####CAPÍTULO 22

CALEB

A porta da presidência b**e com um som seco, e Lív desfila pela sala como se fosse a dona do lugar. Traja um vestido justo de marca, óculos escuros pousados sobre os cabelos perfeitamente escovados e carrega uma sacola de compras de grife no braço. Ela caminha com a firmeza de quem acredita que o mundo inteiro orbita ao seu redor, exalando um perfume doce e enjoativo que preenche o ar do meu escritório em questão de segundos.

— Amor! — exclama com aquele tom agudo e ensaiado que, de repente, soa incrivelmente irritante aos meus ouvidos. — Tive que passar aqui rápido antes de ir para o aeroporto!

Sem pedir licença, sem ao menos hesitar e sem se importar com a mulher sentada diante da minha mesa, Lív caminha a passos rápidos, debruça-se sobre mim, segura meu rosto entre as mãos e crava um beijo demorado nos meus lábios. Não é um gesto de afeto ou de saudade; é um ato deliberado, calculado e possessivo de marcação de território.

Permanecendo rígido sob o toque dela, sinto a vergonha queimar minhas bochechas. O contraste entre a postura impecável de Hadasha e a teatralidade invasiva de Lív me causa uma pontada quase física de desconforto. Quando Lív finalmente se afasta, ajeitando a alça da bolsa sobre o ombro, finge surpresa ao notar a presença da nossa nova gerente de projetos.

— Ai... desculpa — diz Lív, levando a mão à boca num gesto dramático, ensaiado e completamente falso. — Eu não tinha visto que você estava acompanhado.

Ela vira-se para a poltrona de couro, e vejo o exato momento em que o reconhecimento atinge seus olhos. As sobrancelhas bem desenhadas de Lív se franzem ligeiramente, a postura se enrijece e os lábios se contorcem num sorriso carregado de desdém e puro veneno.

— Espera... — Lív dá meio passo à frente, medindo Hadasha de cima a baixo com um olhar frio e minucioso. — Você... Que coincidência fascinante! Nós nos encontramos ontem no salão... e agora encontro você aqui, bem no escritório do meu namorado.

Hadasha nem sequer pisca. Não se encolheu, não cruzou os braços e não demonstrou o menor traço de desconforto ou pânico diante daquele showzinho fútil de provocação. Ela permanece sentada com a coluna perfeitamente ereta, a pasta de documentos repousada com segurança sobre o colo e uma serenidade absoluta e inabalável estampada no rosto.

— É realmente muita coincidência, não é, Lív? Ontem nos encontramos no salão, hoje aqui — responde Hadasha, sua voz fluindo pela sala com uma elegância natural e cristalina que faz o tom debochado de Lív parecer pequeno, histérico e vulgar. — Mas hoje é o meu primeiro dia oficial de trabalho nesta empresa. Agora deixo vocês à vontade.

Em seguida, Hadasha coloca-se de pé com uma graça fluida e calculada, ajeita a alça da bolsa sobre o ombro e olha diretamente nos meus olhos, ignorando solenemente a presença provocativa de Lív ao meu lado.

— Com sua licença, senhor Wilson. Preciso ir conhecer minha sala e as dependências da empresa.

Depois, volta-se para Lív com uma leve e impecável inclinação de cabeça.

— Senhorita. Preciso ir para o meu departamento conhecer a minha equipe e dar início às minhas funções.

Sem esperar resposta, sem erguer o tom de voz e sem descer por um único segundo ao nível de uma disputa infantil de egos, Hadasha caminha em direção à saída com passos firmes e ritmados. A postura ereta e elegante, acompanhada da dignidade intocável de uma mulher dona de si, preenche todo o corredor de vidro enquanto ela se retira do escritório, deixando para trás um rastro de respeito e admiração absoluta.

A porta da presidência se fecha com um clique suave. O silêncio que se instala na minha sala torna-se pesado e sufocante.

Lív vira-se para mim no mesmo instante, bufando de indignação e cruzando os braços sobre o peito.

