CAPÍTULO IV

Julian

Pequena parte de mim quer rir nesse momento. A mesma moça que há menos de uma hora jogou todo o café fora num ato de rebeldia e infantilidade, é a mesma que agora está gritando e verdadeiramente assustada. Meu primeiro pensamento foi protegê-la, seja lá do que. Então eu a erguei, e nossos rostos estão próximos. Próximos demais. Ela é tão bonita, seus olhos parecem esconder uma história que caberia em muitos livros, e que vai muito além de uma menina impulsiva. 

ー Está tudo bem? ー No momento em que perguntei, seus olhos se umedeceram. Ela está fazendo um esforço muito grande para não chorar. Delicadamente eu a coloco no chão, e vou até o corredor de onde ela veio, mas não encontro nada, provavelmente foi uma aranha ou um rato. Quando voltei, ela está no exato lugar que eu a deixei. Coloco a mão em seu ombro, e ela me olha. Seus olhos ainda estão úmidos e ela parece uma criança que precisa de colo. ー Você ainda não comeu. Vem, vamos tomar o café lá em cima, aqui está com um cheiro horrível. 

Ela concorda com a cabeça. Pego o café e a sacola que estava ao lado, e subimos de volta ao apartamento. Ela nada disse enquanto se sentava na pequena mesa da cozinha. Pego outro café, o açucareiro e percebo que na sacola havia dois croissants. Aqueço eles no microondas, e coloco na frente dela. Sento-me na cadeira em frente a dela e fico em silêncio. Quando ela finalmente me olha eu apenas ergo as sobrancelhas. 

ー Não precisa me olhar desse jeito. Foi apenas um momento ruim, mas já passou. ー Ela responde, pega um croissant e praticamente o devora. 

ー Você quer conversar sobre isso? 

ー Não precisa se preocupar. É que eu pensei que as coisas seriam bem diferentes, e principalmente pensava que a livraria não estaria daquele jeito. Eu gritei por causa de um rato. 

ー Me pareceu que seu grito foi mais um desabafo. ー Hazel me olha feio, acho que ela não gosta de ser decifrada também. ー Olha eu acho que a gente começou com o pé esquerdo. Nenhum dos dois pensou que dividiria a casa com um estranho, e eu precisei vir para Jim Thorpe porque precisava de espaço, e acho que você também. Mas isso não significa que a gente não possa se acertar, e tentar se entender. 

Hazel não me responde, mas parece pensar nas minhas palavras. Ela termina de beber o café, e concentra seus olhos na xícara agora vazia. Parece que comer alguma coisa realmente fez bem pra ela. 

ー Eu não consigo conversar sobre nossa situação agora, meu único objetivo é tentar arrumar a livraria para poder começar a trabalhar logo. 

A livraria parece ser muito importante pra ela, mas ainda não sei dizer se é uma questão financeira, ou afetiva. Talvez os dois. Hazel pode não ser do tipo que conversa e resolve tudo o quanto antes, mas ela não parece ser uma pessoa ruim. Ela só está enfrentando muitas coisas ao mesmo tempo. Acho que não sou o único aqui que está perdido na própria vida. 

ー Bom, eu estou meio que de férias, então não tenho muita coisa pra fazer por aqui. A gente pode conversar uma outra hora sobre dividir o apartamento, e já que seu foco é a livraria, eu posso te ajudar. 

ー Está falando sério? 

ー É claro, só não espere me ver com roupa de empregada, porque isso não vai rolar. ー Quando eu digo isso ela parece segurar uma risada. ー Eu vi isso hein, então quer dizer que você sabe rir. 

ー Não force a barra. ー Ela me responde séria, mas sei que não está séria, não de verdade. Acho que vai ser bom não só pra ela, mas pra mim também. Eu queria ficar sozinho, mas talvez Hazel possa me ajudar a me distrair, a ver a vida além da minha realidade. Ela se levanta, lava a xícara dela e vai em direção a escada. 

ー Desistiu de me ajudar? ー Ela me pergunta, de costas pra mim. 

ー Já estou indo patroa. ー Provoco ela, que me olha feio. 

