CALEB
Observo Owen e Zara caminharem entre as prateleiras da loja com o mesmo deslumbre de duas crianças em um parque de diversões. A diferença marcante é que, enquanto a maioria dos pequenos da idade deles se encantaria por carrinhos de controle remoto, bonecas articuladas ou videogames de última geração, aqueles dois parecem completamente fascinados por quebra-cabeças gigantescos, kits de robótica e jogos complexos de lógica.
Eles param diante de uma enorme prateleira no fundo da loja e conversam baixinho durante alguns segundos, analisando o conteúdo das caixas com uma seriedade compenetrada que me faz sorrir. Então, operando em uma sintonia quase telepática, puxam juntas uma caixa pesada e volumosa. Meu olhar acompanha o movimento e se fixa imediatamente na etiqueta da embalagem: Cinco mil peças.
Arregalo os olhos, tentando absorver o impacto daquele número, e me me viro para Hadasha, completamente incrédulo.
— Eles... realmente vão conseguir montar um quebra-cabeça de cinco mil peças?
Ela sequer demonstra surpresa com a minha perplexidade. Para Hadasha, aquilo parece ser a coisa mais cotidiana e comum do mundo.
— Vão — ela responde com uma tranquilidade absoluta e um tom de voz incrivelmente sereno. — Eles já têm outros quebra-cabeças de cinco mil peças no quarto.
Volto a olhar para a caixa que repousa nas mãos pequenas, porém firmes, das duas crianças. Cinco mil peças. É um desafio monumental até mesmo para a maioria dos adultos que conheço.
— Eles estão desenvolvendo muito bem essa habilidade — Hadasha continua, acompanhando meu olhar atônito. — Como as aulas só recomeçam na segunda-feira, tenho quase certeza de que amanhã mesmo eles vão começar a separar o material e dar início à montagem. Depois vão trabalhando nisso aos poucos, principalmente durante os fins de semana. Em aproximadamente um mês, o painel estará completamente pronto.
Ainda estou tentando processar aquela informação quando Owen percebe minha reação e olha para mim, radiante de entusiasmo.
— Você precisava ver o nosso quarto! — ele exclama com os olhos brilhando.
— É mesmo? O que tem lá de tão especial? — pergunto, genuinamente curioso.
— Um monte de quadros! — o garoto responde, estufando o peito com orgulho.
Franzo a testa por um instante, sem entender a conexão, mas Hadasha intervém com um sorriso calmo antes que ele continue a explicação.
— Depois que eles terminam de montar um quebra-cabeça, nós passamos uma cola especial e mandamos emoldurar — ela explica, olhando para os filhos com um carinho imenso. — Quando eles crescerem e tiverem a própria casa, cada um poderá levar consigo os painéis que completou durante a infância. São lembranças tangíveis. Fazem parte da história e do crescimento deles.
Permaneço alguns segundos em absoluto silêncio, absorvendo a delicadeza e a profundidade daquele gesto. Nunca conheci uma mãe como Hadasha. Enquanto tantas pessoas compram brinquedos descartáveis que, em poucos dias ou semanas, acabam esquecidos em algum canto escuro do armário, ela transforma cada conquista e cada hora de dedicação dos filhos em uma recordação permanente para a vida inteira.
Balanço a cabeça lentamente, deixando escapar um suspiro de sincera admiração.
— Meu Deus...
Hadasha nota minha reação e me encara com sobriedade.
— O que foi, senhor Wilson?
— Estou diante de dois pequenos gênios — dou uma risada baixa, balançando a cabeça.
Ela sorri daquele jeito discreto e contido que já começo a reconhecer dos nossos encontros na empresa.
— Eu prefiro dizer que são apenas crianças com um desenvolvimento acima da média.
— E você continua sendo extremamente humilde — comento, rindo novamente da sua resistência em aceitar o elogio.
— Eu tento manter os pés no chão — ela abaixa os olhos por um breve instante, visivelmente sem jeito com a minha insistência.
Volto a observar Zara e Owen, que agora discutem em voz baixa qual ilustração da caixa é mais bonita. Ao olhar de volta para Hadasha, a percepção me atinge com clareza instantânea.
— Eles são exatamente como você.
Ela ergue o rosto no mesmo segundo, balançando a cabeça em negação.
— Não... definitivamente não.
— São, sim — insisto, sentindo minha memória me levar de volta aos corredores do ensino médio. — Hadasha, você sempre caminhava pela escola carregando uma pilha de livros nos braços. Era, de longe, a melhor aluna de todas as turmas. Enquanto os demais adolescentes só pensavam em festas, passeios e fofocas, você passava horas trancada na biblioteca estudando. Quase ninguém se aproximava de você justamente por isso: porque você era inteligente demais. Sempre foi a garota mais brilhante daquela escola.
Ela sorri, um pouco sem graça, tentando minimizar o peso das minhas palavras.
