Mundo ficciónIniciar sesiónCALEB
A ligação com a minha mãe se encerra, mas o eco das suas palavras continua a martelar dentro da minha cabeça com uma força ensurdecedor. Fico parado no meio da biblioteca, o celular ainda preso na mão, encarando a penumbra que se espalha pela sala. A verdade doeu, mas foi o choque de realidade que eu precisava. Minha mãe tem razão. Hadasha nunca mentiu. Ela apenas se protegeu e protegeu os bebês de um homem que a deixou para trás por imaturidade. Com apenas dezoito anos, enfrentando o medo do desconhecido e descobrindo que esperava gêmeos, ela ergueu a cabeça e lutou. Daria a própria vida por aquelas crianças. E agora, sabendo disso, a desconfiança que me consome não é mais uma mera dúvida: é uma certeza que precisa de provas. Se a minha mãe nunca a viu com homem nenhum, e nem mesmo os pais dela sabem quem é o pai, Zara e Owen só podem ser meus filhos. Mas como atravessar a muralha que a Hadasha ergueu entre nós? Como me aproximar sem que ela se afaste ainda mais? Não vou contratar um detetive; seria uma invasão vil, uma falta de respeito imperdoável com a privacidade dela. Mas eu preciso saber. A urgência me sufoca. Vou descobrir a rotina dela no final de semana. Pego o endereço com o RH da empresa e vou até o prédio dela no próximo sábado. Levo presentes para as crianças, arranjo um jeito de me aproximar e, sem que ela perceba, pego uma amostra de saliva dos dois. Faço o exame de DNA em segredo. Se o resultado der positivo, eu não vou atacá-la. Vou pressioná-la com a verdade na mão, fazendo-a olhar nos meus olhos e admitir o que escondeu por cinco anos. Ela não vai ter para onde correr. É isso. É o que eu vou fazer. Estou prestes a guardar o telefone no bolso quando o aparelho começa a vibrar intensamente no meu estridente visor. O nome brilha na tela: Livi. Sinto uma onda de repulsa antes mesmo de atender. Deslizo o dedo pela tela e levo o celular ao ouvido, sem paciência alguma para jogos. — O que você quer, Livi? — O que eu quero, Caleb? — a voz dela vem estridente, carregada de uma indignação superficial que me dá ânsia. — Você não pode terminar comigo desse jeito! Por telefone? Nós estamos namorando há um ano! Eu pensei que você fosse me pedir em casamento em breve! — Pensou errado, Livi — respondo, seco, a voz fria como gelo. — Eu não tenho intenção nenhuma de me casar com você. E, sinceramente, nunca tive. — Como não?! Você está vivendo o auge da sua carreira, eu estou no auge da minha, nós formamos o casal perfeito! — Você não entende, não é? — dou uma risada sem humor, balançando a cabeça no escuro. — Pensou errado. E outra coisa, Livi... nessas idas e vindas do nosso relacionamento, quantos caras você não já saiu por aí enquanto estávamos afastados? De onde vem essa fissura por mim? Eu já estou de saco cheio da sua falta de limites, de você invadir o meu escritório a hora que quer, passando por cima da minha secretária enquanto estou em reuniões sérias com diretores. Você não respeita nada nem ninguém. Acabou, Livi. Acabou por tudo. Você é uma pessoa invasiva demais e eu simplesmente cansei. — É impressionante... — ela solta uma gargalhada histérica do outro lado da linha, em Milão. — É impressionante como você ficou desse jeito depois que aquela nerd horrorosa apareceu! Você e aquela nerd estão tendo alguma coisa, Caleb? Responda! — Você ficou louca? — minha voz sobe um tom, tomada por um desprezo visceral. — A Hadasha está na minha empresa como uma executiva extremamente competente. Ela me trata puramente como patrão, com profissionalismo impecável. Ela nem sequer me chama de Caleb, é apenas "Senhor Wilson". Não tem nada a ver com ela. Eu fiquei de saco cheio de você mesmo. E