Mundo de ficçãoIniciar sessãoJulian
Entro no apartamento e vou direto para o banheiro, abri o chuveiro e entrei, de roupa de tudo. Não sei se pensei que a água seria capaz de limpar meus sentimentos, mas a verdade é que quase me fez bem. Quase. Nunca acreditei que isso fosse possível, a não ser em filme, mas eu conseguia ouvir a voz de Hazel como se ela estivesse no banheiro comigo, me dizendo todas as verdades que eu acreditei que fosse capaz de fugir, principalmente aqui em Jim Thorpe. O tempo que fiquei embaixo do chuveiro como um verdadeiro maluco eu não sei dizer. Pareceu minutos, mas pode ter sido horas, ou o inverso. Retiro minhas roupas e aproveito para tomar um banho de verdade. A voz de Hazel ainda se fazia presente em mim.
É difícil ignorar algo que você sabe ser a verdade, ainda mais quando ela é dita sob a perspectiva de outra pessoa. É claro que eu sei que meus livros não passam de um apelo comercial, assim como tudo em mim. O primeiro livro que escrevi e que me fez ser publicado era exatamente como Hazel descreveu o que um livro deveria ser. Meu foco era de fato o romance, mas na minha concepção, até os maiores clichês podem vir carregados de uma verdade que te marca pelo resto da vida. Era esse o meu grande sonho, falar sobre o amor, mas de uma forma real, tentando provar que os romances de livros não são tão fora da realidade. Mas quando eu conheci Tom, tudo mudou.
Aos poucos ele foi me vendendo a ideia de que escrever algo que as pessoas, principalmente as meninas, já estivessem acostumadas a ler, e que a ambição de revolucionar o gênero do romance, não cabia naquele momento da minha carreira. Talvez os contratos com milionários ou a fama que apareceu de um dia para o outro foram o bastante para fazer com que eu me perdesse em mim, ao ponto de que levei meses para perceber, e quando finalmente tive forças para me esconder dessa realidade que me custa um preço alto demais, a verdade me achou, e com toda certeza não estou preparado para lidar com ela.
Também não é justo descontar todas as minhas frustrações em Hazel. Se ela disse o que disse é porque definitivamente não sabe quem sou. E quem fala a verdade não merece castigo. Por mais que eu tenha sentindo mil e um sentimentos em questão de segundos, Hazel não é a razão pela qual eu me senti dessa forma, não a verdadeira razão pelo menos.
Arrumo toda a bagunça que fiz no banheiro, guardo a caixa misteriosa embaixo da minha cama e vistei-me com um conjunto de moletom cinza. Olho-me no espelho, tentando me reconhecer por debaixo da barba e das olheiras. Mas tudo que vejo é um completo estranho. Penteio meus cabelos e vou até a cozinha, acendo um cigarro e vejo o sol se esconder aos poucos entre as montanhas, iluminando o telhado da imponente Asa Packer Mansion, com a neblina cobrindo a grama, dando o ar melancólico perfeito ao que eu sinto nesse momento. Considerando tudo, me ocorreu o pensamento de que talvez escrever agora pudesse ser bom, eu poderia me “desbloquear”, mas só de pensar, meu estômago revira. Fico observando a paisagem, pensando em tudo e nada ao mesmo tempo, até que finalmente ouço a porta abrir e fechar atrás de mim.
Hazel se aproxima devagar, fazendo barulhos de forma intencional para que eu percebesse sua presença, mas me mantive olhando para fora, apesar de toda a minha atenção estar em Hazel.
