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Capítulo 2: A Quebra do Vínculo e o Beijo da Morte

O sol da manhã seguinte nasceu gélido, mas o grande salão do Palácio de Cristal já estava imerso em uma agitação sufocante. Centenas de lobos de todas as castas — desde os guerreiros de elite da guarda até os nobres mais influentes das matilhas vizinhas — vestiam suas melhores peles e armaduras formais. Eles se espremiam nas galerias, ansiosos para testemunhar a consagração da nova rainha. Para os anciãos, era a celebração da paz; para Eliz, era o início de um sacrifício.

A jovem foi conduzida ao altar central sob o peso de mil olhares sussurrantes. Seu vestido branco de seda parecia uma mortalha moldada ao seu corpo trêmulo. No topo da imponente escadaria de mármore, Sloan a esperava. Ele recusara as vestes tradicionais de noivo, vestindo sua pesada armadura de combate preta. Sua mandíbula estava travada e seus olhos azuis, antes gélidos, agora queimavam com uma fúria contida. O Supremo olhou para Eliz com o mesmo asco de quem encara uma corrente que o prenderia para sempre. Ele olhou para os anciãos e tomou sua decisão brutal. Não aceitaria ser controlado.

Sloan deu um passo à frente, erguendo a mão para interromper o sumo sacerdote antes que a primeira bênção de acasalamento fosse pronunciada. O silêncio que caiu sobre o salão foi tão absoluto que o estalar das chamas nas tochas das paredes pareceu um estrondo.

— Eu, o Supremo dos Lobos do Norte, rejeito você, Eliz, como minha companheira de alma e como minha Luna! — a voz dele, potencializada pelo comando de Alfa Supremo, chicoteou o ar, estraçalhando as vigas de pedra do palácio.

A rejeição de um Alfa daquela magnitude não era um mero insulto verbal; era uma força mística devastadora. No instante em que as palavras cortaram o salão, o tênue fio invisível que a natureza tentava tecer entre as almas dos dois foi partido de forma violenta.

A dor física foi indescritível para Eliz. Ela sentiu como se uma garra de prata em brasa tivesse perfurado seu peito, agarrado seu coração e o esmagado sem piedade. Sua loba interior soltou um uivo de agonia pura, encolhendo-se nas profundezas de sua mente, sangrando pela rejeição do macho que deveria ser seu porto seguro. O ar sumiu dos pulmões da jovem e o gosto de sangue inundou sua boca. Ao olhar para o lado, ela viu Amanda na primeira fileira da corte. A nobre não escondia o sorriso de escárnio. Seus olhos brilhavam com o triunfo da humilhação pública que ela e Sloan haviam orquestrado.

As pernas de Eliz falharam. O mármore frio subiu rapidamente ao seu encontro e ela apagou, mergulhando na escuridão sob o peso da vergonha coletiva.

Quando recobrou a consciência, horas depois, Eliz não estava nos aposentos reais, mas sim jogada em uma cama estreita na ala dos fundos do palácio, onde os servos eram alojados. Seu corpo ainda ardia pela dor do laço partido, com cada músculo clamando por descanso. Foi quando a fumaça começou a entrar por baixo da porta de madeira.

Antes que ela pudesse se levantar, a janela do quarto foi estraçalhada. Dois betas robustos, vestindo capas escuras para esconder o rosto, invadiram o aposento carregando adagas de prata pura — o metal letal para a espécie.

— Estamos cumprindo ordens, pequena — sussurrou o mais alto, avançando sem hesitação. — O Supremo rejeitou você, mas a Lady quer garantir que ele não mude de ideia e que você nunca volte para reivicar o trono.

A adrenalina do puro instinto de sobrevivência silenciou a dor no peito de Eliz. Ela não era uma guerreira treinada, mas a vontade de viver falou mais alto. Quando o primeiro executor desferiu o golpe, a jovem jogou-se para o lado, sentindo a lâmina rasgar a manga de seu vestido. Usou o peso do próprio corpo para derrubar a pesada mesa de cabeceira contra as pernas dele. O impacto o fez cambalear.

O segundo lobo saltou na direção de Eliz, com as garras já expostas, mas o fogo que começava a consumir as cortinas do quarto criou uma barreira de fumaça densa entre eles. Tossindo e com os olhos ardendo, ela rastejou pelo chão, tateando a escuridão até encontrar a saída de emergência dos servos que dava para os jardins traseiros. Atrás dela, era possível ouvir os gritos dos guardas do palácio percebendo o incêndio.

A rejeição de Sloan havia quebrado o coração de Eliz, mas a tentativa de assassinato encomendada por Amanda estraçalhou qualquer dúvida que ela ainda guardava. Permanecer ali não era apenas tolerar a humilhação; era aceitar a morte. Eles não queriam apenas bani-la; queriam apagá-la da existência.

Sem olhar para trás, com as roupas chamuscadas e o peito sangrando pela quebra do vínculo, Eliz correu em direção à floresta sob a tempestade de neve que começava a cobrir o Norte. Ela estava fugindo para salvar sua vida, mas, no fundo de sua mente, jurava que cada fagulha daquele fogo arderia de volta na pele daqueles que tentaram destruí-la.

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