Hazel estava certa em estar preocupada, o estado da livraria Lumen é praticamente assustador, principalmente porque a vi em pleno funcionamento. Passamos a manhã toda limpando, tentando separar os livros que podiam ser recuperados e os que não podiam. Havia muitos livros espalhados no chão, junto a um monte de sujeira. O nosso trabalho da manhã não fez quase nenhuma diferença, mas já foi um começo. Hazel não quis conversar muito, mas todas as minhas provocações ela respondia, sem exceção. Ela me contou que cursava literatura, mas desistiu da faculdade e decidiu se mudar.  Alguma coisa me diz que ela quer ser escritora, talvez pelos comentários que fazia. Acho que para conhecer Hazel de verdade, vai demorar bastante, e tudo que eu posso fazer é lê-la nas entrelinhas. 

Quando comprei o nosso almoço por volta das uma da tarde, entendi que o problema dela pode ser, em grande parte, financeiro. Ela disse que não estava com fome, o que obviamente era uma mentira, pois quando o almoço dela chegou, ela comeu em minutos. 

A tarde continuamos com os trabalhos. É cansativo, mas um cansativo bom, faz muito tempo que não me sinto produtivo como me sinto agora. Eu estava tentando organizar o pequeno escritório que fica nos fundos da livraria. Há muitas notas fiscais, máquinas de escrever e alguns livros raros que precisam urgentemente de restauração. Numa gaveta da mesa principal havia uma caixa, trancada, isso imediatamente chama minha antenção, mas eu não encontrei nenhuma chave. Procurei em todos os lugares e isso aumentou mais a minha curiosidade, afinal, o que pode estar ali? Meus pensamentos são interrompidos quando ouço Hazel conversar com alguém. 

ー …É que no momento ainda não estamos em funcionamento. ー Ouço Hazel responder. 

ー O que está acontecendo? ー Pergunto. Hazel está conversando com uma senhora. ー Como podemos ajudar a senhora? 

ー É que a minha neta virá na semana que vem e ela gosta muito dos livros de um tal de J. V. Black, mas não consigo encontrar de jeito nenhum, e eu queria comprar um livro dele pra ela. ー Quando ouço meu pseudônimo sinto meu estômago gelar. Hazel me olha confusa, ela notoriamente não sabia o que fazer. 

ー É que no momento o nosso inventário não está atualizado, mas pode vir na sexta feira, que teremos o livro que a senhora quiser do J. V. Black, só vamos precisar do nome da senhora e da sua netinha. 

Tenho alguns exemplares na mala, e com o nome da neta, posso colocar uma dedicatória. Enquanto a senhorinha anotava as informações, Hazel me olhava agradecida. Ela tem o mesmo olhar doce que Vivienne tinha, e isso me causa um misto de emoções. Quando ficamos a sós outra vez Hazel dá uma risada irônica, 

ー O que foi? ー Pergunto. 

ー É que são esses tipos de encomenda que me fazem perder a fé na nova geração de leitores. 

ー Como assim? 

ー É que eu não quero parecer uma idosa, ou crítica de livros, mas os livros do J. V. Black são uma merda. ー Aquilo doeu mais do que eu esperava, e eu a encarava esperando ela continuar. ー Eu não sou a maior fã de romance, mas acho que quando bem escrito, quando não é só um romance água com açúcar, a história vale a pena ser lida. Livros devem agregar algo a quem lê, mesmo que a pessoa só queira se distrair, uma boa história precisa ter algo a dizer. Os livros do J. V. Black parecem ser escritos somente para vender, com personagens já pensados para serem de livros e não pessoas reais, que você encontraria por aí. E escrever para vender ele sabe fazer, já que é o maior sucesso, mas sua escrita, mesmo não sendo ruim, parece faltar algo. Fiz um trabalho sobre literatura moderna da faculdade, e acabei pegando ele como autor. Li cinco livros dele, para ter propriedade do que dizia. Definitivamente, o gênero romance está cada dia mais caricato. 

As palavras dela me atingiram como um raio. Não porque foram cruéis, mas porque são verdadeiras. E essa é a verdade que provavelmente fez eu me perder no meu próprio trabalho, e assim não consegui mais escrever. Hazel percebe que minha expressão mudou de repente e eu peço licença, indo para o escritório. Um misto de emoções começam a surgir, mas a raiva é a predominante. Eu sei que escrevo livros só para vender, o que ela não sabe é que eu tenho que fazer isso, sou praticamente obrigado. Minha raiva só está aumentando, e eu sinto que se falasse com ela agora, provavelmente iria explodir. 

ー Está tudo bem com você? Eu disse alguma coisa? ー Ouço Hazel perguntar atrás de mim. Nesse momento eu não consigo me controlar, não mais.

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