Nem todo amor floresce fácil... muito menos quando é sufocado pela rejeição antes de ter a chance de nascer. Eliz passou a juventude inteira nos corredores de pedra cinzenta do Palácio de Cristal, ouvindo os anciãos sussurrarem sobre o peso de seu destino. Ela havia sido prometida ao lobo mais poderoso dos territórios gelados: Sloan, o implacável Supremo dos Lobos do Norte. O acordo fora selado quando ainda eram crianças, uma aliança política fria costurada entre os anciãos da alcateia e os pais adotivos da jovem, antes de serem mortos em uma das muitas rebeliões na fronteira. Para a matilha, Eliz era a candidata perfeita: submissa, silenciosa e criada para servir.
Mas ninguém jamais havia lhe contado a verdade mais sombria sobre aquele arranjo: o homem destinado a ser seu marido a desprezava profundamente.
Sloan não a odiava apenas por causa do casamento forçado; o motivo era muito mais profundo e cruel. Ele a via como o símbolo vivo de sua fraqueza. Anos atrás, o pai de Sloan, o antigo Supremo, havia sido assassinado em uma emboscada na qual o pai biológico de Eliz falhara em protegê-lo. Sloan crescera carregando o luto e o fardo de assumir o trono cedo demais, e em sua mente distorcida, o sangue de Eliz estava manchado com a covardia de sua linhagem. Para ele, ela era uma loba sem valor, fraca demais para gerar herdeiros fortes, e uma presença irritante que os anciãos o obrigavam a tolerar para manter uma promessa antiga de paz. Ele acreditava que o laço de companheiros que os anciãos insistiam que surgiria entre os dois era uma mentira inventada para acorrentá-lo.
Na noite anterior àquela que deveria ser a coroação de Eliz como Luna da Alcateia do Norte, o peso desse desprezo esmagou o que restava de sua dignidade.
O palácio estava imerso em uma agitação sufocante. Servos corriam de um lado para o outro arrumando as tapeçarias brancas e os arranjos de lírios de gelo para o banquete do dia seguinte. Sentindo o peito apertado pela ansiedade, Eliz decidiu procurar por Sloan. Precisava ouvir dele, ao menos uma vez, que tentariam fazer o casamento dar certo, que a convivência amenizaria o seu rancor.
Os passos da loba a levaram até a ala privativa dos aposentos reais, um corredor isolado onde o som dos servos não chegava. Conforme se aproximava da pesada porta de carvalho entreaberta, o cheiro forte de almíscar e o aroma doce de jasmim invadiram seu olfato aguçado. Então, os sons começaram.
Gemidos baixos, respirações arfantes e o som brutal de garras arranhando a cabeceira de madeira.
Eliz aproximou-se devagar, com cada músculo do corpo tremendo. Ao empurrar a porta um centímetro a mais, a cena sob a luz fraca do abajur de cristais estraçalhou a sua alma.
Diante de seus próprios olhos, Sloan dividia a cama e o prazer com outra loba — Amanda, uma nobre de linhagem pura, altiva e ambiciosa, que sempre a olhara com desdém nos banquetes da corte. Sloan a possuía com uma ferocidade selvagem, as mãos grandes cravadas nos quadris dela, os olhos azuis brilhando com uma luxúria que ele nunca, em toda a vida, havia direcionado a Eliz. Ele sussurrava palavras de posse no ouvido de Amanda, prometendo-lhe o lugar que, por direito, deveria ser da noiva na manhã seguinte.
Para Sloan, Eliz não significava absolutamente nada além de uma obrigação política irritante. Um estorvo que ele mal suportava olhar.
O choque fez a jovem recuar cambaleando pelo corredor escuro, com as lágrimas congelando em suas bochechas antes mesmo de caírem. Ela passou o resto daquela noite trancada em seu quarto, abraçada aos próprios joelhos, desejando que o sol nunca nascesse.
Último capítulo