Mundo ficciónIniciar sesiónKILLIAM
Havia uma energia imensa em Aurora. Era estranho admitir, mas... pela primeira vez em anos, eu me sentia vivo. Eu a observei por um bom tempo, até perde-la de vista depois que deixou meu restaurante.
Tentei ignorar tudo que estava sentindo, não me deixar envolver. Mas era impossível ignorá-la.
Desviei o olhar no momento em que Suelen me olhou, tentando não deixar transparecer o quando aquela loba havia me afetado.
Ela sorriu como se não tivesse percebido nada — ou talvez soubesse exatamente o que tinha acontecido. Afastei-me de repente, indo para o balcão sem dizer mais nada.
Cada passo meu parecia um alerta ecoando na minha cabeça. Ela era só alguém que apareceu do nada. Você nem sabe de onde ela veio…
“Ela é minha… nada mais importa”, meu lobo rugiu ferozmente.
E percebi naquele momento que Aurora não era só uma loba que apareceu do nada. Era um problema para mim e para o meu coração também.
Eu podia fingir que tinha tudo sob controle, mas por dentro... estava em chamas.
— Ela de fato é encantadora — disse Suelen ao meu lado, e eu nem percebi quando ela havia se aproximado.
Sabia exatamente a quem ela se referia, mas me esforcei para não revelar que meus pensamentos estavam presos naquela loba.
— De quem você está falando? — perguntei, sem nem ao menos olhá-la. Mas percebi o olhar dela sobre mim.
— Você sabe de quem estou falando, Killiam… Aurora.
— Ainda tenho minhas dúvidas — foi tudo o que disse.
— Dúvidas... ou medo? — retrucou minha amiga de olhar astuto, sorrindo para mim.
Mas, antes que pudesse responder, ela se afastou para atender um novo cliente que acabara de entrar.
Aquela loba realmente mexia comigo — e, mesmo sem pronunciar uma palavra, já estava transformando tudo. Inclusive meu próprio lobo.
Em um determinado momento, Suelen entrou na cozinha, carregando o prato que eu acabara de levar ao balcão.
— O que está acontecendo com você, Killiam? — perguntou, tentando conter um sorriso que teimava em surgir.
— Do que você está falando agora, Suelen? Seja mais específica, por favor — respondeu ele, continuando a preparar o prato que ela havia pedido.
— Esse é o terceiro erro da noite. Você nunca errou antes… estou começando a ficar preocupada.
Parei o que estava fazendo e a olhei, confuso, tentando entender do que se tratava.
— Você já enviou esse prato para o salão, Killiam. E este que está preparando — ela apontou para a frigideira no fogo —, também já foi.
Soltei um suspiro pesado e desliguei o fogo.
— Droga… — passei a mão pelos cabelos, tentando afastar o incômodo. — Acho que estou realmente perdendo o jeito.
— Perdendo o jeito? — Ela arqueou uma sobrancelha, fingindo surpresa.
— Deve ser o cansaço. Esses turnos longos estão acabando comigo.
— Cansaço… — ela repetiu, claramente duvidando. — Ou talvez tenha algo — ou alguém — tirando sua concentração.
Levantei o olhar e a encarei sério.
— Não começa, Suelen.
— Eu não disse nada — respondeu, erguendo as mãos, embora o sorriso travesso no rosto a denunciava. — Só estou dizendo que, desde que ela apareceu, você anda… um pouco confuso.
Bufei, virando as costas.
— Está imaginando coisas.
Ela riu baixo, caminhando até a porta.
— Claro, Killiam. Vamos fingir que é isso. Espero que você esteja melhor amanhã.
Quando ela saiu, o silêncio voltou a reinar. Fiquei ali, encarando o fogão apagado, com o cheiro de tempero ainda no ar.
Mas, por mais que tentasse me concentrar no trabalho, minha mente insistia em voltar para ela.
Havia algo nela que eu não conseguia explicar. Algo que despertava uma parte de mim que eu jurava ter enterrado junto com o meu passado.
Eu sabia que Suelen a levaria para conhecer a alcateia, e desde então, meu lobo não me dava um segundo de paz.
Ele a queria por perto, ansiava pela sua presença, enquanto eu lutava contra esse impulso absurdo que crescia dentro de mim.
Mesmo depois de fechar as portas do restaurante, não consegui simplesmente subir para casa.
Fiquei do lado de fora, à sombra, um pouco afastado, observando quando ela se aproximou de Suelen com aquele sorriso tímido que parecia esconder mais do que revelava.
Meu lobo rosnou baixo, impaciente, exigindo que eu me aproximasse — e precisei de toda a minha força para mantê-lo sob controle.
Ela parecia deslocada, como alguém que carregava o peso de um mundo inteiro sobre os ombros.
Ainda assim, havia uma força silenciosa em cada passo que dava, como se, a cada movimento, desafiasse o próprio destino.
“Minha”
— Ela não pretende ficar, seu tolo! — murmurei entre dentes, tentando fazê-lo se calar.
Mas quanto mais eu lutava contra ele, mais difícil se era resistir ao chamado do laço.
Aquilo não podia estar acontecendo. Eu já tivera uma companheira. Já sabia o que era perder, o que era sentir o peito ser esmagado pela ausência.
E até pouco tempo atrás, ainda travava uma guerra silenciosa contra essa dor.
Mas até isso parecia ter aliviado agora. Como se a simples presença daquela loba fosse um bálsamo para essas dores.
Fechei os olhos, tentando conter o peso das emoções que se misturavam dentro de mim.
Enquanto subia a escada em direção a minha casa, meu lobo lutava para tomar o controle — e eu sabia exatamente o que ele queria.
Aurora.
Meus pensamentos continuavam voltando para ela. Para aquela mulher que meu lobo já havia escolhido… e que eu tentava, inutilmente, não pensar.
Quando percebi que não conseguiria dormir, desisti de lutar. O quarto parecia pequeno demais, o ar pesado demais, e minha mente… barulhenta demais.
Resolvi dar a ele o que tanto desejava — controle.
Assim que alcancei a floresta, tirei a roupa e deixei meu lobo tomar o comando.
A transformação doeu — como sempre doía —, mas junto da dor veio aquela sensação libertadora.
Meu lobo rugiu para a noite, o som ecoando entre as árvores, quebrando o silêncio ao redor. Ele correu sem rumo no início, apenas para extravasar, para se sentir vivo.
As patas golpeavam o chão com força, a terra úmida cedia sob o peso do corpo, e o vento frio cortava o pelo, mas nada o detinha.
Então… o cheiro dela surgiu em minhas lembranças.
Aquele aroma doce, sutil, mas impossível de esquecer. Era como se a floresta inteira o carregasse até mim.
Meu lobo desacelerou, farejando o ar, inquieto.
Ele não precisava que eu dissesse nada — sabia exatamente de quem se tratava.
“Minha”
Eu tentei resistir, mas não consegui.
Ele começou a correr novamente, seguindo o rastro dela. Cada passo parecia um chamado, cada batida do coração, uma confissão que eu ainda não estava pronto para fazer.
Quando finalmente parou, estávamos diante da alcateia. Ele sabia que ela estaria lá.