quer saber? Essa sua temporada de três meses em Milão foi excelente para abrir os meus olhos. A distância me fez ver com clareza que você não é a mulher que eu quero ao meu lado pelo resto dos meus dias. O silêncio do outro lado da linha dura apenas dois segundos antes de ser quebrado por uma risada gélida, cruel e desdenhosa. — É por isso... — Livi dispara, o tom transbordando veneno. — É por isso que quando eu descobri que estava grávida de você, eu interrompi a gravidez. O mundo parece parar de girar no mesmo instante. O ar tranca na minha garganta e o chão de madeira sob meus pés simplesmente desaparece. — O... o que você está dizendo? — minha voz sai trêmula, desfigurada pelo choque. — Isso mesmo que você ouviu, Caleb — ela responde com uma naturalidade estarrecedora, sem um pingo de remorso. — Há dois meses eu descobri que estava grávida de você e interrompi a gravidez. E quer saber? Ainda bem que eu fiz isso! — Você... você interrompeu uma gravidez sem me falar nada?! — esbravejo, a dor e o horror rasgando o meu peito. — Como assim, Livi?! Como você pôde fazer uma atrocidade dessas?! Era uma vida! Era o meu filho! — É o meu corpo, Caleb! Meu corpo, minhas regras! — ela rebate na hora, com arrogância. — Eu não quero ser mãe e não vou destruir o meu corpo, a minha barriga e a minha carreira por causa de um filho! — Como que você me fala uma coisa dessas de forma tão banal?! — pergunto, a mão livre cravando as unhas na mesa, lutando para não sucumbir à náusea que me domina. — Você nem me deu a chance de saber! Você escondeu isso de mim! — Ah, por favor, Caleb! Alô? Eu vivo viajando a trabalho! Nós estávamos namorando há um ano e você nunca assumiu um compromisso realmente sério comigo, vivia oscilando! E quer saber mais? Esse não foi o primeiro aborto que eu fiz, não. Já fiz vários! Quando eu estava no high school, eu fiz três. Não de você, lógico, mas de outros meninos. Eu não nasci para ser mãe! Sinto minhas pernas fraquejarem. O contraste entre as duas mulheres me esmaga com a força de um trator. De um lado, Hadasha: com dezoito anos, sozinha, assustada e grávida de gêmeos, enfrentou o mundo, protegeu a vida dos filhos com unhas e dentes e lutou até o exaustão para criá-los. Do outro lado, a mulher com quem passei o último ano, descartando vidas humanas por vaidade estética e futilidade. — Você é um monstro... — murmuro, a voz embargada por uma mistura terrível de repulsa, dor e nojo. — Você é um monstro, Livi. — Não, eu não sou um monstro! — ela altera o tom, defensiva e fria. — Eu sou apenas uma mulher que sabe exatamente o que quer da vida! E ser mãe nunca foi, e nunca vai ser, o meu objetivo! Com essa interrupção de agora, já é a quinta vez. Então quer saber? Ótimo que terminamos! — Olha para mim... escuta bem o que vou te dizer — falo, a voz embargada pelo desespero de saber que uma vida minha foi descartada sem piedade. — Eu não quero te ver nunca mais na minha vida. Não me liga mais. Esquece que um dia eu existi. Esquece que nós tivemos qualquer coisa. Você é um monstro repugnante. — Caleb— Desligo a ligação na cara dela antes que ela termine de falar. Jogo o celular sobre a mesa de madeira e desabo na poltrona da biblioteca, cobrindo o rosto com as duas mãos. As lágrimas de raiva e luto queimam meus olhos. O remorso e a dor me sufocam. Um filho meu... arrancado do mundo sem que eu ao menos soubesse. E, no meio do meu desespero, a imagem de Hadasha surge como uma luz salvadora na minha mente. A mulher que lutou contra tudo para manter nossos filhos vivos. Eu preciso daquela mulher. Eu preciso daquelas crianças. E não vou medir esforços para provar que sou o pai deles e reparar todo o mal que fiz.






