####CAPÍTULO 55

HADASHA

Ouvindo Caleb abrir o coração diante de mim, sinto minhas forças ruírem por completo. A imagem do homem inabalável, seguro e distante que construí na minha cabeça ruiu em questão de segundos, dando lugar a alguém destroçado, com a alma inteiramente exposta, sangrando na minha frente. As lágrimas começam a escorrer pelo meu rosto de forma incontrolável, quentes, borrando a visão do olhar desesperado dele.

Enquanto o encaro, a voz da minha terapeuta ecoa com uma clareza ensurdecedora na minha mente. Ela estava certa durante todo esse tempo. Passei cinco anos erguendo uma carapaça impenetrável de proteção, um escudo rígido e frio para me defender da dor, do medo e da rejeição. Na minha cegueira de autopreservação, nunca parei para considerar que Caleb também tinha um coração, que ele também era humano e que tinha sentido, sofrido e sangrado pelas consequências daquele passado.

Ver esse homem gigante, o presidente de uma empresa, desmoronando e pedindo perdão de joelhos me despedaça por dentro. Sinto um peso esmagador se instalar no peito, mas não é raiva — é culpa. Me sinto pequena. Me sinto terrivelmente egoísta por ter escondido a gravidez dele, por ter tomado uma decisão tão monumental sozinha e por ter privado meus filhos do afeto do pai. Eu fui imatura.

Limpando o rosto molhado com as costas das mãos, dou um passo solícito na direção dele. Minha voz sai embargada, trêmula, mas carregada de uma honestidade que há anos eu não me permitia sentir:

— Você não tem que me pedir perdão, Caleb... Por favor, não faça isso. A única imatura nessa história fui eu. Eu só tinha dezessete anos, estava prestes a completar dezoito, e entrei em pânico. Como a minha mãe te disse naquela manhã, você foi o meu crush de infância... mas não foi só isso. Você foi o único homem que eu amei de verdade em toda a minha vida. A única pessoa para quem entreguei meu coração sem reservas.

Respiro fundo, sentindo o nó sufocante que sempre travava a minha garganta finalmente começar a desmanchar, dando espaço para uma verdade limpa e dolorosa sair:

— Só que a nossa realidade de vida tomou outro rumo. E diferente da Livie... jamais, em hipótese alguma, eu interromperia uma vida. Nunca faria isso por medo do julgamento da sociedade, para não manchar meu nome ou para não atrapalhar minha futura carreira profissional. Eu sei muito bem o discurso que ela usa: o corpo dela, as regras dela. Pois bem... no meu corpo, sob as minhas regras, criança nenhuma pagaria o preço. Ninguém no mundo, nem mesmo os meus pais se tivessem tentado, me obrigaria a interromper a minha gravidez ou a dar os meus filhos para a adoção.

Olho bem nos olhos dele, deixando que ele veja cada cicatriz que carrego no peito desde a noite em que saí daquele baile sob a chuva:

— Eu posso ter sido imatura, sim. Errei em não ter te dado a oportunidade de me explicar o que aconteceu naquela festa, de sentar comigo para conversarmos como dois adultos e resolvermos a nossa história. Mas, se formos olhar pelo outro lado... você tinha que ir para Harvard. Lembro do orgulho que senti quando você me disse que éramos namorados, mas você ia passar um ano inteiro fora, concluindo o seu doutorado. Eu ia iniciar a minha faculdade aqui, do zero, no meio de uma tempestade. Não daria certo, Caleb. O nosso namoro não resistiria à distância e à maturidade que nos faltava na época.

Encurto o espaço que nos separa, olhando para o homem forte que ele se tornou por mérito próprio:

— Hoje eu tenho vinte e três anos, sou mãe de duas crianças maravilhosas e me tornei uma mulher madura. Apanhei muito da vida para chegar até aqui, passei por provações que me moldaram. E você fez o mesmo... você montou a sua própria empresa, não dependeu do nome do seu pai e criou um negócio sólido que está se transformando em uma multinacional. Cada um de nós seguiu caminhos diferentes e necessários. E, no fundo, você só seguiu o conselho que a minha mãe te deu na sala da minha casa.

Abaixo o tom de voz, deixando a vulnerabilidade transparecer por inteiro:

— Quando escondi a gravidez de todo mundo, inclusive da minha família, reafirmo para você: não foi por maldade. Não foi para te punir ou para impedir que você soubesse que seria pai. Foi para te proteger e para evitar que as nossas famílias se tornassem inimigas mortais. Meus pais eram conservadores demais; eles teriam achado que você tinha se aproveitado de mim e teriam destruído qualquer ponte entre nós. Foi a única forma que encontrei, na minha imaturidade da época, de preservar você e o futuro que você tinha pela frente.

Levo a mão até a mesa do escritório e toco a madeira da caixa guardada, apontando para a história contida ali dentro:

— Agora estou tentando consertar esse erro do passado. Quero te mostrar a vida dos nossos filhos. Aí dentro dessa caixa tem um pendrive com os registros de tudo... inclusive com os vídeos dos primeiros passos deles na sala de estar. E, por incrível que pareça... você acredita que a primeira palavra deles não foi "mamãe"?

Caleb ergue os olhos para mim, o rosto manchado pelas lágrimas, a respiração travada no peito enquanto assimila minhas palavras.

— Mesmo sem ter o pai por perto, mesmo sem nunca terem visto uma foto sua... a primeira palavra que saiu da boca dos dois foi "papai".

Os olhos de Caleb se arregalam em choque absoluto. As lágrimas voltam a escorrer com força pelo seu rosto e ele me encara com o peito arfando, a voz saindo num sopro desacreditado e quebrado pela emoção:

— Eles... eles chamaram "papai"?

— Chamaram, sim — respondo com um sorriso fraco, deixando o choro e a emoção se misturarem. — Foi a primeira palavra oficial deles. E agora que você teve a chance de observá-los no shopping, deu para perceber como funciona a dinâmica dos dois. A Zara é expansiva, ela comanda e lidera, enquanto o Owen parece só acompanhar e fazer o que ela manda. Mas não se engane com o temperamento dele: o Owen não é submisso à irmã, assim como ela não é submissa a ele. Ele só faz o que ela pede por pura educação e cavalheirismo. Eles se respeitam e se protegem como ninguém.

Olho para o álbum sobre a mesa, sentindo um misto de orgulho e preocupação de mãe ao compartilhar a realidade do dia a dia das crianças:

— Deu para notar também que eles não são crianças comuns. Zara e Owen são superdotados, têm uma inteligência muito acima da média e, por causa disso, enfrentam sérios problemas de adaptação na escola atual. Este é o último ano em que eles vão permanecer em uma instituição de ensino tradicional. Já estou pesquisando e vou precisar transferi-los para uma escola especializada em crianças com a altas habilidades, para que o intelecto deles continue sendo estimulado sem prejudicar o desenvolvimento emocional.

Dou o último passo que nos separa e estendo a mão para ele, selando a paz e a verdade que deveriam existir entre nós desde o primeiro dia:

— Então, por favor, não me peça perdão e nem se culpe mais. É hora de deixarmos o passado e os erros da nossa juventude exatamente onde eles devem ficar. Vamos olhar para frente... pelo bem e pelo presente dos nossos filhos.

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