Mundo de ficçãoIniciar sessãoA decisão de sedar foi rápida.
Fernanda já não conseguia manter os olhos abertos. O corpo entrava e saía de um estado de consciência instável. Rafaela tremia tanto que as mãos não paravam quietas nem sobre a maca.
— Vamos precisar sedar — a médica explicou, firme, mas cuidadosa. — Elas estão em choque. O corpo precisa descansar.
Sombra olhou para Fernanda. Ela ainda segurava sua camiseta, mas os dedos estavam fracos.
— Ela vai acordar? — ele perguntou.
— Vai. Mas precisa dormir agora.
Imperador fez um movimento quase imperceptível de cabeça.
— Faz.
Sombra assentiu também.
As duas receberam a medicação quase ao mesmo tempo. Primeiro Rafaela, que tentou resistir.
— Eu não quero dormir… — murmurou.
— Eu tô aqui — Imperador disse, baixo, sustentando o olhar dela até que os olhos pesassem demais.
Ela adormeceu devagar, como se estivesse lutando contra o próprio corpo.
Fernanda foi depois.
O soro escorria lento. A respiração começou a regularizar. A mão dela finalmente soltou a camiseta de Sombra.
— Eu volto — ele disse, mesmo sabendo que ela já não estava ouvindo.
Cada uma foi levada para um quarto separado.Corredores brancos, luz fria, silêncio quebrado apenas pelo bip distante de equipamentos simples. Imperador seguiu com Rafaela. Sombra acompanhou a maca de Fernanda até o quarto no fim do corredor.
A porta se fechou.
Dentro do quarto, o ambiente era simples: cama hospitalar, monitor básico, uma cadeira ao lado. Fernanda estava pálida contra o lençol branco. O curativo já feito na lateral do corpo. O soro pingando constante.
Uma enfermeira entrou logo depois, trazendo uma prancheta.
— O senhor é o responsável? — ela perguntou, cautelosa.
Sombra demorou um segundo antes de responder.
— Sou.
Ela respirou fundo.
— Preciso falar com você.
Ele cruzou os braços, atento.
— O tiro foi superficial, mas profundo o suficiente para causar perda significativa de sangue. Limpamos, suturamos, está estabilizada. Não atingiu órgão vital.
Ele assentiu, absorvendo cada palavra.
— Ela vai ficar bem?
A enfermeira hesitou por um segundo.
— Fisicamente, sim. Mas…
O silêncio que veio depois pesou mais que qualquer diagnóstico.
— Mas o quê? — Sombra perguntou.
A enfermeira olhou para a porta fechada, depois para ele novamente.
— O corpo dela mostra sinais de agressões antigas. Muitas.
Ele não piscou.
— Que tipo?
— Fraturas mal consolidadas. Costelas que já quebraram e cicatrizaram tortas. Um dos braços sofreu deslocamento antigo, provavelmente nunca tratado. Marcas de queimadura, mas repetidas. Cicatrizes antigas demais para serem recentes.
Cada frase era um golpe seco.
— E não é só isso — ela continuou, com voz mais baixa. — O padrão das lesões… sugere abuso prolongado.
O maxilar de Sombra travou.
— Quanto tempo?
— Anos. Não foi algo isolado.
O silêncio que tomou o quarto foi diferente de qualquer outro daquela noite.
— Estão extremamente desidratadas — a enfermeira continuou. — O organismo mostra sinais de privação alimentar. Não é de agora. Parece que ficavam longos períodos sem comida. E quando tinham, era pouco.
Sombra sentiu algo estranho no peito. Não era raiva ainda. Era algo mais denso. Mais fundo.
— Ela vai se recuperar? — perguntou, a voz mais controlada do que o corpo permitia.
A enfermeira sustentou o olhar dele.
— Vai. Mas vai ser um processo longo. Fisicamente, vai precisar de acompanhamento. Nutricional, ortopédico. E psciologico… ainda mais.
Ele assentiu devagar.
— Obrigado.
A enfermeira saiu em silêncio. A porta se fechou de novo.
Sombra ficou sozinho com ela.
O quarto parecia pequeno demais de repente.Ele se aproximou da cama devagar. Observou cada detalhe agora com outros olhos. Não só a ferida recente. Mas as marcas antigas. As linhas finas que cruzavam a pele. As cicatrizes que contavam histórias que ela nunca tinha dito.
Mesmo machucada. Mesmo pálida. Mesmo coberta por curativos.
Ela era bonita.
Não no sentido óbvio. Mas delicada. Traços suaves. Boca pequena. Cabelo escuro espalhado no travesseiro. Algo nela parecia frágil demais para o mundo que conheceu.
Ele puxou a cadeira e sentou ao lado da maca. Ficou alguns segundos só olhando.
Depois, devagar, tocou a mão dela. A pele estava fria, mas não gelada. Os dedos relaxados pela sedação. Ele não era homem de promessa. Não era homem de sentimentalismo.Mas ali, naquele quarto silencioso, algo tinha mudado.
— Eu não sei de onde você veio — ele disse baixo. — Nem quem fez isso com você.
A mão dela não reagiu.
— Mas eu sei que não vai voltar pra lá.
Ele apertou os dedos dela com cuidado.
— Eu vou proteger você.
A palavra “proteger” não fazia parte da rotina dele. Não daquela forma.
— Custe o que custar.
O monitor continuava o ritmo constante.
Lá fora, no outro quarto, Imperador também estava sentado ao lado de Rafaela.
Mas ali, naquele quarto silencioso, Sombra não era sub. Não era executor. Não era o homem que resolvia problemas no escuro.
Era só alguém olhando para uma menina quebrada pelo mundo.
E decidindo que, daquela vez, o escuro não ia levar mais ninguém.