ー Eu não devia ter comentado nada sobre o seu trabalho. ー Fiquei imóvel. ー Quando eu te vi no meu apartamento, tive uma sensação estranha de que conhecia você. Quem diria não é? ー Hazel dá um riso sem graça. ー Olha, eu imagino como possa ser difícil trabalhar com escrita…
ー Este é o problema Hazel. Você não sabe. A maioria das pessoas não sabe. Suas palavras me afetaram não porque foram de alguma forma crueis, mas porque são verdades. Eu sei que minha escrita é comercial, e que parece que só escrevo romances clichês, sem nada de especial. Mas essa não foi minha ambição, nunca foi. Observando hoje, vejo que me deixei levar por um caminho sem ao menos perceber que o estava fazendo. Quando publiquei meu primeiro livro eu tinha orgulho da obra que produzi, a história tinha sentido porque o amor caminhava com conflitos que vão além do que a sociedade define como problema de verdade, mas sem tirar a magia do amor. E quando conheci meu agente ele me convenceu de que me levaria ao prestígio mais rápido, desde que eu seguisse seus conselhos. E aos poucos, toda a minha identidade foi moldada, começou com poucas revisões na escrita, e quando me dei conta, até meu corte de cabelo precisa ser de um jeito. Afinal quantos homens hoje tem a sensibilidade de escrever romances, com a aparência de que saiu de um? Foi o que Tom me disse e o mais impressionante é que ele está certo. Cheguei a um nível de reconhecimento e dinheiro que a maioria dos escritores nem sonham em conquistar. Mas a custo de que? Eu vim para Jim Thorpe para me desligar de tudo isso e no segundo dia a verdade foi jogada na minha cara. ー Apago o cigarro e me viro para Hazel, ela está segurando um pacote com vários documentos, e completamente em lágrimas. Me aproximo dela e ela me olha nos olhos, o mesmo olhar de hoje de manhã. ー O que houve?
ー O quão ridículo você vai achar se eu disser que meu sonho é ser escritora também? ー O simples comentário dela me faz cair na gargalhada, e sem pensar duas vezes eu a abraço, e para minha grande surpresa, ela retribui. Seu cabelo tem cheiro de chá e baunilha, e nossa diferença de altura faz ela deitar em meu peito.
Estou abraçado com uma estranha, e a sensação é muito melhor do que eu possa imaginar. Acho que estou começando a gostar da ideia de dividir esse apartamento com Hazel. Nos afastamos delicadamente, e Hazel, completamente sem graça por esse momento, diz que vai preparar algo para comermos, e quando ela abre o congelador para pegar a pizza que trouxe no dia anterior, tive que conter o riso.
ー Me conta, você escreve tão bem quanto cozinha? ー Ela me olhou séria, e isso aumentou ainda mais minha vontade de rir. ー O que gosta de escrever? Romance?
ー Sai fora! O gênero literário mais previsível e cheio de clichês… Você pode ser a pessoa mais criativa do mundo, mas em algum momento, será obrigado a repetir a fórmula. Já no suspense, você devora as palavras na mesma velocidade que a história o devora, sem precisar de amor, ou de declarações que nunca vai receber.
É óbvio que essa escolha de gênero literário tem algo muito mais profundo que um simples gosto pessoal, e talvez ela queira me contar sobre isso, um dia, não é o momento agora.
ー E você? Por que romance? ー Foi a vez de Hazel perguntar.
ー É um bom gênero, mesmo estando meio saturado. Eu acredito que dá para escrever sobre o amor de forma que ele seja real sem precisar de um fim trágico, e também de um jeito incrível sem ser sobre um homem que corre em um aeroporto. Afinal é o sentimento que move tudo, não acha? ー Hazel fica em silêncio, e finalmente me responde:
ー Você não quer escrever clichês e dois dos livros tem uma cena de um homem correndo em um aeroporto? É isso mesmo que eu ouvi? ー Ela pergunta, cheia de ironia.
ー Olha quem fala, você odeia romance por causa do clichê, e é uma garota que sempre quis ter uma livraria. Quais eram as outras opções? Cafeteria? Ou floricultura?
Nesse momento o forno sinaliza que nossa pizza está pronta. Quando o pequeno sino parou de ecoar por toda cozinha, explodimos em risadas, mais uma vez.







