PROTEÇÃO

O carro freia brusco em frente ao postinho do morro.

A fachada é simples, iluminação fraca, portas de vidro já manchadas pelo tempo. Lá dentro, movimento reduzido — plantão da madrugada, equipe pequena, poucos pacientes espalhados nas cadeiras de plástico.

A porta do carro abre antes mesmo do motor desligar.

Sombra sai primeiro.

Fernanda está nos braços dele, quase desacordada. O sangue atravessou o pano improvisado. O rosto dela está pálido demais. A respiração, irregular.

Ele entra empurrando a porta com o ombro.

— AJUDA! — a voz ecoa pelo posto. — Minha mulher levou um tiro!

O tom é alto, urgente, cortando o ar como lâmina.

Duas enfermeiras levantam da bancada. Um médico surge do corredor.

Imperador entra logo atrás, segurando Rafaela pela cintura. Ela mal sente as próprias pernas. O corpo treme, os olhos estão vidrados, mas ela não solta a mão dele.

— Maca! Agora! — Sombra ordena.

A equipe reage rápido. A maca é trazida às pressas. Sombra deita Fernanda com cuidado, mas firme. Ela geme baixo quando o corpo toca o colchão.

— Pressão caiu — uma das enfermeiras murmura.

— Fer… — Rafaela chama, a voz falhando.

Fernanda abre os olhos com esforço. Vê o teto branco girando. Vê luz forte. Vê vultos.

Então vê Sombra.

Ela agarra a camiseta dele com força inesperada.

— Não vai… — sussurra, quase sem voz. — Fica…

Ele para.

Por um segundo, todo o resto desaparece.

— Eu tô aqui — ele responde, firme.

— Senhor, precisamos que o senhor se afaste — o médico diz, aproximando-se da maca. — Temos que trabalhar.

Sombra não se move.

— Eu fico.

— Não pode. Preciso de espaço.

A tensão cresce.

Imperador, do outro lado da sala, observa tudo em silêncio calculado. Rafaela está sendo conduzida para outra maca, ainda segurando a barra da camisa dele como se fosse a única coisa sólida no mundo.

— Só atendimento feminino — Imperador diz, voz baixa, mas firme. — Só mulheres.

O médico franze o cenho.

— Isso não é possível no momento—

O clique metálico corta a frase ao meio.

Sombra saca a arma. Não aponta direto para ninguém. Mas a mantém visível.

— Quero ver quem vai me tirar daqui — ele diz, sem elevar a voz.

O silêncio cai pesado no posto.

Uma das enfermeiras dá um passo atrás. Outra engole seco.

Imperador não levanta a arma. Ele não precisa. A presença dele já fala o suficiente.

— A gente não veio causar problema — ele diz, frio. — Ela precisa de atendimento. Só isso.

O médico respira fundo. Avalia o cenário. Vê a gravidade da ferida. Vê o sangue. Vê o olhar de Sombra. Decide rápido.

— Enfermeiras comigo. Agora.

As duas mulheres se aproximam. O médico recua, dando espaço.

— Tiro de raspão profundo — uma delas avalia ao retirar o pano. — Precisamos limpar e suturar.

Fernanda aperta mais a camiseta de Sombra.

— Não sai… — ela insiste, os olhos marejados.

Ele hesita por um segundo. Depois inclina o rosto para perto dela.

— Eu não vou.

— Senhor, precisamos de espaço — a enfermeira insiste.

— Faz o que precisa fazer — Sombra responde. — Eu não atrapalho.

Ele guarda a arma lentamente, mas não se afasta.

Do outro lado da sala, Rafaela é colocada na maca. Imperador permanece ao lado dela, mão firme na cintura, sustentando o peso que ela ainda parece incapaz de carregar sozinha.

— Eu tô bem… — ela tenta dizer.

Não está.

Tem arranhões, cortes, hematomas espalhados. O medo ainda vibra na pele.

— Fica tranquila — Imperador diz, olhando diretamente para a enfermeira que se aproxima. — Cuida dela.

— Precisamos examinar — a enfermeira responde, cautelosa. — O senhor—

— Eu fico — ele corta.

A enfermeira não discute.

O posto inteiro parece respirar mais devagar, como se qualquer movimento errado pudesse acender algo maior.

No fundo da sala, Fernanda grita baixo quando o soro toca a ferida. O som corta o ar. Sombra fecha o maxilar, mas não solta a mão dela.

— Já vai passar — a enfermeira diz, concentrada.

— Tá quase — ele repete para ela.

Rafaela vira o rosto na direção do som. O coração dispara.

— Ela vai ficar bem? — pergunta, quase implorando.

Imperador não responde de imediato.

— Vai — ele diz, depois de um segundo. — Sombra ta com ela, não vai sair de lá.

O atendimento continua sob tensão constante.

Soro instalado. Ferida limpa. Pontos sendo preparados.

Sombra permanece imóvel, vigilante, como se o mundo ainda pudesse invadir a qualquer momento.Imperador observa cada detalhe no outro leito.

A escolha já foi feita.

Eles não devolveram.

E agora, dentro daquele posto pequeno, cercados por paredes brancas e medo silencioso, o destino dos quatro estava começando a se entrelaçar de um jeito que nenhum deles tinha planejado.

Do lado de fora, o morro seguia respirando.

Mas ali dentro, algo havia mudado. E não havia mais volta.

 

 

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