— Mas eu não sou como eles, Caleb. Eles são muito mais inteligentes do que eu jamais fui. O QI dos dois é consideravelmente superior ao meu.
— Eu não acredito nisso — respondo prontamente, encarando-a com seriedade.
Ela me olha com curiosidade, e eu continuo:
— Essas crianças carregam o seu DNA, Hadasha. O pai pode ter contribuído em alguma medida, é claro, mas essa inteligência extraordinária e esse foco que vejo neles... tenho absoluta certeza de que vêm diretamente de você.
Percebo as bochechas dela adquirirem um delicado tom rosado no mesmo instante. Hadasha desvia os olhos, visivelmente encabulada com as minhas palavras. É um contraste fascinante ver como a mesma mulher capaz de enfrentar uma diretoria inteira de executivos sem demonstrar uma única gota de insegurança fica totalmente sem jeito diante de um elogio sincero sobre sua essência.
Volto minha atenção para os dois pequenos, decidido a transformar aquele momento em algo ainda mais especial.
— Sabem de uma coisa? — chamo a atenção deles com um tom conspiratório. — Vocês dois podem escolher. Cada um vai levar o seu próprio quebra-cabeça de presente.
Os dois levantam a cabeça no mesmo segundo, e os olhinhos de ambos praticamente brilham de alegria. Hadasha, no entanto, intervém imediatamente, dando um passo à frente.
— Não precisa fazer isso, senhor Wilson. Eles já escolheram este aqui e é mais do que suficiente.
— Eu faço questão — balanço a cabeça, irredutível.
— Mas esses jogos são caros — ela tenta argumentar, baixando a voz.
— Isso não é um problema. Eu posso e quero pagar — dou de ombros com leveza.
As crianças olham para a mãe com expectativa contida, aguardando a autorização final antes de comemorar.
— Nós podemos, mamãe? — Owen pergunta, num tom quase suplicante.
Hadasha suspira discretamente, percebendo que não conseguirá me fazer mudar de ideia sem criar um impasse desnecessário. Por fim, um sorriso resignado surge em seus lábios.
— Se ele quer dar esse presente a vocês, tudo bem, podem aceitar — ela cede, mas logo em seguida sua postura se transforma na de uma mãe atenta e educadora. — Mas prestem bem atenção no que vou dizer: não quero que vocês se acostumem a isso. Não é correto explorar a boa vontade e a generosidade das pessoas.
Antes que os gêmeos possam responder, faço questão de intervir para tranquilizá-la.
— Eles não estão me explorando de forma alguma, Hadasha. Eu estou oferecendo estes presentes porque realmente quero presenteá-los.
Ela sustenta meu olhar por alguns segundos, avaliando a sinceridade das minhas palavras, antes de fazer um leve movimento de cabeça.
— Tudo bem, senhor Wilson.
Com a permissão concedida, os dois praticamente pulam de alegria ali mesmo no corredor da loja.
— Obrigado! — Owen exclama com um sorriso de orelha a orelha.
— Obrigada, Caleb! — Zara comemora, dando palminhas entusiasmadas.
Enquanto caminhamos em direção ao caixa para realizar o pagamento, Hadasha assume o comando e começa a organizar a programação do restante da tarde com a praticidade que lhe é habitual.
— Agora, depois que o senhor Wilson passar no caixa, nós vamos direto para casa — ela avisa, e as duas crianças assentem imediatamente. — Vocês chegaram ontem à noite da casa dos seus avós e hoje nós já passamos praticamente o dia inteiro fora. Eu ainda preciso preparar o jantar e organizar algumas coisas para a semana.
— Tudo bem, mamãe — Owen concorda sem protestar.
— Enquanto eu preparo a refeição, vocês podem começar a separar as peças de borda de um dos quebra-cabeças — ela continua estabelecendo as regras de convivência. — O outro vai ficar guardado no armário até que o primeiro esteja inteiramente terminado.
— Combinado! — os dois respondem em coro.
Eles abraçam as caixas pesadas contra o peito com um cuidado impressionante, manuseando os brinquedos como se estivessem carregando tesouros inestimáveis. Na fila do caixa, Zara se vira para mim e abre um sorriso puro que ilumina completamente o seu rosto.
— Muito obrigada pelo presente, Caleb.
— Nós gostamos demais — Owen arremata ao lado da irmã, com uma gravidade adorável.
Não consigo esconder a satisfação que se espalha pelo meu peito ao ver a alegria genuína daqueles dois.
— Fico muito feliz que tenham gostado.
Enquanto observo Hadasha organizar os pacotes e guiar os filhos para a saída da loja, uma sensação estranha e profunda se apossa de mim. Pela primeira vez desde que reencontrei minha antiga colega nos corredores da empresa, percebo que não foi apenas a vida dela que se transformou de maneira drástica ao longo dos últimos cinco anos. A minha própria rotina e a forma como enxergo o mundo ao meu redor começam a mudar inevitavelmente... sem que eu sequer perceba o tamanho dessa transformação.