HADASHA
A casa finalmente volta a ter vida, espantando o silêncio sufocante que dominou cada cômodo durante quase dois meses.
Por mais que Caroline fizesse o possível para me distrair, mergulhando comigo nos relatórios e nos preparativos para a implantação do sistema na empresa, bastava eu atravessar o corredor e encontrar a porta do quarto das crianças fechada para sentir uma saudade dolorosa apertar meu peito. Meus pais sempre fazem questão de passar as férias de verão com Zara e Owen na fazenda. Eles repetem que os netos crescem rápido demais e que precisam aproveitar cada fase. Eu nunca nego esse pedido porque sei o amor imenso que envolve essa relação, mas a verdade é que, quando eles não estão, percebo com ainda mais clareza que meus filhos são o ar que eu respiro e a razão de cada conquista minha.
Na sexta-feira à tarde, meus pais finalmente chegam. Assim que o carro estaciona diante do prédio, nem espero o elevador; desço as escadas quase correndo. Antes mesmo de meu pai desligar o motor, as portas traseiras se abrem e duas vozes agudas ecoam juntas pelo estacionamento: "Mamãe!". Zara e Owen se jogam nos meus braços com tanta força que quase perco o equilíbrio. Entre risadas e lágrimas contidas, encho os dois de beijos, ouvindo Owen me contar orgulhoso sobre as pescarias com o vovô e um sapo que ele jura ser do tamanho de um jacaré, enquanto Zara abraça meu pescoço como se temesse me soltar. O restante do dia é preenchido por um falatório gostoso, abraços apertados e a certeza de que minha vida está completa novamente.
No sábado de manhã, Caroline aparece na cozinha com um sorriso cúmplice antes mesmo de o café terminar de passar, perguntando qual é o programa do dia. Diante da votação unânime de Zara e Owen, fomos ao shopping logo após o almoço. Assistimos a um filme de animação com direito a pipoca espalhada, gargalhadas e comentários sussurrados. Na saída, ao notar os olhares pidões direcionados a mim, sei que fui derrotada antes mesmo de tentarem barganhar. Seguimos para a gelateria artesanal do shopping, um lugar amplo e sempre movimentado aos finais de semana.
Enquanto Caroline conduz as crianças até uma mesa espaçosa mais ao fundo, vou ao balcão fazer os pedidos. Minutos depois, caminho de volta equilibrando com cuidado as taças de sorvete. Entrego primeiro o de morango para Zara e o de chocolate para Owen. Os dois abrem sorrisos radiantes e soltam em uníssono um gostoso "Obrigada, mamãe!", aquecendo meu peito de uma forma que só eles conseguem fazer.
Estou me inclinando para ajeitar minha própria taça sobre a mesa quando uma voz masculina, grave e dolorosamente familiar, pronuncia meu nome logo atrás de mim:
— Hadasha?
Todo o meu corpo enrijece instantaneamente. Meu coração dá um salto violento contra as costelas e o ar me falta por um segundo. Eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar do mundo, mesmo que se passassem mil anos. Fecho os olhos por uma fração de segundo, engolindo em seco e reunindo até a última gota de autocontrole que me resta. Endireito a coluna bem devagar e me viro para encará-lo.
Caleb está parado a poucos passos de mim. Ele veste roupas casuais mas impecáveis, com uma expressão de surpresa estampada no rosto marcante. O olhar dele oscila entre mim e as duas crianças sentadas à mesa, arregalando-se em choque genuíno quando ele junta as peças.
— Hadasha... você tem filhos? — ele pergunta, a voz falhando ligeiramente, o olhar fixo em mim.
Mantenho a postura impecável, erguendo um escudo invisível de serenidade e frieza profissional para mascarar o pavor que ameaça me corroer por dentro.
— Olá, senhor Wilson. Tudo bem? — respondo com uma polidez calculada, dando um sorriso social e distante. — Sim, senhor Wilson, eu tenho.
Caleb pisca devagar, parecendo tentar processar a informação enquanto absorve a minha presença fora do ambiente corporativo. Ele dá um passo à frente, sem desviar os olhos do meu rosto.
— Você... você se casou?
— Não, senhor Wilson. Eu não me casei — declaro com firmeza, sustentando seu olhar sem vacilar. — Sou mãe solo.
O choque na expressão dele se aprofunda, mas ele tenta disfarçar a turbulência interna. Volto-me suavemente para a mesa, tocando os ombros dos meus pequenos para incluir a presença dele.
