Mundo de ficçãoIniciar sessãoO carro entra no galpão devagar.
O barulho do portão de ferro se fechando atrás deles ecoa como um aviso. Imperador desliga o motor, mas não apaga os faróis de imediato. A luz corta o escuro e revela o interior do galpão: caixas empilhadas, poeira suspensa, paredes descascadas, o banheiro antigo nos fundos.
Sombra desce primeiro.
Arma na mão. Olhar varrendo tudo. Cada canto, cada sombra. Ele confere o espaço como quem já espera problema. Imperador sai logo depois, fechando a porta do carro com calma demais para quem está em território fechado.
— Fecha o portão — Imperador diz.
Sombra obedece. O cadeado estala. Agora, só existe o galpão.
Eles começam a descarregar as caixas. Movimento automático, preciso. Nenhuma palavra além do necessário. O silêncio só é quebrado pelo atrito da madeira no chão e pela respiração controlada dos dois.
Então, o barulho. Baixo. Rápido demais para ser vento.
Imperador congela. Sombra também.
Outro som. Um arrastar leve. Um gemido abafado.— Caixa da esquerda — Imperador murmura.
— Banheiro — Sombra responde ao mesmo tempo.
Os dois levantam as armas quase juntos. Imperador apaga os faróis e o galpão mergulha na escuridão. Agora tudo fica mais lento.
Eles se separam sem discutir. Imperador segue pelo lado das caixas. Sombra avança em direção ao fundo, perto do banheiro. Cada passo é medido. Cada respiração é controlada.
Sombra empurra a porta do banheiro com o cano da arma.
E encontra uma menina. Muito jovem.
Encostada na parede, o corpo encolhido, os olhos enormes de medo. Quando vê a arma apontada para ela, treme inteira. Leva alguns segundos até conseguir falar.— Não… por favor… — a voz sai fraca, quase um choro. — Não atira…
Ela levanta as mãos devagar demais, com dificuldade. O movimento denuncia dor. Sangue mancha a roupa na altura da cintura.
Sombra não responde de imediato. Observa. Lê a situação. Não parece armadilha. Não parece alguém pronta para reagir.
— Fica parada — ele ordena, firme, mas sem gritar.
Ela obedece na hora. Fecha os olhos por um segundo, como se esperasse o pior.
— Eu não fiz nada… — ela sussurra. — Eu juro.
Do outro lado do galpão, Imperador contorna as caixas.
— Sai devagar — ele ordena, a voz fria ecoando no espaço vazio. — Mãos visíveis.
Rafaela aparece.
As mãos tremem tanto que mal conseguem ficar erguidas. O rosto está sujo, o cabelo grudado de suor. Ela segura um pano molhado contra algo que Imperador ainda não vê direito.
— Por favor… — ela diz rápido, antes que ele fale qualquer coisa. — Não mata a gente.
Imperador não abaixa a arma.
— Larga o pano.
Rafaela balança a cabeça na mesma hora.
— Não posso… ela tá sangrando.
O nome “ela” faz Imperador apertar o maxilar.
— Quem? — ele pergunta.
— Minha amiga — Rafa responde, com a voz falhando. — Ela se machucou.
Imperador observa melhor. Vê o pano encharcado. Vê as mãos pequenas tentando fazer pressão. Vê o medo que não é ensaiado.
— Sombra — ele chama baixo.
— Tem uma aqui — Sombra responde. — Ferida. Tá perdendo sangue.
O coração de Rafaela dispara. Ela dá um passo à frente sem perceber, mesmo com a arma apontada para ela.
— Por favor — ela implora. — A gente só se escondeu. A gente vai embora. A gente some. Só… não devolve a gente.
Imperador franze o cenho.
— Devolver pra quem?
Rafa engole seco. Olha para o chão, depois para o escuro atrás deles, como se alguém ainda pudesse aparecer ali.
— Pra eles — ela diz. — Pra casa.
— Que casa? — Imperador insiste.
Ela começa a chorar.
— Por favor… — repete, sem conseguir explicar mais nada. — Não devolve a gente.
Sombra se aproxima um pouco mais, ainda mantendo distância. Fernanda respira curto, os olhos marejados, o corpo inteiro tremendo.
— A gente não roubou nada… — ela diz rápido, com medo de morrer ali. — A gente não quer problema. Só ajuda.
Imperador troca um olhar rápido com Sombra.
— Ela precisa de atendimento — Sombra diz, baixo. — Não aguenta muito tempo assim.
Imperador olha para a ferida. Não toca. Mas entende o suficiente.
— Aqui não — ele responde. — Não dá pra ficar com elas aqui.
Rafa ergue o rosto na hora, desesperada.
— Então… então ajuda — ela pede. — Por favor.
Imperador pensa rápido. Galpão não é lugar pra ferido. E menos ainda pra duas meninas assustadas, sangrando, implorando.
— Postinho — Sombra sugere. — Mais perto. Menos pergunta.
Imperador assente.
— É — ele decide. — Posto. Agora.
Sombra se aproxima de Fernanda e ela se encolhe imediatamente. O tipo de medo não é fingimento, o tipo de medo que passa um filme pelos olhos.
— Não… — sussurra. — Não chega perto…
— Ei — ele diz, mais baixo do que costumava. — Eu não vou te machucar.
Ela abre os olhos devagar, encarando ele. Vê a arma abaixada. Vê o olhar atento, mas não agressivo.
— Eu só vou te ajudar a levantar — ele continua. — Se você cair aqui, piora.
Fernanda respira fundo, com dificuldade.
— Promete? — pergunta, quase criança.
— Prometo.
Ela hesita mais um segundo. Depois assente. Sombra passa o braço com cuidado por trás dela, sustentando o corpo. Fernanda geme baixo, mas não grita. Ele pega um pano limpo do carro e pressiona contra a ferida.
— Aguenta — ele diz. — Já já chega.
Do outro lado, Imperador abre a porta do carro da frente.
— Vem — ele diz a Rafaela, estendendo a mão.
Ela olha para a mão como se não acreditasse que aquilo estava acontecendo. Depois segura, com força. Imperador ajuda ela a subir no banco da frente. Fecha a porta com cuidado.
Sombra entra atrás com Fernanda no colo. Segura firme, mantendo pressão no pano.
— Vai dar certo — ele murmura, mais pra ela do que pra si mesmo.
Fernanda fecha os olhos por um segundo, vencida pela dor, mas mantém a mão agarrada na camisa dele.
Imperador liga o carro e o portão se abre de novo. O galpão fica para trás, escuro, silencioso — guardando armas… e o início de algo que nenhum deles planejou.
O carro arranca.
E, pela primeira vez naquela noite, Rafaela respira fundo.
Ainda com medo. Mas viva.







