Mundo ficciónIniciar sesiónDepois de ajudarmos com a colheita, Suelen e Joyce me levaram para conhecer o resto da alcateia. Paramos diante da creche daquela matilha.
O prédio de paredes claras era encantador, decorado com vários desenhos feitos pelas crianças, pendurados nas janelas e nas paredes internas.
Embora não estivesse funcionando naquele horário, era fácil sentir a energia alegre que aquele lugar costumava carregar durante o dia.
— As crianças passam boa parte do tempo aqui enquanto os pais trabalham — explicou Joyce, com orgulho na voz. — É um dos lugares mais especiais da alcateia.
Assenti, observando cada detalhe com atenção. Aquele cenário era tão diferente da minha realidade anterior que parecia quase irreal.
Em seguida, caminhamos juntas até a praça. O caminho era ladeado por árvores e pequenos jardins, e havia até um parque silencioso, onde o tempo parecia ter diminuído o ritmo. Naquele momento, tudo estava completamente vazio.
Provavelmente, os pequenos já estavam dormindo.
A simples ideia disso trouxe um sorriso involuntário aos meus lábios, um pequeno calor em meio à tranquilidade da noite.
E por um momento, aquele pensamento me deixou tensa, e tudo o que eu conseguia imaginar era o cenário de terror que seria se Victor aparecesse ali, a minha procura.
Rapidamente, tentei tirar aquele pensamento de minha mente. Queria acreditar que estava longe o bastante para que aquilo acontecesse.
Me lembrei sobre o que Joyce havia me revelado sobre a morte da primeira companheira de Killiam e algo relacionado a uma invasão.
— Joyce? — chamei, hesitante.
— Hum? — ela me olhou, mantendo a tranquilidade no olhar, mas logo pareceu perceber minha hesitação. — Pode perguntar, Aurora. Não precisa ter receio.
— Como Killiam perdeu sua primeira companheira? Que invasão foi essa que o fez se mudar daqui? — perguntei, curiosa.
— Os dois assuntos estão interligados, Aurora. Jade morreu no dia em que nossa alcateia foi invadida.
Aquilo me surpreendeu completamente.
Ela fez uma pausa, e sua expressão mudou, como se estivesse voltando àquela noite fatídica. Suelen ao nosso lado também pareceu ser transportada para aquele dia.
— Em uma noite, fomos surpreendidos por lobos que invadiram nosso território. Eles não queriam nada além de espalhar o terror... e conseguiram.
Joyce parecia distante, imersa nas lembranças dolorosas. Aquilo me fez pensar em Victor, mas logo empurrei esses pensamentos para longe.
— Era um grupo enorme. Meu pai e nossos guerreiros fizeram o possível para defender os demais, mas a cada golpe que sofríamos, ficávamos mais vulneráveis — começou Joyce, parecendo abalada pela lembrança.
— Eles não mostraram piedade — continuou Suelen. —Matavam idosos e crianças que encontravam pelo caminho... e violentaram algumas de nossas lobas.
— Minha Deusa, Suelen… — murmurei, horrorizada.
— Sim… aquele dia ficou marcado pelo horror, Aurora — disse agora Joyce. — Meu pai foi gravemente ferido, mas resistiu até que Killiam conseguisse reorganizar os guerreiros e eliminar a maioria dos invasores.
— Os poucos que sobreviveram fugiram, protegendo seu próprio alfa. Até hoje, Killiam nunca conseguiu descobrir quem era — concluiu Suelen.
— Eles não voltaram? Nenhuma alcateia assumiu a autoria da invasão? — perguntei, tentando entender mais.
— Não. Nunca descobrimos quem foi. Não levaram nada... apenas deixaram o terror para trás.
Tentei imaginar como tudo aquilo os havia afetado. Joyce suspirou, enquanto a voz de Suelen ainda carregava a dor daquele dia terrível.
— Naquela mesma noite, não só perdemos nosso pai como descobrimos que Jade foi uma das lobas agredida e violentada.
— Ela foi morta pelos invasores? — perguntei, mesmo me sentindo mal por fazê-la reviver tudo aquilo.
