O Último Manuscrito de Nós Dois
O Último Manuscrito de Nós Dois
Por: Luiza Leandro
CAPÍTULO I

Hazel

Já era a quarta ligação que eu recusara. Minha mãe provavelmente não iria parar de ligar até que eu desse alguma satisfação, mas sinceramente não estou com cabeça para falar com ela agora. O momento é, na verdade, perfeito. O fato de que acabo de chegar numa cidade nova, onde ninguém me conhece, me obriga a ficar no anonimato. A essas alturas, ou minha mãe pensa que eu sumi em algum bar perto da faculdade, ou já leu a carta que escrevi, e quer saber o que tenho na cabeça pra deixar tudo pra trás, e vir viver meu sonho. 

Concordo que viver meu sonho talvez seja um exagero, mas não deixa de ser um começo. Às vezes a maior distância entre nós e nossos sonhos é um único primeiro passo, dado sem pensar. Quando finalmente comecei na faculdade de literatura, depois de alguns anos longe de uma sala de aula, eu pude ver minha vida inteira, se desenhando diante dos meus olhos… Estudos, bolsas e programas literários, o primeiro livro publicado antes do diploma. Porém a realidade não foi tão gentil. Quando minha bolsa parou de cobrir os custos com livros, alimentação, transporte e tive que me humilhar para pedir a minha mãe, tudo desandou.

Minha mãe não é uma pessoa ruim, é só, tradicional demais. Ela não acredita nesse negócio de ser escritora e conseguir reconhecimento, dinheiro, uma vida estável. Para ela, isso não é profissão, é apenas um sonho bobo que não me levará a lugar nenhum. Só que todos nós temos limites, e nessa bola de neve de dívidas, brigas e pressão acadêmica, posso dizer que encontrei a válvula de escape perfeita. Por mais estranho que isso possa parecer, dos cinco irmãos que minha mãe tem, eu sou a única neta na família. Talvez fosse algo genético, e meu avô ter trabalhado numa fábrica de cigarros por muitos anos colocou um certo limite na família Brooks, mas ser a única herdeira numa família, mesmo que seu patrimônio seja consideravelmente pouco, ainda é uma grande vantagem. Sempre fui paparicada por meus tios, principalmente pela tia Vivienne, a única que era tão apaixonada por livros quanto eu. 

Ela se mudou para um distrito pequeno da Pensilvânia chamado Jim Thorpe, onde abriu a própria livraria e viveu até o último de seus dias cercada pelo seu grande amor. Quando ela foi encontrada morta em seu apartamento pensei que não fosse aguentar tanta tristeza, minha tia favorita, minha única parente que me entendia, se foi para sempre. Estaria mentindo se dissesse que não esperava herdar a livraria carinhosamente chamada de Brooks and Books, só não esperava que fosse tão cedo, no auge dos meus 24 anos. 

A ideia fervilhou na minha mente por muitos dias, e depois do que minha mãe me disse, na última sexta feira, decidi fazer o que é provavelmente a maior loucura da minha vida. E cá estou eu, como a tia Vivienne. Cidade nova, novas expectativas, novos medos, me deixando levar pela emoção do desconhecido e de um futuro que posso ou não conquistar. Trago comigo somente três malas, alguns livros na mochila e o testamento que confirma que a livraria e o pequeno apartamento em cima dela, agora pertencem a mim. 

A sensação que a cidade me passava é que a cidade havia parado no tempo. Tudo nela era aconchegante, parecia que eu havia acabado de voltar para o século XX. É o tipo de lugar onde apesar do turismo, todos se conhecem, você pode ir para qualquer lugar sem precisar de um táxi, e definitivamente qualquer aspirante a escritor morreria para morar num lugar como aquele. A estação ferroviária no centro da cidade estava agitada, e ainda que não fosse pouco mais que quatro horas, o sol já começava a se esconder. 

Recolhi minha bagagem e procurei a cafeteria mais próxima. Não tinha fome, apenas queria organizar as ideias. Encontrei um Pub e pedi uma água com gás. retirei meu diário pessoal da mochila e procurei pelas anotações que fizera da cidade, pelo que pesquisei. O endereço do apartamento era: Apartamento 73 ー Broadway, Jim Thorpe, PA 18229. Pesquisei no G****e Maps e eu estava a incríveis 500 metros da minha nova casa. Aquilo me tranquilizou, eu pedi uma cerveja e pude observar o Pub ficar movimentado aos poucos, típico de um domingo.

