CAPÍTULO VII

Hazel 

A vida não tem a mínima lógica. Julian estava certo em brincar sobre eu ser ou não um clichê, mas a verdade é que no fundo, de um jeito que não sei explicar, eu sempre soube que teria uma vida, no mínimo incomum. Acho que todo mundo conhece alguém que dois meses de vida dariam uma saga completa de livros. Eu não conheço essa pessoa, mas considerando os últimos dois dias da minha vida, diria que seria facilmente reconhecida como a protagonista de uma história que não entendo, não parece se encaminhar para um final feliz, e tampouco fala sobre a jornada de um herói. O interessante de se observar nem sempre é o interessante de se viver, e ver todos os meus sonhos se desfazendo um a um diante dos meus olhos, com certeza preencheria páginas e mais páginas, enquanto esvazia a minha alma, bem aos poucos. 

Queria pensar que dividir a casa com alguém que conquistou tudo que eu sempre quis poderia ser bom pra mim, eu poderia aprender algo, mostrar o que sei. Independente do que seja, ter alguém que compartilha com você algo que te define deveria ser, em teoria, a melhor coisa que poderia te acontecer, mas toda vez que olho nos olhos de Julian agora, me questiono o preço de realizar um sonho, e o que de fato significa “chegar lá”. 

Mas, melancolias à parte, os dias que se seguiram foram mais leves do que eu pensava. Julian me contava sua jornada enquanto escritor, e tudo que conquistou, aos poucos. Como cada característica dele foi pensada para fazer ele parecer um personagem de um livro, e como as relações públicas, às vezes valem mais do que o que você cria. A imagem que ele criou era o que fazia seus livros venderem tanto, e quando ele me disse que ele tinha que manter o corpo estético, mas fumar, eu tive certeza de que o agente dele era um babaca. Ele disse que a parte mais difícil com certeza foram os exercícios, porque sempre fumou, mas que tipo de estética é essa? Isso me fez questionar sobre a maioria dos artistas hoje, até onde são eles mesmos, até onde são uns personagens. 

Era bom ouvir suas histórias, principalmente porque eu não precisava contar sobre as minhas. Finalmente era sexta-feira, na terça, Julian e eu tínhamos feito um combinado onde ele leria o que eu escrevo, e eu leria seu primeiro livro. Não que um dia eu pretenda admitir, mas se esse fosse o trabalho dele que eu tivesse escolhido primeiro para ler, jamais falaria comentários tão cruéis sobre sua escrita. É gritante a diferença do primeiro livro, para o último que ele lançou. Apesar de o nosso relacionamento ter se tornado um pouco mais amigável, ainda era bom as provocações que trocamos vez ou outra. 

Seria bom ficar por aqui e dizer que a livraria teve um avanço espantoso. Que cerca de 60% dos livros não foram perda total, 35% precisa de uma restauração que eu obviamente não faço ideia de como se faz isso. Somente 5% é que pode ser vendido, o problema é que a maioria é livro de receita, que quase ninguém mais compra. Durante esses dias, Julian e eu fizemos essa separação do que pode ou não ser vendido, descartamos os móveis, e os livros que não podem ser vendidos foram distribuídos, doados, e alguns anunciados na internet, para vender como segunda mão. No andar inferior ficavam os livros especiais, e o que eu julguei ser uma mesa de operação para restauração, o que já ajudava. Mas uma outra coisa me chamou a atenção (e não, não foi uma jaula gigante de vidro).  

Havia uma segunda mesa, ao lado da “oficina”, com muitas tintas, papeis específicos de capas de livro, alguns esboços de desenhos do universo de Harry Potter, e um desenho que pareceu ser do livro O Morro dos Ventos Uivantes, mas sem estar finalizado. Minha tia fazia customização de capas de livro, se era hobby ou renda extra eu já não sei dizer, mas achei a ideia fantástica, isso poderia até mesmo se tornar um diferencial da livraria Lumen, é claro se eu fizesse a mínima ideia de como fazer isso. Adicionei mentalmente esse tópico à minha lista mental sobre coisas que devo aprender para que consiga fazer dinheiro com a livraria. 

A parte administrativa com certeza é a parte mais complicada de aprender. Tantos termos, tantos documentos, tantas etapas, é impressionante pensar que tia Vivienne tinha somente uma paixão gigante por livros e isso foi o bastante para que tocasse um negócio por muitos anos, pelo menos antes de tudo sucumbir. Estou tentando estudar sobre como fazer o mesmo à noite, às vezes o cansaço me vence, às vezes não. A customização pode ser mais que uma forma de fazer um dinheiro extra, se eu souber usar isso a meu favor. O problema é que eu nunca fui de desenhar, tampouco de pintar. arrisquei vez ou outra uns desenhos quando era mais jovem, mas não dá nem pra comparar com minha tia. Eu encontro mais soluções e mais problemas sempre que estou na Lumen, mas a parte boa é que estou começando a pegar o ritmo. 

