Mundo de ficçãoIniciar sessão— CALEB
Fixo meus olhos no rosto de Hadasha. O ar entra nos meus pulmões pesado, denso, insuficiente para preencher o vácuo que se instalou no peito desde que encarei as páginas daquela caixa. A voz sai embargada, trêmula, tomada por um desespero que não consigo esconder: — Não estou te condenando, Hadasha. Jamais faria isso. Fiz essa pergunta porque minha cabeça está explodindo, porque tudo ao redor ruiu em poucas horas... mas não tenho direito nenhum de te julgar. Me sinto completamente perdido. Perdi tudo... Não acompanhei a sua gravidez, não vi os primeiros enjoos, a barriga mexer, o primeiro sorriso dos meus filhos... Não vi os primeiros dentes, os primeiros passos na sala, nada. Não pude segurar a sua mão nem ser o seu apoio quando você mais precisou. Mas preciso que saiba de uma coisa: se tivesse me dito uma única palavra na época, se tivesse ligado ou mandado uma mensagem avisando sobre a gravidez, jamais teria me negado a assumir. Jamais. Teria enfrentado quem quer que fosse para estar ao seu lado e criar nossos filhos. Dou um passo na direção dela, reduzindo o espaço que nos separa, buscando o olhar dela: — Por mais que você não acredite em mim agora, o que aconteceu entre nós há cinco anos não foi um erro ou um momento qualquer. Estava completamente apaixonado por você. No dia seguinte àquele baile, depois de passar a noite em claro por te ver sumir do salão, fui direto para a sua casa. Pode perguntar para a sua mãe! Sentei no sofá da sua sala com a Kelly, com as mãos suando, e confessei que te amava. A postura de Hadasha se enrijece. Os olhos dela se arregalam levemente, mas preciso continuar: — Falei para a sua mãe que tinha dançado com a Livie porque ela me puxou para a pista, que fui ingênuo em deixar aquilo acontecer, mas que estava ali para me explicar e te pedir perdão. Fui para aquele baile com o corsage de tulipas lilás no bolso, decidido a te pedir em namoro! Passei semanas criando coragem. Só que, quando voltei para a nossa mesa, você não estava mais lá. Corri para fora no meio da chuva e só vi as luzes do carro indo embora. Falei tudo isso para a Kelly na manhã seguinte, desesperado. E sabe o que ela me respondeu? Seguro o choro que tenta me sufocar, sentindo a amargura daquela lembrança voltar com força: — Sua mãe disse para eu ir embora e não te procurar, porque você não queria me ver de jeito nenhum. A Kelly tentou amaciar o golpe. Olhou nos meus olhos e disse que fui o seu primeiro crush e a sua primeira decepção, mas que você iria para a faculdade, conheceria outras pessoas e aprenderia com a vida, até encontrar a pessoa certa. Abaixo a cabeça por um segundo, passo os dedos pelos cabelos e volto a encará-la: — Foi por causa de cada palavra da sua mãe naquela sala que nunca desconfiei que os gêmeos pudessem ser meus. Passei cinco anos acreditando que aquilo tinha ficado no passado para você e que, na faculdade, outro cara tinha se aproveitado e te abandonado. Eu nunca me aproveitei de você, Hadasha! Nunca! E naquele momento do baile... a Livie me beijou. Ela me beijou! Você virou as costas sem ver o que aconteceu logo depois: empurrei a Livie para longe e disse para nunca mais fazer aquilo, porque amava você e ia te pedir em namoro naquela mesma noite. Fecho os olhos com força, revivendo aquela noite: — Quando fui atrás de você e vi o carro dobrando a esquina, a Livie ainda veio atrás de mim debochando. Disse que procuraria qualquer outro na festa para passar a noite, porque os pais dela tinham viajado. Estava se oferecendo! Mas entre mim e ela não existia nada a partir do segundo em que ficamos juntos no meu quarto. Nunca tinha levado mulher nenhuma para o meu quarto na casa dos meus pais. Você foi a primeira e a única. Aproximo-me mais um pouco, sem conseguir conter as lágrimas: — Aceitei