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Respiro fundo, sentindo o ar queimar nos meus pulmões enquanto escuto cada uma das verdades que a Hadasha despeja sobre mim. Cada palavra que sai da boca dela é como uma lâmina afiada cortando a minha carne, mas eu não me dou ao luxo de desviar o olhar. Deixo que tudo me atinja, porque sei que ela carregou essa dor trancada no peito durante cinco anos inteiros, sozinha, sem que ninguém a ajudasse a segurar esse peso. Passo a mão pelo meu rosto molhado de lágrimas, solto um suspiro pesado e a encaro com a voz completamente embargada, implorando para que ela enxergue a verdade nos meus olhos: — Eu não estou te condenando, Hadasha — falo, com a voz falhando, mas carregada de uma sinceridade desesperada. — Eu jamais faria isso. Eu só te fiz uma pergunta porque a minha cabeça está explodindo, mas eu não tenho direito nenhum de te condenar por nada. Eu perdi tudo... Perdi a sua gravidez, perdi o primeiro sorriso dos meus filhos, os primeiros dentes, os primeiros passos... Perdi a chance de segurar a sua mão e de estar ao seu lado quando você mais precisou. Mas eu preciso que você saiba de uma coisa: se você tivesse dito uma única palavra para mim naquela época, eu jamais teria me negado a assumir. Jamais. Dou um passo na direção dela, mantendo o olhar cravado no dela: — Por mais que você não acredite em mim agora, Hadasha, o que aconteceu entre a gente há cinco anos não foi um erro e nem um momento qualquer. Eu estava completamente apaixonado por você. No dia seguinte àquele baile, destruído por ter te visto sumir da festa, eu fui até a sua casa. Você pode até perguntar para a sua mãe! Eu sentei na sala com a Kelly e confessei a ela que eu te amava. Vejo a postura da Hadasha enrijecer na minha frente, mas eu não paro. Preciso colocar aquela noite a limpo de uma vez por todas. — Eu falei para a sua mãe que eu tinha dançado com a Livie e que ela tinha me monopolizado no salão, que eu tinha errado em deixar aquilo acontecer, mas que eu estava lá naquele dia para me justificar e te pedir perdão. Eu fui para aquele baile decidido a te pedir em namoro, Hadasha! Só que, quando consegui me desvencilhar e voltei para a nossa mesa, você não estava mais lá. Eu corri para fora do salão e só vi a traseira do carro em que você estava indo embora. Falei tudo isso para a Kelly na manhã seguinte, com o meu coração na mão. E sabe o que a sua mãe me falou? Seguro o choro na garganta, sentindo a amargura daquela lembrança voltar com força total no meu peito: — A sua mãe disse exatamente o mesmo que você mandou dizer: que era para eu não te procurar, porque você não queria que eu te procurasse. Só que ela foi mais suave com as palavras. A Kelly olhou nos meus olhos e disse que eu tinha sido o seu primeiro crush e a sua primeira decepção, mas que não seria a última; disse que na faculdade você conheceria novas pessoas, se envolveria com outros caras, se decepcionaria e aprenderia com a vida, até encontrar a pessoa verdadeira para viver com você. Abaixo a cabeça por um segundo, passo os dedos pelos cabelos e volto a encará-la: — Foi por isso, Hadasha... Foi por causa das palavras da sua mãe que eu nunca desconfiei que os gêmeos pudessem ser meus. Eu passei esses anos todos acreditando que aquilo que vivemos tinha ficado no passado para você e que, na faculdade, o mesmo que aconteceu entre a gente poderia ter acontecido com alguém e esse alguém ter se aproveitado de você. Eu nunca me aproveitei de você, Hadasha! E, infelizmente, naquele momento do baile que você viu... a Livie me deu um beijo. Ela me beijou, eu não beijei! E você não viu o momento em que eu a empurrei e disse para ela não fazer aquilo, que eu ia pedir você em namoro e que, a partir daquele dia, nós dois eramos namorados. Fecho os olhos por um segundo, revivendo a raiva daquele instante no salão de festas: — Quando fui atrás de você e vi você entrando no carro, a Livie ainda debochou da minha cara. Sabe o que ela falou para mim? Disse que, já que eu não queria ficar com ela, ela iria procurar qualquer outro lá na festa para passar a noite, porque os pais dela não estavam em casa. Ela estava me convidando para ficar com ela! Mas entre mim e a Livie não existia mais nada antes de qualquer envolvimento na minha casa, da gente se tocar e da gente se amar. Eu nunca levei ninguém no meu quarto da casa dos meus pais — até mesmo porque eu tinha o meu próprio apartamento. Você foi a primeira e a única. Aproximo-me mais um pouco, deixando que a dor na minha voz mostre o tamanho do meu arrependimento: — Eu fui educado o suficiente de dançar com ela três vezes, e quando ela me beijou, você não viu quando eu a empurrei. Como eu já te disse, eu te peço perdão pelo passado. A partir daquele dia, quando a sua mãe me disse o que disse, eu tentei seguir em frente, mas eu nunca te esqueci. E no sábado... no sábado eu conheci os gêmeos. Olho para as fotografias abertas sobre a minha mesa e sinto um orgulho misturado com uma culpa esmagadora: — Eu vi o quanto você é uma mãe excepcional, Hadasha. E eu fiquei pensando por tudo o que você passou sozinha durante esses anos... Mas você sabe o que aconteceu no sábado também, logo depois de eu conhecer os gêmeos? Ela me observa em silêncio, a expressão estremecida pelas verdades que acabei de revelar sobre a mãe dela e a noite do baile. — Não... — ela responde baixinho. — O que aconteceu? Fixando meus olhos nos dela, dou mais um passo à frente e declaro: — Eu vou te contar.