O plano é na próxima semana começar o inventário, ver o que preciso comprar, principalmente os livros, e quais as minhas opções de fazer dinheiro para comprar mais livros. Mas, até o fim dessa semana, a meta é deixar tudo brilhando, e consertar a parte elétrica. Desci até o porão e estava admirando os desenhos de minha tia, quando Julian pede para que eu suba, cortando meus pensamentos. Antes de apagar a luz, senti uma saudade cortante de casa, e da minha mãe. Um homem estava conversando com Julian, e ambos pareciam confortáveis. Por alguns segundos acreditei que ele fosse o agente de Julian. 

ー Finalmente! Depois de tantos anos… Olha só como você cresceu! ー O homem disse, estendendo a mão para mim. Sorri sem graça enquanto o cumprimentava. Ele aparentava ter um sessenta anos, o pouco cabelo que lhe restava era branco igual algodão. Usava uma calça alfaiataria marrom, uma camisa listrada de branco e bege e um avental marrom escuro, com os óculos pendurados no pescoço. A primeira impressão que tive, é que ele era um senhor muito amigável. ー Acho que a mocinha não está lembrada de mim, mas nos conhecemos há muitos anos. O meu nome é Silas. Sou dono do antiquário aqui do lado e era um grande amigo de Vivienne. Eu vim aqui lhe desejar boas vindas e minhas condolências, pela morte de sua tia, ela era uma pessoa única. 

ー É muito bom rever o senhor, Sr. Silas, e muito obrigada, tanto pelas palavras, quanto pela visita, eu me mudei há poucos dias, não tive tempo de interagir com os vizinhos. ー O nome não me soava estranho, mas infelizmente não conseguia lembrar dele. Talvez eu o tivesse conhecido quando era bem criança, quando passava as férias aqui em Jim Thorpe. Silas sorriu com a minha resposta. 

ー A mocinha, e Julian, são muito bem vindos a qualquer momento para tomar um café comigo. Estou sempre aqui do lado, e meu apartamento, é no andar de cima de vocês. ー No momento que ele disse isso, percebi que sou eu quem deveria convidá-lo, pois ele já veio me visitar. Estou sendo, no mínimo, indelicada.  Mas antes que eu pudesse me desculpar, a porta se abre novamente, e o mesmo homem que veio à livraria na segunda, estava, com o que devia ser a notificação judicial. 

No momento em que Silas o vê, ele se despede de mim, de Julian e saiu, praticamente correndo. Tive a impressão de que ele sabia o que estava acontecendo, mas mal tive tempo de pensar sobre isso. 

ー Bom dia! ー O homem disse, com cara de poucos amigos. ー Como eu havia dito, vim trazer a notificação oficial para quitação da dívida que estava no nome de Vivienne Brooks. Para que essa livraria seja sua, você deve quitar a hipoteca, juntamente com os juros acumulados. A soma dos valores é de cinquenta mil dólares, e você tem um prazo de sessenta dias para quitar a dívida. Caso contrário, perderá todas as posses que foram deixadas para você. 

O homem parecia se divertir com aquilo, em ver os sonhos desaparecendo no olhar de alguém. E eu? Eu me senti exatamente como uma criança que finalmente aprende como funciona o jogo, e então é obrigada a parar de brincar. Senti que esticasse minha mão, poderia sentir entre meus dedos o fim da minha esperança. Senti que ia chorar, mas antes que isso acontecesse, eu ouvi Julian dizer: 

ー Agradecemos o seu serviço. ー Ele disse, apontando para a porta, enquanto o homem perdeu o seu ar de arrogância, reconhecendo o escritor mais famoso do país. ー Você pode ir agora. 

ー Preciso da confirmação de que a dívida será paga. ー O homem responde, olhando para Julian como se ele fosse de outro planeta. 

ー Ela será, mas agora, você já pode ir. 

Assim que o homem saiu, solto meus ombros, que estavam tensos, e tento absorver tudo que acabou de acontecer. O dinheiro, o prazo, a dívida, que será paga. Espera… 

ー Ela será? ー Olhei incrédula para Julian, que tinha um sorriso que claramente continha uma segunda intenção. 

ー Ela será, mas para isso, você precisa aceitar a proposta que eu vou te fazer. 

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