CAPÍTULO III

Hazel

Foda-se a minha fome. Foda-se a pizza. Foda-se o planejamento de amanhã. Foda-se tudo! Não posso dizer que eu tinha certeza absoluta de que minha vida seria um conto de fadas. Mas dormir num quartinho que mais é um escritório dentro da minha própria casa, também já é demais. Eu perdi completamente a vontade de fazer qualquer coisa, pois até o momento, absolutamente nada saiu como eu planejei, e a pior parte é saber que não posso fazer nada para mudar, pelo menos não agora. Tudo que eu posso fazer é descansar, ou tentar pelo menos. Não sei se meus pensamentos vão desacelerar. 

Ouço Julian trancar a porta do quarto no fim do corredor e volto até a sala para pegar minhas malas. Minha cama, se é que posso chamar assim, não tem nem lençol, e eu sequer lembrei de trazer algum. Ótima primeira noite. E tudo ainda fica melhor quando lembro que Julian vai dormir feito um lorde na minha cama, da minha casa! Ele é tão estranho. Tão arrogante. Tão bonito… Não não, só estranho e arrogante. Com seu suéter social e calça jeans preta em corte reto, cabelos pretos em corte old money e a barba por fazer, maxilar marcado e o porte físico alto e levemente definido. A impressão que tive é que ele tenta parecer que saiu de um livro. Quase parece que eu estou dentro de um livro, afinal, onde seria possível eu ter que dividir a casa com um completo e charmoso estranho? Sem mencionar que eu sei que o conheço de algum lugar, eu só não consigo me lembrar de onde. 

Mas isso não faz diferença agora. Tento esvaziar minha mente enquanto sinto meu corpo relaxar num delicioso banho. Eu poderia usar a banheira, com certeza a experiência seria ainda melhor, mas me pareceu trabalho demais, e agora, tudo que eu quero é esforços mínimos e a melhor noite de sono do mundo. Já que não pretendo anotar os planos pra amanhã, muito menos assistir vídeos sobre como gerenciar um negócio, tudo que posso fazer é pensar no dia de amanhã, definir uma ou duas metas, e viver um dia de cada vez. Preciso ver o estado da livraria, que com sorte não estará tão ruim. Preciso ir ao cartório registrar a posse da casa, conferir essa história de contrato e se, em termos jurídicos, tudo está dentro da lei. 

Desligo o chuveiro e rapidamente visto o meu pijama, pensando em como posso deixar aquele cômodo o mais confortável possível, o que obviamente não vai ser nem um pouco fácil. Para minha surpresa, assim que entro no quarto, vejo um travesseiro, um jogo de lençol limpo e vários cobertores, mais do que preciso. Um sorriso escapa do meu rosto. Talvez ele não seja uma pessoa desagradável… Ele é sim, e se pensa que fazer o mínimo muda alguma coisa, ele está muito enganado. Fico séria outra vez e começo a arrumar minha cama, numa velocidade acima do normal.  

Naquela noite eu tive uns sonhos estranhos sobre eu estar na faculdade, mas o prédio do sonho não era a minha faculdade, era meu primeiro dia, mas ninguém acreditava que eu estava na faculdade. Acordei com alguém me perguntando porque eu não desistia. A luz do sol batia com tudo na minha janela, dando a sensação de ilusão mais linda que tive, já que apesar do sol lá fora, o frio era cortante, eu estava completamente encolhida naquela cama. Se fosse uma noite normal na minha vida eu provavelmente teria dormido muito mal, mas considerando o cansaço, e as últimas emoções vividas, eu diria que dormi até que muito bem. 

Com muito custo eu aceitei levantar da cama, vesti duas calças, um suéter de lã e uma jaqueta jeans forrada, a mais quente que tenho. Quando eu estava fazendo as malas, eu sabia que a cidade era fria, o que eu não sabia era que seria tão fria assim, são esses pequenos detalhes que me fazem pensar se foi ou não uma boa ideia sair praticamente correndo da minha cidade, mas hoje é um novo dia, e tudo que é novo, parece errado no começo, mas sei que aos poucos tudo vai se acertar. Vou ao banheiro escovar os dentes e lavar o rosto. Ao sair eu sinto aquele cheiro gostoso de café que acabou de ser feito, e eu percebo que estou com muita fome. 

