####CAPÍTULO 21

CALEB

Os aplausos finais da diretoria ainda ressoavam pela sala de reuniões quando Hadasha concluiu a apresentação.

— Com uma calma quase irritante, ela desligou o projetor, fechou a tampa do notebook e começou a organizar seus pertences sobre a mesa.

Não havia um pingo de vaidade em seus gestos, nenhuma necessidade de buscar aprovação nos rostos dos executivos impressionados.

— Era o mais puro e cristalino profissionalismo. Ela não precisava erguer o tom de voz para provar sua capacidade técnica; sua presença e o peso daquele projeto falavam por si sós.

Acompanhei o movimento dos diretores se levantando, ajustando as gravatas e comentando em sussurros entusiasmados sobre a revolução operacional que o software traria para a Mobility & Energy Harris Group.

— Eu sabia que a implementação daquela plataforma não apenas blindaria nossos dados e otimizaria nossa logística, mas colocaria nossa empresa em um patamar incomparável frente ao mercado internacional.

Pus-me de pé, assumindo a casca rígida de presidente que me protegia do caos interno que me devastava.

— Senhores, agradeço a presença de todos — anunciei, projetando a voz com autoridade contida.

— A reunião está oficialmente encerrada. A diretoria executiva pode prosseguir com o cronograma diário.

Esperei pacientemente enquanto os executivos recolhiam suas pastas e caminhavam em direção à saída, trocando cumprimentos cordiais.

— Andrew Collins passou por mim com um sorriso cúmplice de satisfação antes de cruzar o batente da porta.

Quando o ambiente finalmente ficou esvaziado de testemunhas, voltei minha atenção para a mulher que terminava de alinhar seus papéis dentro da pasta de couro.

— Senhorita Smith — chamei, adotando a mesma distância formal com que ela havia me emparedado minutos atrás.

Hadasha ergueu a cabeça imediatamente. Seus olhos, emoldurados pela nova armação sofisticada dos óculos, cruzaram com os meus sem qualquer hesitação.

— Sim, senhor Wilson?

O som daquele sobrenome continuava cortando meu peito como uma lâmina fria, mas engoli o desconforto e mantive a expressão inexpressiva.

— A senhorita poderia me acompanhar até o meu escritório? Gostaria de alinhar alguns detalhes estratégicos sobre a fase inicial de implantação do software e esclarecer dúvidas operacionais antes de autorizar o acesso da sua equipe ao nosso servidor central.

Ela ajeitou a alça da bolsa sobre o ombro, manteve a coluna perfeitamente ereta e fez uma inclinação sutil com a cabeça.

— Certamente, senhor Wilson. Será um prazer esclarecer qualquer ponto técnico.

Saí da sala de reuniões e caminhei a passos largos pelo corredor acarpetado do último andar, escutando o som ritmado e firme dos saltos dela logo atrás de mim.

— O trajeto até o meu elevador privativo parecia carregado de uma tensão invisível, uma eletricidade tão densa que tornava o ar difícil de respirar.

Entramos no elevador. As portas metálicas pesadas se fecharam devagar, isolando-nos do restante do mundo corporativo.

O silêncio no pequeno cubo de aço era esmagador.

— Hadasha posicionou-se ao meu lado, mantendo os olhos rigidamente fixos na porta espelhada à nossa frente, os braços cruzados de forma defensiva sobre a pasta.

Aproveitei o reflexo do aço escovado para observá-la sem parecer invasivo. Ela estava impecável, séria, distante — uma fortaleza inexpugnável.

— Cinco anos haviam sido suficientes para apagar qualquer vestígio da garota ingênua da escola, construindo em seu lugar uma mulher madura por quem a minha alma gritava em desespero.

A necessidade de respostas que estavam entaladas na minha garganta há meia década falou mais alto do que a minha prudência.

— Por que você foi embora do baile de formatura? — perguntei, a voz saindo mais baixa e rouca do que eu planejava.

Hadasha não se mexeu. Nem um milímetro. Não se virou para me encarar e nem desviava o olhar do reflexo da porta metálica. Quando respondeu, sua voz veio num tom assustadoramente calmo, desprovido de qualquer raiva ou comoção.

— Porque eu entendi que aquele não era o meu lugar, Caleb.

O som do meu primeiro nome escapou de seus lábios de forma quase involuntária, como uma lembrança distante, e o meu peito se contraiu com violência.

— Como assim não era o seu lugar? — insisti, dando um passo discreto na direção dela.

— Acreditei que você tivesse sentido pena de mim — continuou ela, mantendo a serenidade cirúrgica que me destruía por dentro.

— Você levou a nerd sem graça e invisível ao baile para que ela não precisasse passar pela humilhação da caminhada da vergonha sozinha. Depois, percebi que já estava tudo perfeitamente articulado entre você e a Lív.

—Eu já tinha tirado a foto oficial para o mural da escola, minha mãe já tinha me visto sair de casa com um acompanhante e eu tinha cumprido a minha parte naquele enredo.

Entendi que a minha presença ali era desnecessária e fui embora.

— Hadasha, não foi isso... — tentei intervir, sentindo a garganta secar.

— Eu vi vocês dois, Caleb — ela interrompeu, sem alterar o tom de voz, embora o peso daquelas palavras reverberar nas paredes do elevador.

— Quando passei pelo corredor para ir embora, vi você e a Lívia se beijando.

Naquele exato momento, compreendi que a noite anterior... a nossa noite juntos... tinha sido apenas um erro lamentável da sua parte. Um momento de fraqueza em que você traiu a sua namorada comigo.

