CALEB
Ainda estou absorvendo o calor daquele momento e a cena de Hadasha caminhando à frente com as crianças quando o celular no bolso do meu paletó começa a vibrar insistentemente. Retiro o aparelho e vejo o nome de Livi brilhando na tela. Respiro fundo, sentindo um contraste imediato entre a leveza que acabei de viver e a cobrança que sei que virá do outro lado da linha.
Ajeito o celular no ouvido enquanto observo a figura de Hadasha sumindo gradativamente no fluxo de pessoas do shopping.
— Onde você está? — a voz de Livi soa alta, ríspida e sem qualquer preâmbulo.
— No shopping — respondo de forma direta, mantendo o tom calmo.
— Você foi ao shopping e não me convidou? — ela dispara, com a indignação habitual.
Dou uma pausa, sentindo o cansaço de meses de desgaste acumulado finalmente atingir o limite.
— E, por um acaso, eu preciso te convidar para ir em todos os lugares? Nós somos apenas namorados. E, pensando bem, Livi, eu acredito que chegou a hora de nós darmos um tempo nessa nossa relação. Você vive mais viajando do que aqui. Para mim estava cômodo, mas eu quero muito mais do que isso.
A linha fica em silêncio por um segundo antes de ela reagir, visivelmente surpresa.
— O que você está querendo dizer com isso? Você está querendo terminar comigo?
— Sim — afirmo, sem hesitação. — A tua vida é uma vida completamente diferente da minha. Você gosta de glamour, eu sou um empresário e, para mim, chega.
— Você está fazendo isso por quê?! — ela esbraveja, a voz alterada pelo telefone.
— Livi, você está em Milão há três meses — pontuo, apontando o absurdo da cobrança. — Aí você vem e diz: "Você está no shopping e não me convida". Como que eu vou convidar uma pessoa que está em Milão há três meses?
— Mas isso faz parte do meu trabalho! — ela tenta rebater, mas a interrompo.
— Eu não quero isso para mim. Eu quero um relacionamento onde eu possa ter a minha namorada, noiva ou esposa ao meu lado todos os dias, e não apenas quando ela está liberada do glamour dela. Então, para mim, chega. Está tudo terminado entre a gente.
— Você não pode fazer isso! — ela esbraveja, desacreditada.
— Não só posso, como estou rompendo agora — declaro com uma frieza que nem eu sabia que tinha, mas que reflete a mais pura verdade. — Você sabe que não nos amamos. Sempre foi conveniente. A nossa química é outra: você aparece nos eventos quando eu preciso, porque você tem uma imagem a zelar, e na cama a gente até que se dá bem. Fora isso, não tem nada. Culturalmente, nós não temos absolutamente nada sobre o que conversar, porque você só fala de moda, só fala de fofocas, e não é isso que eu quero para a minha vida. Eu quero uma mulher diferente ao meu lado.
— O que você está querendo dizer com isso, Caleb?! — a voz dela transborda raiva e orgulho ferido.
— Que você é vazia, Livi — respondo com uma sinceridade cortante. — Você é uma pessoa legal para momentos fúteis, mas não para eu me casar e construir uma família. Adeus.
Finalizo a chamada antes que ela possa protestar mais uma vez. Tiro o aparelho do ouvido e encaro a tela escura por alguns segundos. Um alívio instantâneo e profundo se espalha pelo meu peito, como se um fardo pesado tivesse sido retirado dos meus ombros.
Volto o olhar para o corredor por onde Hadasha, Zara e Owen acabaram de passar. Livi era o retrato de tudo o que eu tentava suportar por conveniência, enquanto a simplicidade, a inteligência e a força de Hadasha representavam exatamente tudo o que eu percebi, hoje, que sempre procurei para a minha vida.
Guardo o celular no bolso, ajusto o paletó e caminho em direção à saída do shopping com uma clareza absoluta sobre o meu futuro.