CAPÍTULO VIII

Julian 

Ainda que eu não soubesse o que esperar, a resposta de Hazel, me surpreendeu. O problema era que ela estava agindo como se eu tivesse dito a coisa mais absurda, mais ofensiva que alguém poderia dizer. Depois que aquele homem saiu, eu expliquei a ela minha ideia, e pude ver a confusão no rosto dela, e quando eu terminei ela pôde finalmente dizer que eu era um louco, que ninguém iria acreditar, e que ela jamais faria algo desse tipo. Agora ela está recolhendo o lixo no porão enquanto eu tento entender o que há de errado com a parte elétrica, mas pelo jeito só as lâmpadas que precisam ser substituídas, mas Hazel insistiu em verificar tudo com calma, para que “não tenha problemas quando a livraria estiver em pleno vapor”. 

Quando muitas coisas acontecem ao mesmo tempo, quase não sobra espaço para sentir o impacto de tudo. Tom desapareceu, o que é muito preocupante, o que quer que ele esteja aprontando, com certeza será algo grande. A visita de Silas, mesmo que rápida, também foi muito importante para mim. Existem algumas pessoas que estranhamente nos lembram de quem somos, muito além do que a vida nos obriga a nos tornarmos. E Silas, definitivamente é uma dessas pessoas. Junto de Vivienne, eu era só um moço de Nova York que vinha de tempos em tempos passar uma temporada em Jim Thorpe. Não importava o dinheiro, a fama, o meu nome, eu era eu, e sempre que eu o encontro, é como se eu voltasse para mim mesmo. Assim que possível, tenho que visitá-lo com calma, assim como a maioria dos problemas que tenho que resolver, com calma. 

E por fim, o pior dos problemas: a questão financeira de Hazel. É claro que eu fico mal por ela, e não queria que em tão pouco tempo ela estivesse com tantos problemas para resolver, e tão jovem. Realizar algum sonho, por mais simples que possa parecer, é uma tarefa desafiadora, e muitas vezes o processo é mais satisfatório que a conquista em si. No caso de Hazel, conquistar foi, relativamente fácil, afinal nem todos têm a sorte de herdar o lugar que sempre quis trabalhar, mas o preço que isso está cobrando ela, me dá a sensação que está começando a ficar alto demais. Não sei por quanto tempo ela vai suportar, porque não sei por quanto tempo eu suportaria. E apesar disso, eu não posso pensar somente nela. 

Ter muita atenção na Lumen pode acabar trazendo atenção para mim, e se essa atenção for negativa, como o despejo da nova proprietária, eu nem quero pensar em como isso pode afetar minha carreira, e a essas alturas eu já nem sei dizer se me tornei tão ambicioso quanto Tom, ou tão paranóico. Eu queria poder simplesmente resolver tudo isso, mas sinceramente não cabe a mim, por mais que eu acredite em Hazel, agora mais do que nunca, pois sua escrita é muito melhor que a de muitos escritores com carreiras consolidadas, e foi justamente por isso que eu quis “ajudar”, sem parecer o herói que salva a princesa, mas isso parece que a ofendeu profundamente, ela sequer subiu para almoçarmos. 

Eu prefiro pensar que ela está chateada com o fato de ter sessenta dias para pagar um valor absurdo ao cartório e ao banco, e não comigo. A semana que passamos foi relativamente tranquila e mesmo tendo uma vozinha que me lembra continuamente que preciso escrever, é bom fazer outra coisa para variar, só para não me sentir um verdadeiro inútil performático. E ouso dizer que Hazel e eu quase temos uma amizade agora. Quase. Vez ou outra me pego admirando seu sorriso, ou a forma que aperta seus olhos quando se concentra, ou como suas roupas sempre desenham perfeitamente suas curvas. Mas rapidamente corto meus pensamentos, e foco  em outra coisa. Acho que já tenho problemas demais. 

Meus pensamentos foram interrompidos por um barulho estrondoso vindo do porão. Desço o mais rápido que posso, e ao chegar vejo Hazel caída, uma escada também caída do seu lado e alguns livros esparramados. Ela estava chorando, e pelo que parecia, ela estava com esse choro acumulado há muitos dias. 

ー Meu Deus! O que aconteceu? ー Pergunto assustado, me aproximando dela aos pouco. 

ー Me deitei para dormir… Não está vendo que eu caí? ー Ela respondeu, secando as lágrimas. Considerando tudo, vou deixar passar a resposta dela. Seu tornozelo direito está inchado, ela provavelmente o torceu. 

ー Você está bem? ー Eu a ajudo a se sentar e afasto os livros que estão envolta dela. 

ー É claro que eu estou bem. Por que não estaria? Só porque eu ainda estou aqui fingindo que vou viver aqui para sempre, trabalhando na minha livraria? Não, não se preocupe, uma dívida de cinquenta mil num apartamento e negócio que eu herdei a menos de uma semana não é motivo para não estar bem, não acha? 

Ela não está brava comigo, só está desabafando. Hazel nunca foi de contar muito sobre si mesma ou os seus problemas, e o que acabou de me contar, com certeza não chega nem perto de tudo que ela está tendo que encarar. Eu sorrio sem graça, e se, pensar,  ajeito a mecha do seu cabelo, o colocando atrás da orelha. Ela me olhou diretamente nos olhos e pude sentir um calor no peito.