— Estes são meus filhos, Zara e Owen.
Caleb desvia o olhar de mim e encara os gêmeos. Por um instante, uma sombra de admiração e fascínio cruza seus olhos escuros enquanto ele observa os rostinhos curiosos diante dele.
— Meu Deus... seus filhos são lindos, Hadasha — diz ele, a voz saindo mais suave do que o normal.
Zara, sempre sociável e sem nenhuma timidez, apoia o queixo nas mãozinhas lambuzadas de sorvete e encara Caleb de cima a baixo com olhos brilhantes.
— Quem é você, moço bonito? É amigo da minha mamãe? — pergunta ela com a maior ingenuidade do mundo.
Caleb solta uma risada curta e genuína, o rosto se iluminando de um jeito que faz meu estômago dar nós. Ele se abaixa na altura da mesa, ficando com os olhos no mesmo nível dos das crianças.
— E você é uma garotinha muito bonita e educada — responde ele com um carinho que me deixa sem chão. — Eu me chamo Caleb. Sou um amigo... e trabalho com a sua mamãe. Parabéns, você é encantadora, Zara.
Owen, não querendo ficar atrás da irmã e mantendo sua típica postura protetora e desconfiada, cruza os bracinhos e olha para Caleb com os olhos semicerrados.
— Eu não acho homem bonito — decreta meu filho com extrema gravidade —, mas achei você legal, Caleb. Eu sou o Owen.
Caleb deixa escapar uma gargalhada gostosa, balançando a cabeça diante da sinceridade do meu garotinho. A facilidade com que ele interage com meus filhos, a conexão instantânea e invisível que parece surgir ali no ar faz meu sangue gelar. Ele olha para as duas mãozinhas pequenas, para os traços dos rostos deles, mas não desconfia de nada. O lapso do tempo e a ideia fixa de que o passado ficou para trás o cega para a verdade mais óbvia do mundo. Ele apenas pensa no quanto mudei e como minha vida seguiu um rumo que ele jamais imaginou.
— Muito prazer, Owen — diz Caleb, divertindo-se com o menininho. — Você parece um cara durão.
— Você vai tomar sorvete com a gente também, moço? — pergunta Zara, abrindo espaço na mesa com entusiasmo.
— Zara... — tento intervir, sentindo o suor frio brotar na minha nuca. — O senhor Wilson deve estar ocupado.
— Na verdade, eu ia almoçar e fazer algumas compras — Caleb se levanta, olhando para mim com um brilho desafiador e curioso nos olhos —, mas vou aproveitar a oportunidade para tomar um sorvete com vocês, se não for incomodar. Com a permissão da sua mãe, claro.
Ele nem espera minha resposta. Caminha até o balcão da gelateria, pede uma taça e, em menos de dois minutos, retorna para a nossa área.
— Posso me juntar a vocês? — pede ele com extrema gentileza, indicando a cadeira vaga ao lado de Caroline.
— Claro, fique à vontade! — responde Caroline rapidamente, com um tom simpático que esconde o pânico em seus olhos.
Caleb se acomoda na cadeira, ajeitando a postura e sorrindo para as crianças.
— E me contem... quantos anos vocês têm? — pergunta ele com interesse genuíno, inclinando-se para a mesa.
— Quatro anos! — respondem os dois juntos, erguendo quatro dedinhos lambuzados de sorvete.
No exato momento em que o número sai da boca deles, os olhos de Caleb sobem lentamente e cravam nos meus. Ele faz a conta mental em silêncio. Quatro anos. Ele olha para as crianças, olha para mim, analisa minhas reações, mas a surpresa e a falta de suspeita ainda o mantêm no escuro, encarando tudo apenas como uma coincidência do destino sobre o quanto minha vida se transformou.
Enquanto Caleb interage com Owen e Zara, puxando conversa sobre o filme que acabaram de ver, Caroline aproveita que ele está totalmente distraído com as crianças para me encarar por trás da taça de sorvete. Sem emitir som algum, apenas articulando os lábios com uma expressão de desespero absoluto, ela diz claramente para mim:
Você tá ferrada.
Engulo em seco, mantendo o sorriso congelado no rosto e a coluna rigidamente ereta, enquanto meu coração martela no peito diante do homem que não faz ideia de que está tomando sorvete com os próprios filhos.