— Não! Eu não tinha nada com a Lívia! — falei com desespero, estendendo a mão para tocá-la, mas parando no meio do caminho ao ver seu reflexo enrijecer. — Ela me puxou! Se você viu o beijo, viu o segundo em que ela me pegou de surpresa no corredor!

As portas do elevador se abriram suavemente antes que eu pudesse concluir o raciocínio, revelando o hall de entrada do meu escritório no topo do edifício.

Hadasha respirou fundo, ajustou a bolsa no ombro e finalmente girou o rosto na minha direção.

— Olhou-me por cima das lentes dos óculos com um olhar tão gélido que congelou o sangue nas minhas veias.

— A vida seguiu, senhor Wilson. O passado não importa mais.

Ela passou por mim com passos firmes e elegantes, caminhando pelo corredor com a familiaridade de quem não se deixava intimidar por paredes de vidro ou móveis importados.

— Acompanhei-a até a porta da minha sala da presidência, abrindo a passagem para que ela entrasse.

O ambiente amplo, com vista panorâmica para a cidade de Detroit, parecia subitamente pequeno para o tamanho da tensão que carregávamos.

— Sente-se, por favor — pedi, indicando uma das poltronas de couro diante da minha imensa mesa de jacarandá.

Hadasha acomodou-se com graça, mantendo as costas eretas e a pasta repousada sobre o colo, as mãos entrelaçadas em uma postura de absoluta contenção.

—Acomodei-me na minha cadeira de presidente, apoiando os braços na mesa e encarando a mulher que assombrava meus sonhos há cinco anos.

— No dia seguinte ao baile, eu fui até a sua casa — comecei, querendo que ela soubesse a verdade de uma vez por todas.

— Eu estava desesperado por não ter te encontrado no baile.

A sua mãe me recebeu na porta, lhe expliquei que precisava falar com você de qualquer jeito, pedi o seu novo número de telefone e perguntei para onde você tinha se mudado.

Os olhos de Hadasha vacilaram por uma fração de segundo, uma microexpressão de surpresa que ela rapidamente mascarou.

— A sua mãe foi extremamente dura comigo — continuei, sentindo o peso daquela lembrança amarga voltar com força.

— Ela me deu um choque de realidade devastador.

Disse que você não queria olhar na minha cara, que não desejava nenhum tipo de contato comigo e pediu expressamente para que eu nunca mais procurasse por você.

— Eu respeitei a sua decisão, Hadasha. Não porque eu quisesse me afastar de você, mas porque acreditei que deixar você em paz era a única maneira de respeitar a dor que eu, sem querer, tinha te causado.

Um silêncio denso e doloroso se instalou no escritório. Ela permaneceu imóvel, ouvindo minhas palavras sem emitir um único suspiro.

— O destino realmente tem um senso de humor cruel — soltei um riso amargo, balançando a cabeça.

— Eu passei cinco anos procurando rastros de você, sem imaginação alguma de que a profissional brilhante, o prodígio acadêmico que a minha diretoria passou semanas elogiando, era a mesma garota que ocupou meu coração.

E agora o passado resolve bater à minha porta, dentro da minha própria empresa.

Hadasha piscou devagar, cruzou as pernas com elegância e ajeitou a armação dos óculos antes de falar.

— O tempo passou, senhor Wilson — declarou com uma firmeza inabalável, reforçando a barreira corporativa ao usar o sobrenome formal. — Aquela adolescente ingênua e ferida não existe mais. E, como eu fiz questão de deixar claro lá embaixo na sala de conferências, eu estou nesta empresa com um único propósito: trabalhar, somar e agregar valor ao crescimento da companhia. Nunca para dividir ou ressuscitar problemas do passado.

Ela fez uma breve pausa, cravando seu olhar castanho no meu com uma determinação que me deixou sem chão.

— O senhor não precisa se preocupar com encontros constrangedores pelos corredores.

Esta reunião só foi necessária para a apresentação oficial da minha patente à diretoria. —Minha sala fica no andar inferior, junto com a equipe de inteligência estratégica e desenvolvimento.

Nossos caminhos dificilmente voltarão a se cruzar no dia a dia, a menos que seja estritamente necessário para relatórios trimestrais.

— Trabalharei com os profissionais do meu nível. De minha parte, haverá apenas entrega de resultados e profissionalismo absoluto.

Olhei para ela, sentindo o peito rasgar por dentro. A garota de quem eu me lembrava com tanto carinho havia erguido uma muralha de concreto armado entre nós dois. Ela não guardava apenas mágoa; ela havia aprendido a me neutralizar com a mais perfeita elegância corporativa.

Antes que eu pudesse encontrar palavras para responder àquela promessa de distanciamento, a luz do interfone na minha mesa piscou, seguida pela voz hesitante da minha secretária:

— Senhor Wilson... desculpe interromper, mas a senhorita Clark está subindo e...

A porta dupla da presidência foi empurrada de uma vez só, interrompendo o aviso da secretária.

Lívia entrou na sala exalando o perfume forte e doce de grife, usando óculos escuros sobre a cabeça e ostentando uma sacola de compras de luxo no braço. Ela caminhava com a postura petulante de quem acreditava ser a dona daquele império.

— Amor! — exclamou Lívia com um tom infantilizado, caminhando na minha direção sem sequer notar, a princípio, a presença da mulher sentada diante da minha mesa. — Tive que passar aqui rápido antes de ir para o aeroporto!

Senti uma onda instantânea de vergonha e irritação subir pela minha espinha. A vergonha de ter aquela invasão presenciada justamente por Hadasha.

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