ー A gente já trabalhou muito hoje, e está tarde, vamos subir e descansar? ー Pergunto, tentando parecer o mais gentil possível. 

ー Não consigo andar. 

ー Isso não é um problema. 

Delicadamente eu a pego no colo, e para minha surpresa, ela se aninha em meu peito enquanto subo as escadas. Eu não sei explicar muito bem, mas com ela em meus braços me veio a sensação de eu devia protegê-la, a todo custo e do que quer que fosse. Quando finalmente chegamos ao apartamento, eu a coloco no sofá, acendo a luz do abajur da sala, e isso dá a casa uma sensação gostosa, parecendo o ninho. 

ー Você caiu e torceu? Ou torceu e caiu? ー Pergunto a ela enquanto tiro seu tênis, para ver a situação. 

ー Caí e torci. ー O tornozelo estava bem inchado, mas não parecia nada grave, talvez ela ficasse sem conseguir andar por alguns dias, mas nada grave. 

ー Caralho, não acredito! ー Falo espantado. 

ー O que foi? ー Hazel se assusta com a minha reação. 

ー Você vai sobreviver a queda. ー Começo a rir. 

ー Engraçadinho. ー Ela responde com ironia. ー Me conta, você também já entendia de primeiros socorros ou o seu agente te forçou a aprender também? Para parecer um perfeito homem de um livro de romance… ー Seu tom continuava igualmente irônico. 

ー Para a sua surpresa, eu já sabia. Fiz quatro anos de medicina, antes do meu primeiro livro ser publicado. Meus pais queriam um médico, não um homem  de livro de romance. Mas depois de um tempo, aceitaram a mudança. ー Hazel não soube o que responder. ー Está doendo muito? 

ー Um pouquinho. 

ー Acho que tenho remédio para dor no meu quarto, e você precisa colocar gelo também, vou conferir se temos. 

ー Na verdade, eu quero muito tomar um banho. Você pode me ajudar? ー Ao ouvir essa pergunta, sinto meu rosto corar. Por que estou corando? Já passei da idade de corar por causa de uma mulher, e sua voz não tinha nenhuma intenção. 

ー E como eu posso ajudar você? 

Ela pediu que a colocasse na banheira, e levasse suas roupas, toalha e o que mais fosse necessário, quando finalizasse o banho ou se por um acaso precisasse de ajuda, ela me chamaria. E assim o fizemos. Deixei tudo o mais próximo dela o possível, e enquanto ela tomava banho, achei melhor preparar o jantar, Hazel provavelmente está com fome, e comer vai fazer bem a ela. 

Fui até a cozinha e a primeira coisa que faço é conferir se temos gelo. Por sorte, sim. Confiro os armários e a geladeira e não temos tantas opções quanto eu gostaria, preciso ir ao mercado. Decidi preparar massa fresca com molho branco. Essa é uma das minhas melhores receitas e impressiona qualquer um, mesmo que a massa fresca seja ridiculamente fácil de preparar. E por um momento eu entrei em meu próprio mundo. Coloco minhas músicas favoritas enquanto bebo um pouco de vinho, fumo o meu cigarro e preparo uma comida deliciosa, como sempre gostei de fazer. 

O Jantar ficou pronto minutos antes de Hazel me chamar, eu a coloco no sofá da sala, coloco gelo em seu tornozelo e tomo um banho rápido, eu também estava com muita fome. Sirvo o prato dela, e a coloco em uma cadeira da cozinha, com o maior cuidado que posso. Depois sirvo o meu próprio jantar. 

ー Olha, se você sempre soube cozinhar ou se foi ideia do seu agente eu não sei, mas que comida deliciosa, você está de parabéns! ー Ela diz, assim que experimenta meu macarrão. 

ー O que eu posso dizer? Sou um homem que só existe nos livros. ー Nós dois rimos da minha piada. Quando acabamos de rir, eu a olho nos olhos, e ela sustenta meu olhar. Como Hazel é linda!

ー O que você tem na cabeça de me fazer essa proposta? 

ー O que? 

ー De onde você tirou essa ideia? “Eu pago sua dívida, mas você vai ter que escrever o livro que preciso entregar daqui uns meses.” Sério, que ideia horrível foi essa? 

ー Na verdade isso é mais comum do que pensa. O termo correto é ghostwriter, você escreve o livro e vende os direitos autorais dele. Muitos autores fazem isso. 

ー Você já fez isso? 

ー Nunca. Meus livros, mesmo comerciais, ainda são meus. 

ー E por que achou que eu toparia isso? 

ー Olha, você nunca escreveu um livro antes, só alguns poemas e pequenos contos. Eu sei que você não gosta de romance, mas eu iria ensinar você todo o processo de criação de um livro, técnicas de escrita, de construção de história. Você aprenderia com o escritor mais famoso da atualidade, ganharia o suficiente para pagar a dívida, e eu teria mais tempo ainda de descanso, sem ter que me preocupar com escrever até o fim deste ano. É uma proposta que a gente só recebe uma vez na vida. Então, é agora ou nunca: você aceita?  

Luiza Leandro

Espero que gostem do capítulo e da história. Estou ansiosa para ler os comentários de vocês.

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