Mundo ficciónIniciar sesión(Continuação)
HADASHA O som agudo do telefone interno toca sobre a mesa, quebrando o silêncio denso da minha sala e me fazendo dar um salto involuntário na cadeira. Encaro o aparelho por um segundo inteiro antes de estender a mão trêmula e atender. — Senhorita Smith? — a voz da minha assistente vem do outro lado da linha, em um tom formal e contido. — O senhor presidente precisa falar com a senhora. Um arrepio frio desce instantaneamente pela minha espinha. Fecho os olhos por um breve instante, sentindo o peito oprimir. Pronto. Ele já processou. Teve praticamente a manhã inteira para encarar o passado, página por página, fotografia por fotografia. A tempestade que eu venho temendo há cinco anos finalmente chegou. Chegou o momento do nosso confronto. — Tudo bem... Eu já estou indo — respondo, tentando manter a voz firme e profissional. — Senhorita Smith? — ela acrescenta antes que eu desligue. — A secretária da presidência avisou que vocês terão uma reunião a portas fechadas e que o senhor Wilson orientou que ninguém os perturbe. O almoço de vocês já foi solicitado e a senhorita irá almoçar na sala dele. — Entendido. Obrigada, Emily. Desligo o telefone e permaneço parada por alguns segundos. Respiro fundo uma, duas, três vezes, tentando reorganizar meus pensamentos e empurrar para o fundo da alma a imensa vontade de sair correndo. Levanto-me da cadeira, alinho a roupa com as mãos instáveis e sigo direto em direção ao elevador. A viagem até o andar da presidência parece durar uma eternidade. A cada andar que o painel luminoso indica, meu coração martela mais forte contra as costelas. Quando as portas finalmente se abrem no andar executivo, o silêncio do corredor é quase ensurdecedor. Caminho até a recepção e a secretária dele se levanta imediatamente ao me ver. — Boa tarde, senhorita Smith. O senhor Wilson já está aguardando a senhora na sala de reuniões, dentro do escritório dele. Pode entrar. Eu já estou saindo para o meu horário de almoço, só estava aguardando a sua chegada. — Obrigada — murmuro, assentindo com a cabeça. A secretária pega suas coisas e se afasta pelo corredor, me deixando completamente sozinha diante da pesada porta de madeira da presidência. Puxo todo o ar que meus pulmões conseguem suportar, ergo a mão e bato duas vezes. — Entre — a voz dele vem de dentro, grave, mas estranhamente abafada. Empurro a porta devagar e dou alguns passos para dentro. O ambiente está meia-luz, com as persianas parcialmente fechadas. Meu olhar cruza a sala e trava no Caleb. O impacto no meu coração é devastador. Os olhos dele estão vermelhos, profundamente inchados e marcados por uma dor que ele sequer tenta esconder. Sinto um nó seco se formar na minha garganta. Em todos os anos em que nos conhecemos, na nossa infância e na nossa juventude, eu nunca vi um homem chorar daquele jeito. E pelo estado do rosto dele, Caleb chorou, e não foi pouco. O álbum de fotografias está aberto sobre a mesa de reuniões, bem no centro da sala. A página exposta é justamente a fotografia do dia do nascimento dos gêmeos — a imagem em que estou no leito do hospital, segurando Zara e Owen nos braços, com a minha mãe ao meu lado. Caleb se vira lentamente na minha direção. Ele encara meu rosto por longos e dolorosos segundos, o olhar carregado de uma mistura de desespero, culpa e incompreensão. — Você nunca pensou em me procurar? — a voz dele sai baixa, rouca e embargada pelo choro. — Você nunca pensou em me ligar e falar que aquela... que aquela única vez tinha gerado vida? Fixo meus olhos nele, encarando aquele olhar destruído com toda a sinceridade que guardei ao longo destes cinco anos. Não há espaço para mentiras ou meias-verdades agora. — Não — respondo, reta e sem hesitar. — A minha intenção sempre foi criar os meus filhos sozinha. Caleb enrijece o corpo, como se tivesse levado um golpe físico. — Naquele dia na minha formatura... — continuo, sentindo a memória amarga invadir minha boca como bile. — O que eu entendi que aconteceu entre você e a Livie... o beijo de vocês... Ao ouvir o nome dela, Caleb fecha os olhos com força, soltando uma respiração dolorosa, mas eu não me interrompo. — Você me deixou sentada no salão enquanto dançou três vezes seguidas com ela. Eu fiquei ali, olhando para os dois, enquanto todo mundo naquela festa fazia pouco de mim e cochichava pelas minhas costas. Aquilo, para mim, foi a maior e mais cruel humilhação que eu já tinha sofrido em toda a minha vida. Seguro a respiração por um instante para impedir que minha voz trema, mantendo a postura ereta. — Eu chamei a minha mãe, voltei para casa devastada e, no dia seguinte, fui embora para cá. Fiquei na casa da minha tia Blair até conseguir me ajeitar e ir para a faculdade. Dois meses depois, passei mal e descobri a gravidez. Então não, Caleb. Eu nunca pensei em procurar você para dizer que nós tínhamos gerado uma vida, porque eu decidi que enfrentaria tudo sozinha. E mesmo que os meus pais não tivessem me apoiado no momento em que souberam, eu teria enfrentado absolutamente tudo sozinha pelos meus filhos.