— O que aquela nerd horrorosa está fazendo aqui, Caleb?

O termo sai da boca dela como um veneno gratuito e me atinge diretamente como um insulto pessoal. A raiva e a frustração que venho acumulando durante a manhã inteira finalmente rompem a minha fachada de autocontrole executivo. Encarei Lív com uma frieza tão cortante que a faz dar um passo involuntário para trás, assustada com a minha reação.

— Nerd horrorosa? — minha voz sai grave, contida, mas carregada de uma autoridade perigosa que raramente coloco para fora. — A senhorita Smith acabou de apresentar ao conselho o projeto de tecnologia mais revolucionário e promissor que esta corporação já viu nos últimos anos.

Lív solta uma risada debochada e estridente, ajeitando a alça da bolsa de grife no braço com puro desprezo.

— Aquela garotinha sem graça? Por favor, você quer me dizer que ela...

— Aquela mulher — corrijo imediatamente, dando um passo firme na direção dela e interrompendo sua frase na metade. — Ela é uma profissional brilhante, um gênio acadêmico que a minha diretoria disputou a tapa. E eu aconselho você a medir muito bem suas palavras antes de desrespeitar qualquer executivo desta empresa. Especialmente dentro da minha sala.

Lív me encara com os olhos arregalados, chocada e genuinamente incrédula com a firmeza e o tom agressivo da minha defesa.

— Ah... entendo. Então agora você vai defender a esquisita da escola? Agora ela ficou bonita para você também?

Olho para Lív, reparando, talvez pela primeira vez em anos, na futilidade escancarada e superficial estampada em cada detalhe da sua figura, nas suas roupas de grife e na sua necessidade desesperada de validação.

— Você realmente não percebeu? — perguntei com uma sinceridade nua, crua e devastadora. — Hadasha tornou-se uma mulher estonteante, uma beleza real, elegante, madura e extremamente competente.

— Você está me comparando com ela, Caleb?! — a voz de Lív subiu um tom, histérica e descontrolada.

— Não — respondi sem hesitar por um único segundo. — Estou apenas constatando que vocês são o oposto absoluto uma da outra. Você vive em dietas malucas, comendo alface até ficar parecendo pele e osso, obcecada por um padrão superficial, não estudou, vive do corpo. Já a Hadasha cuida da vida e da saúde com equilíbrio e substância. Mas a maior qualidade dela não está nas curvas ou no rosto bonito, Lív. Está na inteligência brilhante que ela carrega no cérebro.

— Você está me ofendendo na minha cara! — ela me pergunta, indignada e com os olhos marejados de raiva.

— Não estou te ofendendo, estou sendo sincero — pego minha pasta de couro sobre a mesa e caminho até a saída, abrindo a porta do escritório para encerrar de vez aquele teatro grotesco. — Agora, se me dá licença, tenho uma multinacional para gerir e decisões de verdade para tomar. Faça uma boa viagem para Milão.

Lív permanece paralisada no meio da sala, completamente atônita e chocada demais para articular qualquer resposta, enquanto eu caminho para a saída da minha sala para me ver livre de um incômodo que não consigo mais suportar.

E quando cruzo o corredor de vidro da presidência, a imagem de Hadasha deixando a minha sala permanece gravada a ferro e fogo na minha mente. A resposta elegante que ela deu a Lív, a serenidade com que encarou o passado de uma forma digna, como se impôs sem precisar erguer o tom de voz, mostra o abismo agora existente entre nós e a realidade dolorosa de que eu a perdi.

Enquanto Hadasha amadureceu, construiu um império intelectual e aprendeu a se impor com classe, Lív continua presa ao mesmo ciclo de soberba, imaturidade, invasão de limites e arrogância. Uma entrava na minha vida para somar, agregar e inspirar; a outra apenas desgastava, expunha e transformava o meu cotidiano em um drama fútil.

Pela primeira vez em cinco anos, olhei para a minha vida e para a mulher ao meu lado e me fiz a pergunta mais devastadora de todas: o que diabos eu ainda estou fazendo com a Lív?!

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