Capítulo 3

Liane saiu da via principal, entrando na saída que a amiga apontara. Pelo que imaginavam, deviam estar a poucos quilômetros de Palmer, mas o que surgiu adiante foi um letreiro marcando uma vila chamada Muuttua.

Nome estranho… mas estavam no Alasca, afinal.

Elas continuaram pela estrada, que se tornava cada vez mais estreita, deserta e engolida por uma mata escura.

— Você tem certeza que…? — a frase de Liane morreu na garganta quando, de repente, o SUV apagou completamente.

O veículo apenas continuou rodando pelo embalo da velocidade até começar a perder força. Liane o direcionou para o acostamento.

— O que foi isso?

— Isso é o que nós queríamos saber. — disse Olívia, inquieta. — Será falta de combustível?

— Não. Enchi o tanque quando saí da locadora. Nem um quarto dele gastou. — respondeu Liane, olhando para o painel e tentando ligar o motor.

Ela girou a chave várias vezes, mas o SUV nem ronronou. Nem tossiu.

Nada.

— Estranho… ele simplesmente morreu.

As quatro permaneceram dentro do carro, observando ao redor. Se antes o ambiente já parecia estranho, agora, com o dia escurecendo, a sensação era ainda pior.

Estrada deserta. Árvores gigantescas. Arbustos cerrados.

E, entre eles… nada.

Apenas uma escuridão espessa.

Se algum animal estivesse à espreita — alce, lobo ou urso — elas seriam presas perfeitas.

Não podiam contar com milagres nem esperar que alguém surgisse do nada para salvá-las.

Liane reparou melhor na estrada e percebeu que parecia ter pouco uso. Não tinham visto ou ouvido carro nenhum desde que entraram ali. Mais à frente, porém, uma placa aparentemente recente indicava uma serraria famosa da região.

Ela apertou os olhos, tentando decidir se aquilo era bom ou ruim.

— O que fazemos? Paradas aqui não podemos ficar. Parece que…

— Parece que estamos num filme de terror e, de repente, vai sair um lobisomem das sombras da floresta. — disse Amanda, com os olhos arregalados e rindo de nervoso.

As outras riram também, completamente despreocupadas, como se não estivessem no meio do nada com o único transporte avariado.

Mas, de repente, o riso desapareceu.

Substituído por aquela expressão pensativa de “e se…?”

— Você é maluca. E devia parar de assistir esse filme. — Beverly retrucou. — De tanto ver Van Helsing já está imaginando coisas absurdas. Não enjoa, não? Existem outros… talvez até melhores!

— Nunca! Jamais! Aquele homem é tudo o que eu preciso… — Amanda suspirou profundamente. — O dia que eu tiver um Will Kemp na minha vida, eu caso. Meu sonho é ter um lobinho que me farejasse todinha…

Ela se arrepiou inteira, e Liane sabia exatamente o tipo de cenário que estava passando pela cabeça da amiga.

— Mas é doida mesmo. — concordou Liane com Beverly. — Bem, temos que caminhar até a localidade mais próxima. Muuttua, certo? Precisamos de ajuda, nem que seja para voltar para Tok.

Ela abriu a porta e saltou para fora antes mesmo de ouvir a opinião das outras. As amigas fizeram o mesmo, correndo até o porta-malas para pegar os agasalhos e as bagagens.

Começaram a caminhar na direção em que acreditavam ser a vila.

— Meninas… — chamou Olívia alguns minutos depois, encolhida dentro do sobretudo. — Vocês não têm a sensação de que… estamos sendo observadas?

Todas olharam ao redor.

A sensação estava lá.

Latejando.

Queimando nas costas.

Como se olhos escondidos entre as árvores as seguissem a cada passo.

Mas nada apareceu. Nenhuma sombra. Nenhum som.

— Vamos acelerar. — disse Liane, sentindo um arrepio atravessar sua coluna. — Quanto mais rápido chegarmos à Muuttua, mais rápido conseguiremos ajuda.

Ou assim ela esperava.

Elas caminharam por quase uma hora até que, finalmente, alcançaram uma vila pitoresca.

Casas antigas alinhavam-se lado a lado, algumas totalmente de madeira, outras renovadas com toques modernos, mas todas mantendo aquele charme inconfundível do Alasca.

Seguiram pela avenida principal. Parte do comércio já exibia placas de fechado, mas o ambiente ainda transmitia um aconchego inesperado que chegou a fazê-las relaxar.

Pediram informações a um senhor idoso sobre alguma oficina que ainda estivesse aberta. Ele indicou uma a poucos metros dali, logo na entrada da vila.

Estavam tão atentas à estética arquitetônica que nem perceberam ter passado pelo que realmente procuravam.

Voltaram alguns passos, mas era impossível ignorar a beleza atípica das pessoas que cruzavam o caminho delas — jovens ou velhos. Todos com traços marcantes. Homens e mulheres as cumprimentavam com uma simpatia incomum, como se a presença delas fosse algo bem-vindo.

Quase um presente.

Elas ficaram até desconcertadas.

Mas, por um momento, Liane teve uma sensação estranha.

Como se… estivesse em casa.

Seguiram até a oficina indicada, pertencente ao Sr. Lars, um homem de meia-idade, alto e robusto. Foram recebidas com cordialidade e explicaram calmamente o que havia acontecido ao SUV, inclusive onde o veículo havia parado.

— Bem, meninas, podem ficar aqui descansando. Vou apenas rebocar o vosso Chevrolet e já volto. Não será difícil encontrá-lo, pois há apenas uma entrada para a vila. — disse ele, limpando o óleo das mãos em um pano velho antes de pegar as chaves do reboque.

— Muito obrigada, senhor Lars… — responderam quase em uníssono.

Uma onda de alívio invadiu o peito de Liane. Sem ele, estariam completamente perdidas.

— Enquanto esperam, fiquem com a minha esposa, Eni. Hoje ela está de folga. ENI! ENI! Vem cá, minha companheira!

O tom carinhoso na voz dele chegou a aquecer o ambiente.

Liane soltou um suspiro profundo.

Casais apaixonados ainda eram gatilhos dolorosos.

Fazia oito meses que descobrira a traição do ex-noivo e terminara tudo imediatamente. Um idiota que dizia amá-la e afirmava que ela era “tudo” para ele.

Descobrira que ele a enganava com uma colega de trabalho.

Alta. Loira. Magra.

Mas inteligência? Zero.

Desde então, Liane mergulhara no trabalho e se cercara de homens fictícios.

Pelo menos esses não a traíam.

Nem a decepcionavam.

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