Capítulo 4

Dona Eni se aproximou com um sorriso acolhedor, oferecendo chocolate quente antes mesmo que pedissem. Havia algo reconfortante nela — quase maternal. Sentou-se com curiosidade genuína e começou a perguntar sobre a viagem, sobre os planos… e, principalmente, sobre como haviam conseguido se perder daquela forma.

Amanda assumiu a explicação, contando desde a saída de Tok, enquanto Beverly, prática como sempre, tratava de resolver o problema imediato.

— E sobre hospedagem? Tem algum hotel ou pousada por aqui?

Eni assentiu levemente.

— Como vão ficar na vila, posso mostrar onde fica a hospedaria. — fez uma pequena pausa, pensativa. — Eu até ofereceria um quarto na minha casa, mas só temos um disponível… e seria apertado para vocês quatro.

— Não se preocupe com isso — Beverly respondeu com um sorriso educado. — Só de indicar o lugar já ajuda muito. A gente se vira.

— Certo. — Eni pegou um mapa e indicou o caminho com calma. — Não é nada luxuoso… mas é confortável. E tem um restaurante no térreo.

A forma como ela falava transmitia uma tranquilidade estranha.

Quase como se, de alguma forma, já estivesse cuidando delas.

O tempo passou sem que percebessem. Entre goles de chocolate quente, Eni começou a contar sobre a vila — e era impossível não notar o carinho em cada palavra. Como professora, ela explicava tudo com uma paixão contagiante.

Falou dos colonizadores finlandeses.

Da serraria.

Do crescimento rápido da comunidade.

De como Muuttua se sustentava até hoje.

Elas estavam completamente envolvidas quando o som de um motor pesado interrompeu a conversa.

O reboque.

Liane olhou automaticamente para a porta da oficina e viu o Sr. Lars descendo do caminhão.

Algo estava diferente.

O semblante.

A postura.

Mais rígido.

Mais atento.

E, quando os olhos dele encontraram os dela…

Ele parou.

Ficou imóvel.

Observando.

Como se estivesse enxergando além.

Um arrepio percorreu a espinha de Liane.

Aquilo não era normal.

— Meninas… por hoje não consigo fazer mais nada — disse ele, aproximando-se. A voz soava cansada, mas havia algo mais ali. — Já está tarde. Amanhã cedo dou uma olhada no carro e aviso vocês.

O olhar dele passou por todas.

Mas voltou.

Sempre voltava.

Para Liane.

— Podem ir para a hospedaria. Tenho certeza de que vão descansar bem.

Havia algo naquela frase.

Um peso.

Uma certeza que não fazia sentido.

— Obrigada, senhor. Nos vemos amanhã — respondeu Beverly, sem perceber a tensão no ar.

Sem perder mais tempo, pegaram as malas e seguiram na direção indicada.

Comer.

Dormir.

Era tudo o que precisavam.

Ou, pelo menos…

Era o que acreditavam.

A aventura estava apenas começando.


Capítulo 4


No dia seguinte…


Na noite anterior, o passeio tinha sido breve.

Curto demais.

As lojas fecharam cedo, as ruas mergulharam rapidamente na escuridão e, sem iluminação suficiente — apenas sombras densas vindas da linha de árvores além da praça —, o desconforto se transformou em medo.

Voltaram mais rápido do que gostariam de admitir.

No fim, cada uma se recolheu ao próprio quarto.

E, depois de um dia exaustivo, o descanso veio fácil.

Pesado.

Profundo.

Na manhã seguinte, um banho quente e um café reforçado foram suficientes para renovar o ânimo. Decidiram, então, retomar o plano do dia anterior.

Explorar.

Sob a luz do dia, Muuttua parecia outra.

Mais viva.

Mais… estranha.

Caminharam pela avenida principal, observando tudo com atenção — e o que mais chamava atenção não era a vila em si, mas as pessoas.

Os moradores circulavam com roupas leves.

Camisetas finas.

Como se o frio simplesmente… não existisse.

Enquanto isso, elas mal conseguiam esconder o incômodo.

Aquilo não fazia sentido.

Mas não foi só isso que chamou atenção.

Os homens.

Muitos.

Jovens.

E interessados.

A aproximação foi quase imediata — perguntas, curiosidade, olhares demorados demais. Alguns nem se preocuparam em disfarçar o interesse.

Beverly vibrou.

Literalmente.

Liane, por outro lado, apenas observava — já conseguindo prever exatamente o tipo de plano que se formava na cabeça da amiga.

E, sendo justa…

Ela entendia.

Eles eram… difíceis de ignorar.

Altos.

Fortes.

Com aquele ar bruto de quem vive na natureza.

Jeans ajustados marcando coxas grossas.

Camisas de flanela que pareciam estar prestes a ceder sob a largura dos ombros.

Era quase um uniforme.

E funcionava.

Até Olívia parecia afetada.

O brilho nos olhos dela entregava.

Principalmente quando algum deles se aproximava mais — o olhar descendo sem pudor até seus lábios, demorando o suficiente para dizer tudo sem precisar de palavras.

Curioso.

Porque, apesar disso, nenhuma delas jamais a tinha visto envolvida com alguém.

Olívia não era ingênua.

Mas também não se jogava como Amanda ou Beverly.

Ela escolhia.

— Olhem aquilo… — murmurou Amanda de repente.

O tom foi suficiente.

As três seguiram o olhar dela.

E, quase em uníssono, mudaram de direção.

O lugar parecia um bar… ou restaurante.

Mas bastou atravessar a porta para perceber que não havia nada de comum ali.

O ambiente era rústico.

Antigo.

Quente.

Madeira por todos os lados, contrastando completamente com qualquer coisa que já tinham visto em Tok.

Tapetes artesanais cobriam o chão.

Lamparinas a óleo iluminavam as mesas.

Toalhas bordadas à mão traziam um cuidado quase íntimo ao espaço.

No fundo, um balcão comprido exibia poucas bebidas — mas várias torneiras de chope artesanal, com nomes impronunciáveis.

Alguns homens estavam ali.

Quietos.

Observando.

Ou perdidos nos próprios pensamentos.

Elas hesitaram na entrada.

Mas então o cheiro chegou.

Quente.

Intenso.

Irresistível.

— Meu Deus… — Liane murmurou, quase sem perceber.

Uma senhora surgiu do fundo, carregando travessas recém-preparadas. O aroma se espalhou ainda mais, envolvendo tudo.

Liane trocou um olhar com as amigas.

Nem precisaram falar nada.

— Boa tarde — disse ela, aproximando-se. — A gente pode voltar mais tarde para jantar?

A mulher sorriu.

Gentil.

— Claro, minha querida. Estamos abertos o dia todo… mas o restaurante funciona mesmo à noite.

Um olhar rápido.

Avaliando.

— Vocês não são daqui.

Elas confirmaram.

— Então vou preparar algo especial.

Aquilo soou… promissor.

— Precisamos reservar?

— Não. Só apareçam depois das dezenove.

Simples assim.

Elas até cogitaram ir embora.

Esperar.

Mas o cheiro…

O cheiro venceu.

E, sem muita resistência, acabaram cedendo.

Porque, naquele momento…

Esperar simplesmente não era uma opção.

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