Quando eu acordei eu esqueci completamente que um estranho está na minha casa, e que é por conta dele que eu dormi num quartinho pequeno. A única coisa que tinha na minha mente era ver a livraria, e ver quanto seria para reinaugurar ela, e quanto tempo isso vai levar pra acontecer. Mas esses pensamentos desapareceram quando senti aquele cheirinho de café. Vou até a cozinha e Julian está lavando uma xícara, com uma calça alfaiataria marrom, uma camisa branca por baixo de um suéter bege, e uma jaqueta de couro marrom também. Ele parece um lorde. Lindo, mas quem está impecável igual ele às sete da manhã desta segunda-feira fria como aquela? 

ー Bom dia pra você também! ー Ele corta os meus pensamentos. Ignoro completamente os seus comentários, vou até o armário da cozinha, pego uma xícara para mim e começo a servir um pouco de café. ー O que pensa que está fazendo? 

ー Pegando café, não está vendo? 

ー Sim, mas é o MEU café. 

ー Feito na MINHA casa. 

ー Não deixei você beber do meu café. deveria ter pedido. 

Toda aquela conversa estava me irritando. Ele não queria que eu bebesse um pouco de café, estava sendo mesquinho e a fome deixava tudo muito pior. Sem pensar duas vezes, jogo o café que estava na xícara na pia. E o café da xícara dele. E o café que estava na cafeteira. Julian ficou completamente incrédulo com o que fiz. Saio do apartamento, mas logo volto e falo com ele: 

ー Bom dia pra você também!

Não lembro quando foi a última vez que senti tanta raiva. Como pode alguém me tirar tão do sério como ele faz? A minha sorte é que a cafeteria que fica bem próxima a livraria estava abrindo naquele momento, e por mais que ela fosse cara pra caramba, eu não tenho muitas opções. Eu preciso me organizar financeiramente, é provável que eu tenha que trabalhar de  freelancer algum fim de semana. Nesse momento, um pensamento me atravessa: se Julian assinou um contrato de aluguel, é provável que ele tenha feito alguma transferência. Preciso ir ao cartório, mas um problema de cada vez. 

Compro dois croissants, e como o café iria demorar, deixo pra comprar mais tarde. E finalmente chegou a hora de ver a minha herança. Abro a porta da frente, e por mais que seja dia, está tão escuro que preciso acender a luz, e quando o faço, a surpresa: a impressão que tive é que a livraria não é aberta há pelo menos uns vinte anos. boa parte dos livros estão destruídos, seja pelo mofo, pela poeira, ou pelos ratos. Duas das seis prateleiras estavam caídas, parecia que a umidade enfraqueceu a estrutura, e por isso cederam. As paredes estão mofadas, tudo está completamente empoeirado, úmido e com cheiro de velho. O fato da luz funcionar significava que não há tanto tempo assim. O problema é que isso não me ajuda em absolutamente nada. 

Não consigo por em palavras o que sinto agora. Eu sabia que a livraria poderia estar abandonada, mas isso não chega nem perto de como ela realmente está. O que vou precisar gastar vai muito além do tenho, sozinha eu provavelmente vou levar semanas até limpar tudo, sem mencionar a papelada e a parte administrativa. Sinceramente eu não sei mais o que fazer, ou por onde começar. Coloco a sacola com os croissants no balcão, saio da livraria, me apoio na parede e fecho os olhos, tentando processar tudo. Um pensamento me atravessa sobre deixar tudo isso pra trás, talvez encarar a minha antiga vida, seja mais fácil do que essa loucura que eu acabei me enfiando. Meus pensamentos estão acelerados e o frio está congelante, mas eu simplesmente não consigo me mover. Minha vontade é chorar, gritar, ou simplesmente sair andando. Mas estou completamente paralisada. 

Não sei dizer quanto tempo fiquei do lado de fora, com os olhos fechados, mas quando o frio ficou insuportável, eu tive que entrar. No balcão, estava uma xícara de café, a mesma que eu peguei de manhã, e isso, por alguma razão, fez eu me sentir muito melhor naquele momento. Olho em volta, para ver se Julian ainda está lá, mas parecia que eu estava sozinha. Mas como ele entrou? Ah, claro, a escada interna dos fundos que ligava o apartamento direto à loja. 

Começo a andar pelas prateleiras para ver se o encontro, e quando chego no fim do corredor, fico parada procurando por ele, e de repente sinto algo passando pelos meus pés. Quando olho para baixo, um rato enorme estava me cheirando, e esse foi o meu limite. Grito de uma maneira quase histérica e saio correndo em direção a porta, mas acabo batendo com tudo em Julian, que parecia assutado com o meu grito. E instintivamente, ele me ergueu, me tirando do chão, para me proteger. Nossos olhos se encontram, e nossos rostos estão a centímetros de distância. 

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