Conferi minha conta bancária e tenho pouco mais de 300 dólares. Incluindo as contas mensais que logo vão chegar, alimentação e uma possível pequena reforma na livraria, esse dinheiro é praticamente nada. Jim Thorpe é maravilhosa, mas é uma cidade turística, o custo de vida aqui é altíssimo, mesmo sendo um lugar pacato. Eu não tenho ideia de como tocar um negócio de livros, tudo que fiz até hoje foi somente ler e escrever uma ou outra ideia para futuros livros. Não  quero me enganar, estou ferrada, talvez essa mudança tenha sido uma completa loucura. 

Fecho os olhos e bebo até a metade da minha cerveja. Não é hora de ter medo, nem de me desesperar. Já estou aqui. As coisas já estão acontecendo. Amanhã cedo já começo a trabalhar na livraria, e provavelmente terei no apartamento tudo que preciso, exceto comida. Olho para meu caderno com o endereço e uma foto do lugar e penso em escrever alguma coisa, registrar esse momento, esse dia, essa nova vida. Mas nada me vem à mente, cansaço talvez, muita coisa para um dia só. Meu celular toca e vejo que é mais uma chamada da minha mãe. Espero até cair na caixa postal e enviar uma mensagem: Depois conversamos, mas não se preocupe, eu estou bem! E desligo o celular. Aquela era uma mentira deslavada, não estou exatamente bem, mas não quero falar com ninguém sobre isso, principalmente minha mãe. 

A melhor coisa que posso fazer agora é ir pra casa, tomar um bom banho e quem sabe planejar o dia de amanhã. Posso pedir uma pizza e tomar um vinho enquanto faço isso. E viver um dia de cada vez. Sempre dei um jeito, pra tudo, agora não será diferente. Pago a conta e rumo ao meu novo endereço. No caminho encontrei uma loja de conveniência e decidi comprar a pizza e o vinho ali mesmo. Um absurdo o preço, mas preciso comer, infelizmente para mim, meu dia não acabou. 

Tento observar o máximo que posso da cidade. Mesmo estando no outono, já posso sentir o ar gelado. Regiões montanhosas sempre são mais frias, e eu até que gosto, por sorte, já vim preparada para esse clima. Um morro alto me espera para poder chegar no centro, e enfim, casa. Olho para cima e vejo a imponente Asa Packer Mansion, uma mansão vitoriana gigante que fica no topo da colina, vigiando a cidade inteira lá de cima como um fantasma do passado industrial. Parecia que eu estava num sonho. Um sonho aterrorizante, mas lindo, do tipo que nunca sonhei. 

Confiro a foto no caderno, olho para rua. Finalmente cheguei. A essas alturas o cansaço começa a bater, depois de um morro desses carregando três malas. Tento olhar para dentro da livraria, mas é um verdadeiro breu, tudo que posso observar é a silhueta de um caixa perto da janela, e inúmeras estantes de livros, se escondendo no escuro ainda mais escuro. O apartamento fica no segundo andar. Só preciso subir mais dois lances de escadas então: Banho. Vinho. Pizza. Banho. Vinho. Pizza. Esse era o meu mantra até finalmente chegar no número 73 escrito na porta. Havia uma luz fraca vindo pela fresta da porta, mas talvez só fosse uma janela aberta. Ainda não eram 17H30 e o sol mal havia dado lugar para a lua. 

Enfio a chave na maçaneta, abro com cuidado e observo. O apartamento não era grande, não era luxuoso, mas era perfeito. A sala era composta por um sofá em couro escuro, com um tapete e uma mesinha de centro, uma pequena estante com uma TV antiga que provavelmente nem funciona mais. Algumas plantas mortas, uma estante com um metro de altura e um aquário vazio em cima, cheia de livros embaixo. Uma poltrona fechava o ambiente. E quadros, muitos quadros, minha tia era, definitivamente, uma amante da arte.

Havia ainda um corredor que dava acesso ao banheiro, o quarto principal, uma outra porta que eu não sabia que cômodo era, e a cozinha. Lar doce lar. Coloco minhas malas na sala e tranco a porta. Decido ir na cozinha colocar o vinho na geladeira e a pizza no congelador, e o mais estranho era que o fogão estava aceso, com uma água fervendo. Observo aquilo sem entender e, levando provavelmente o maior susto da minha vida, um homem pouco mais velho que eu, de um metro e oitenta e cabelos escuros me olha com uma expressão séria, de quem notoriamente está incomodado. 

ー Quem é você? ー O homem me pergunta, e a única coisa que consigo pensar, além do fato dele ser lindo, é que eu o conheço, de algum lugar. 

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