O que o Supremo dos Lobos do Norte ainda não havia compreendido era que as regras daquele jogo dinástico haviam mudado de forma irreversível. Eliz já não era a peça indefesa no tabuleiro de Sloan. Durante os meses de exílio nas estradas e nas sombras do Reino de Kaled, a jovem investigou obstinadamente o passado de seus pais biológicos. Com a ajuda de registros antigos e de lobos anciãos exilados que encontrou nas periferias, ela montou o quebra-cabeça que a corte do Norte tentou queimar. Eliz não era uma loba órfã comum, acolhida por caridade e sem casta. Sua marca de nascença arroxeada no pescoço não era uma deformidade física, como Sloan costumava apontar com desdém na infância; era o Selo de Sangue Ancestral, a marca mística dos Alfas Supremos do Sul. Sua linhagem era imperial, considerada a mais pura e devastadora de todos os territórios, e que todos acreditavam ter sido extinta nas grandes guerras sangrentas do passado.
Os anciãos do Norte sabiam disso desde o dia em que Eliz fora deixada no palácio, ainda filhote. Eles esconderam a verdadeira origem da jovem sob uma montanha de mentiras e falsos relatórios políticos por um motivo covarde: o medo. Sabiam que, se a matilha do Norte descobrisse que a herdeira legítima do Império do Sul estava viva e crescendo entre eles, o equilíbrio de poder mudaria. O povo comum e os guerreiros marginalizados se ajoelhariam diante dela, e não da linhagem de Sloan. Os anciãos queriam Eliz submissa, fraca e ignorante sobre o próprio sangue para que pudessem usar o casamento arranjado como uma forma velada de anexar os territórios do Sul ao Norte, roubando as riquezas sulistas sem precisar disparar uma única flecha. Ela deveria ser apenas uma Luna de fachada, uma prisioneira política com uma coroa de espinhos.
Mas os anciãos não eram os únicos que sabiam da importância que o sangue de Eliz representava. Amanda também sabia — e esse era o verdadeiro e mais sombrio motivo pelo qual queria ver a rival morta a qualquer custo.
Amanda pertencia a uma linhagem de nobres ambiciosos que, secretamente, haviam lucrado com a queda do Sul. Quando se infiltrou na cama de Sloan, seu objetivo nunca fora apenas o amor e o favoritismo do Alfa; era o poder absoluto. Ela descobriu o segredo do nascimento de Eliz ao vasculhar os pergaminhos proibidos no escritório do sumo sacerdote. Amanda percebeu que, se a jovem algum dia despertasse a sua loba Alfa do Sul, o laço de companheiros legítimo entre Eliz e Sloan ganharia uma força mística incontrolável, o que a anularia por completo. Além disso, sabia que a mera existência da rival colocava em risco os planos de sua própria família de assumir o controle das províncias ricas.
A humilhação pública que Sloan impôs a Eliz no altar fora o cenário perfeito que Amanda arquitetou. Ela sabia que a dor da quebra do vínculo enfraqueceria a loba interior de Eliz, deixando-a vulnerável. Por isso, naquela mesma noite, enviou seus executores para incendiar o quarto da jovem. Amanda não queria apenas exilá-la; precisava garantir que o cadáver de Eliz estivesse carbonizado antes que o sangue real despertasse, eliminando para sempre a única ameaça ao seu trono e aos seus planos de soberania.
Sloan acreditava que estava trazendo Eliz de volta como uma prisioneira conveniente para conter as revoltas nas fronteiras e consertar a bagunça que ele mesmo havia criado com sua soberba. O Supremo achava que, com o tempo, o título de Luna faria a jovem esquecer o passado.
Mas ele estava muito enganado. Eliz não era mais a loba assustada que eles tentaram apagar. O sangue dos Alfas do Sul corria fervendo nas veias da jovem, e os lobos rebeldes da periferia já sabiam que sua verdadeira rainha estava de volta. Amanda e sua família achavam que o trono do Norte pertencia a eles, mas logo perceberiam que Sloan estava bem perto de descobrir suas mentiras e tomar o controle de seu império novamente.