem empurrar — “Para mim, não dá.”
— Eu sei. — Eu disse, enfim, com o pouco de honestidade que ainda encontrava à mão — Eu sei.
E não foi alívio. Foi rendição temporária à verdade.
Tranquei o quarto por dentro e deixei o silêncio fazer aquilo que nenhuma espada sabe fazer: arrancar máscaras. Tirei os braceletes, deixei o manto cair, lavei o rosto numa bacia de água morna. A água escureceu um tom, como se puxasse um pouco da noite que eu carregava nos olhos.
A mesa guardava coisas que sempre me acalmaram, mapas, facas, listas. Abri o baú menor e encontrei o colar com o dente de lobo do meu avô, presente de “homem para homem” quando fiz treze anos. Coloquei-o por reflexo, como quem chama uma benção herdada. Não ajudou.
Toquei a madeira da janela e olhei a encosta que falhou sob meus pés. Por um segundo, quase pude sentir outro cheir