— Não... — respondeu Suelen, com o olhar perdido. — Eles deixaram minha irmã viva. Mas, às vezes, penso que teria sido menos cruel se tivessem a matado.
Descobrir que a companheira de Killiam era a irmã de Suelen me surpreendeu completamente.
Ela fez uma breve pausa, como se reunisse forças para continuar, e me peguei pensando no que exatamente queria dizer com aquilo.
— Eles a arrastaram para a floresta, a violentaram, a e a deixaram amarrada a uma árvore... completamente nua, com marcas de garras por todo o abdômen.
Engoli em seco, sentindo o estômago revirar.
— Killiam foi quem a encontrou — continuou Joyce. —Nossos médicos fizeram de tudo para salvá-la, mas ela estava tão traumatizada, tão destruída por dentro... que nem tentou lutar pela própria vida.
Suelen desviou o olhar, e a dor ainda era evidente na expressão de ambas. Eu mal conseguia imaginar tudo o que Killiam havia vivido naquele momento.
— Uma parte do meu irmão morreu naquele dia, Aurora.
— Sinto muito, Joyce. — Olhei um pouco aflita para Suelen. — Não imaginei que vocês tivessem passado por tudo isso.
— Passamos por dias turbulentos, Aurora. Dias em que achei que também perderia meu irmão. Killiam recuperou parte de si quando comprou o Recanto do Farol, mas ainda estar longe de ser o mesmo.
Ela me olhou, e um sorriso verdadeiramente sincero surgiu em seu rosto — como se eu tivesse sido o milagre que transformou a vida de todos eles.
— Você trouxe meu irmão de volta. Aos poucos, vi aquela casca que ele usava para se proteger da dor, começar a se romper. Killiam voltou a sorrir... algo que não fazia há muitos anos.
Toda aquela história de alguma maneira me remeteu a Victor. Nenhuma delas tinha noção da existência dele — nem do que ele seria capaz de fazer para me acorrentar.
Victor era um lobo sem escrúpulos, capaz de sacrificar qualquer um dos seus para conseguir o que queria. Bem parecido com os lobos que atacaram a alcateia delas.
Tudo que passei por conta daquele lobo, ainda me sufocavam nas noites mais silenciosas.
E, por vezes, tudo o que eu conseguia fazer era manter a cabeça fora d’água — apenas para sobreviver.
Killiam parecia ser forte. Respeitado. Carregava um passado doloroso nas costas, e ainda assim permanecia firme. Totalmente diferente de mim, que ainda fugia.
“Você nunca foi fraca, Aurora. Foi resiliente. Lutou com as armas que tinha e se defendeu como pôde. A culpa não é sua. Aquele idiota me acorrentou, mas não mais”
Minha loba rugiu em minha mente, saindo da escuridão.
Senti sua força pulsar dentro de mim, selvagem e inabalável. Pela primeira vez, em muito tempo, ela não sussurrava... ela bradava.
Por um momento passei a admirá-la. Nunca tive esse momento antes do que Victor havia feito a nós duas.
Seus pelos parecia de um azul mais profundo da noite, e cintilavam como se ela carregasse as próprias estrelas sobre o corpo.
Ela era simplesmente deslumbrante.
Sacudiu os pelos com imponência, como se finalmente estivesse livre, como se quisesse mostrar ao mundo que não havia mais grilhões capazes de detê-la.
Eu havia parado de caminhar, sem sequer perceber. Só me dei conta quando senti um leve cutucão no braço. Joyce e Suelen me observavam com as sobrancelhas levemente erguidas, confusa.
— Aurora? Está tudo bem? — perguntou Joyce, com a voz baixa, como se temesse me assustar.
Pisquei algumas vezes, tentando me situar, mas a imagem da minha loba ainda pulsava forte em minha mente.
Senti uma ponta de orgulho e reverência, como se algo tivesse finalmente despertado dentro de mim.
— Me desculpe… — disse, encarando elas com um sorriso. — Nunca havia visto minha loba… — completei em um sussurro. — E ela simplesmente saiu da escuridão de minha mente.







