Mundo de ficçãoIniciar sessãoHazel
A última coisa que me faltava era aquele homem daquele tamanho ser fã de romances juvenis e eu ter ofendido o ídolo dele. Julian ainda estava de costas para mim, mas era possível sentir a tensão no ar, como se ele estivesse prestes a me dizer a coisa mais importante, ou a coisa mais estúpida.
ー Vocês, acadêmicos, são todos iguais. Estudam algo por uns meses e já acreditam ser doutores no assunto. Mas sabe, ninguém nem imagina como é de verdade a indústria literária, tem-se a ilusão de que ela, por se tratar de um dos maiores objetos de cultura da humanidade, é, de alguma forma, menos capitalista. ー Ele desabafa, ainda de costas para mim.
ー Mas do que é que você está falando?
ー Com licença. ー Julian diz, pega uma caixa qualquer que estava em cima da mesa e passa por mim, sem nem me olhar nos olhos. Porque minhas palavras o deixaram tão chateado? Será que ele queria ser escritor e acabou ficando frustrado por não conseguir? Ou conhece J. V. Black? Afinal, quem é o Julian? E porque sua fisionomia é tão familiar? O que ele veio fazer em Jim Thorpe?
Minha mente fervilhava de perguntas quando ouço alguém abrir a porta. Era um homem mais velho, devia ter uns quarenta anos, com roupas sociais.
ー Com licença, você é a Srta. Hazel Brooks?
ー Sim, sou eu.
ー Boa Tarde! Eu trabalho no cartório aqui da cidade e recebi a informação de que a livraria voltou a funcionar, e por isso estou aqui.
ー A livraria não voltou a funcionar, mas que bom que você veio, há algumas pendências que preciso resolver.
ー Ótimo! A notificação oficial deve chegar nos próximos dias, no máximo na semana que vem. Mas resolvi trazer toda a documentação de uma vez, para que a senhorita possa se organizar melhor.
ー Notificação oficial? ー Eu pergunto sem entender.
ー Tenha uma boa tarde! ー O homem me dá um sorriso forçado e sai, ignorando completamente minha pergunta. O pacote que ele me entrega é pesado, e quando o abro, há vários documentos, todos diferentes. Fecho a porta da livraria, e a tranco de uma vez, não quero ser mais interrompida hoje, nem passar por grandes emoções. Agora eram quatro horas e o frio começava a ficar intenso outra vez. Vou até o balcão, organizo os documentos e me sento, pronta para ler um por um.
O primeiro documento era o testamento de tia Vivienne, alegando que tudo que estava no nome dela, incluindo os bens e o valor em sua conta bancária, seriam passados para o nome de sua sobrinha, Hazel Brooks. Oficialmente o apartamento, a livraria e o dinheiro da conta bancária pertencem a mim. Assim que eu pagar a taxa ao cartório, é claro. Havia também um pacote, com uma chave, uma foto minha com tia Vivienne quando eu era uma criança, e atrás da foto apenas estava escrito: Espero que me perdoe, e que tudo faça sentindo quando souber a verdade.
Nesse momento a minha cabeça dá um nó. Parece que estou no meio de uma investigação seríssima, e não sei de absolutamente nada que está acontecendo. E eu odeio o fato de não entender, de não ter controle da situação. Olho a foto novamente, para ver se nela há algum detalhe, mas não. Releio o testamento e nada. A letra da mensagem era da tia Vivienne, e não consigo reconhecer a chave que estava junto da foto. Testei para ver se é a chave da livraria, mas não é, essa chave é bem menor que a fechadura. Guardo a chave e a foto no pacote novamente e parto para o próximo documento.
O próximo documento é o extrato bancário de minha tia. Havia seis mil dólares na conta bancária dela. Eu até que tento conter o riso, mas é impossível. Esse dinheiro é mais que um respiro pra mim. Com esse dinheiro eu posso organizar a reforma que tenho que fazer na livraria, e manter as contas, pelo menos por um ou dois meses. O tempo é apertado, mas com certeza agora é bem possível. Se minha tinha pensou que eu não era capaz de perdoá-la, com esse dinheiro ela está mais que perdoada.
Mas infelizmente para mim, quando uma coisa dá certo, isso significa uma bomba muito grande está prestes a estourar no meu colo. Eu fiquei comemorando por uns cinco minutos, que quando passei para o próximo documento, eu senti cada gota de felicidade e esperança saindo do meu corpo. O documento tinha pelo menos vinte páginas, com notificações de hipoteca para pagar e juros por atraso. Em resumo, minha tia deve ao banco cerca de cinquenta mil dólares, um dinheiro que nem nos meus melhores sonhos, eu teria com 24 anos. A dívida, que agora está no meu nome, tem a livraria e o apartamento como garantia. É óbvio que um apartamento no centro de uma cidade turística junto de uma livraria valem muito mais que cinquenta mil, mas quem disse que o banco se importa?
A notificação que o tal homem disse que seria entregue provavelmente se refere a essa dívida, e assim vou saber quanto tempo tenho para quitar a dívida, o que provavelmente não será nunca mais que noventa dias. Não consigo acreditar que isso seja verdade. Eu olho para o documento e me levanto, andando de um lado para o outro, na inútil esperança de organizar meus pensamentos, ou digerir toda essa história. Sinto meu peito acelerar, e a respiração ficar pesada. É muita informação, muitos problemas, em tão pouco tempo, e isso faz com que eu comece a entrar em desespero. Apoio minhas mãos no balcão, e respiro fundo. Perder a calma agora não vai resolver os problemas, por mais que agora tudo que eu quero é mandar tudo pro espaço.
Esfrego minhas têmporas com uma das mãos e me lembro que ainda não li o último documento. Tratava-se do contrato de aluguel com Julian. Não que fosse algo que eu quisesse, mas resolvo ler, talvez isso me distraia do meu problema, e quem sabe até me ajude a solucionar essa questão sobre nós dois dividirmos casa. Leio o contrato, mas não tem nada demais, é um contrato de aluguel por temporada como qualquer outro. Mas uma coisa chama a minha atenção. O nome completo de Julian é Julian Vance Black. Quando olho rua rubrica, assinado somente como J. V. Black, sinto meu estômago gelar.
Uma ideia maluca se instala na minha cabeça. Mas não pode ser verdade, não tem como ser verdade. Para acabar com essas dúvidas, decidi pesquisar o escritor no meu celular, e lá estava Julian no que parecia uma premiação.
ー PUTA MERDA! ー Não consigo esconder o espanto. Estou morando com o escritor mais famoso da atualidade. E eu disse que a escrita dele é uma merda, na cara dele. Será que tem como a minha vida ficar pior do que está?