dançar com ela por educação, porque nossos pais estavam olhando, mas quando ela me beijou, afastei na mesma hora. Te peço perdão pela minha lentidão e por não ter imposto um limite antes. Só que depois do que a sua mãe me disse, tentei seguir em frente... mas nunca consegui te tirar da cabeça. E no sábado... no sábado conheci os gêmeos no shopping. Olho para o álbum de fotografias aberto sobre a mesa, tomado por um nó no peito: — Olhei para eles e vi a mãe extraordinária que você é. Uma leoa que enfrentou tudo para proteger nossos filhos. Fiquei pensando na dor e em tudo o que você passou sozinha... Mas você sabe o que aconteceu no sábado também, logo depois de eu falar com a minha mãe? Hadasha me observa fixamente, o peito arfando. — Não... — a voz dela sai num sopro. — O que aconteceu? — Liguei para a minha mãe e contei que tinha conhecido dois garotos que mexeram comigo. A mamãe disse que já conhecia os gêmeos de vista. Quando perguntei quem era o pai, ela disse que ninguém sabia. Falou a época em que você tinha ficado grávida e, conforme a conversa avançava, meu peito foi apertando. Contei sobre a nossa noite na véspera da formatura. A mamãe juntou as peças na hora e disse: "Caleb, a Zara e o Owen são meus netos, você tem que ir atrás dessa verdade." Passo a mão pela nuca, tentando conter o tremor do corpo: — Foi por isso que ontem fui até a sua sala. Mesmo tendo quase certeza, não quis te pressionar... só perguntei. E doeu quando você olhou nos meus olhos e disse que eles eram seus e que o pai não fazia falta. Decidi respeitar o seu espaço. Só que você não tem ideia do que aconteceu comigo no sábado, antes de chegar em casa. Foi a Livie. A expressão de Hadasha muda, atenta ao meu tom de voz: — A Livie me ligou cobrando atenção porque eu estava no shopping. Ela estava em Milão! Terminei com ela ali mesmo, pelo telefone. Disse que não existia condição de continuarmos, porque ela é fútil e egocêntrica. Passei todo esse tempo suportando a presença dela por pressão familiar, mas não aguentava mais. A gota d'água foi quando ela esteve aqui no escritório e te tratou mal. Rompi tudo naquele momento. Olho nos olhos de Hadasha, e o nojo toma conta da minha fala: — À noite, ela me ligou de novo, alterada, perguntando se o término era sério. Confirmei. E sabe o que ela falou? Com a maior frieza, riu e disse que ainda bem que estávamos terminando, porque há dois meses tinha interrompido uma gravidez... e o filho era meu. Falou daquela criança, do meu filho, como se fosse um nada descartado no lixo! Um arrepio cruza minha espinha: — Desliguei o telefone, comecei a tremer e chorei como nunca chorei na vida. Passei mal a noite inteira, vomitei, tive uma crise de ansiedade e passei o domingo acamado, sem assimilar como alguém pode ser tão cruel. Por isso, na segunda-feira, quando fui à sua sala e você negou... foi outra punhalada. Mas nada se compara ao nojo de ouvir a Livie contar que aquela era a quinta gravidez que ela interrompia. Abaixo a cabeça, cobrindo a boca por alguns segundos para conter o soluço, antes de voltar a encará-la: — Ali vi o abismo que existe entre mim e ela. E me desculpa se estou comparando, mas foi inevitável: enquanto você enfrentou a faculdade, o julgamento dos outros, a falta de dinheiro e o mundo inteiro pelos nossos filhos, a Livie simplesmente foi descartando vidas sem se importar. Mas ela está morta para mim. Não faz e nunca mais fará parte da minha vida. Dou o último passo, ficando a poucos centímetros de Hadasha, totalmente desarmado: — Não te condeno por nada, Hadasha. Pela minha ingenuidade, te magoei no passado, e te peço perdão por toda a dor e solidão que você passou. A única coisa que te suplico agora... é poder conviver com os meus filhos. É ter a chance de tentar ser o pai que eles merecem. Você me permite?






