O som da pesada porta de carvalho sendo arrombada ecoou como um trovão pelos aposentos reais. Amanda, que acabara de subir correndo das masmorras com o coração na boca, sobressaltou-se, derrubando o cálice de cristal que segurava. O vinho tinto espalhou-se pelo tapete claro como uma poça de sangue fresco.
Sloan entrou no quarto. Seus olhos azuis não tinham mais qualquer traço da racionalidade humana; brilhavam com uma luminescência Alfa violenta e destrutiva. A pressão mística que emanava de seu corpo era tão esmagadora que os frascos de perfume de vidro na penteadeira de Amanda começaram a rachar, um a um.
— Sloan! — Amanda exclamou, tentando forçar uma expressão de carinho e inocência, embora sua voz entregasse o pânico absoluto. — O que significa isso? Não precisa invadir meus aposentos dessa forma.
O Supremo deu um passo à frente. A distância entre eles sumiu em um piscar de olhos. Sloan segurou Amanda pelos ombros com uma força que fez os ossos da nobre estalarem por baixo do veludo vermelho.
— Você achou mesmo que passaria o resto da vida mentindo para mim? — o rosnado de Sloan vibrou nas paredes. — Eu acabo de vir da sala de interrogatórios, Amanda. Breno me contou o que você ordenou na noite da rejeição.
O rosto de Amanda empalideceu ainda mais, se é que aquilo era possível. Ela abriu a boca, mas Sloan a sacudiu, interrompendo qualquer tentativa de negação.
— Você mandou executores! — ele rugiu, e o som fez os vidros das janelas do quarto tremerem. — Você trancou Eliz e mandou atear fogo no quarto dela enquanto celebrava a minha suposta liberdade na sua cama! Você tentou queimar ela viva!
— Sloan, me escuta! — vendo que as mentiras românticas não funcionariam mais, Amanda mudou de tática. O pânico em seus olhos transformou-se em uma audácia desesperada. Ela empurrou o peito de Sloan com as mãos trêmulas, tentando se afastar da aura sufocante dele. — Eu fiz isso por você! Eu fiz isso pelo Norte!
— Por mim?! — Sloan soltou uma risada amarga, os dentes caninos já expostos e afiados. — Você cometeu um assassinato dentro do meu palácio por mim?!
— Você é cego, Sloan? — Amanda gritou de volta, a voz histérica ecoando pelo quarto luxuoso. — Você achou mesmo que Eliz era só uma órfã fraca que os anciãos queriam te empurrar por caridade? Aquela maldita sonsa esconde o Selo de Sangue Ancestral dos Alfas do Sul no pescoço! Ela é a herdeira da linhagem imperial!
Sloan estancou, os olhos estreitando-se. A revelação bateu contra ele, mas a fúria não diminuiu.
— Os anciãos sabiam, Sloan! — Amanda continuou, despejando o veneno acumulado, tentando usar o segredo político como um escudo para os seus crimes. — Eles esconderam a origem dela para usá-la como uma marionete. Se Eliz assumisse o trono como sua Luna, o povo e os guerreiros do Sul não responderiam a você. Responderiam a ela! Ela anularia o seu comando Supremo. O Norte seria engolido pelo Sul sem que uma única gota de sangue fosse derramada. Eu descobri o segredo nos pergaminhos proibidos e fiz o que você não teve coragem de fazer. Eu tentei eliminar a ameaça antes que ela destruísse o seu legado!
Amanda deu um passo na direção dele, tentando tocar o rosto rígido do Alfa.
— Aquela bastarda voltou para tomar a sua coroa, Sloan. Ela não te ama, ela te odeia! Eu sou a única que realmente esteve ao seu lado, que protegeu o seu direito de governar. O fogo era a única garantia de que o Norte continuaria sendo seu!
Sloan olhou para a mulher à sua frente. As justificativas políticas e os segredos sobre o Sul agora pareciam cinzas diante do peso da sua própria culpa. Ele percebeu o tamanho da sua estupidez. Ele fora manipulado pelos anciãos, cegado pelo orgulho e usado por Amanda. Ele destruíra o laço mais sagrado da natureza por pura manipulação e soberba.
— Foi por proteção, não é Amanda... — a voz de Sloan caiu para um tom frio, muito mais assustador do que o rugido anterior. Ele afastou a mão dela com um tapa violento. — Mas a única ameaça real à minha coroa sempre foi a sua ganância. Você não protegeu o Norte. Você o condenou.
Sloan virou-se de costas, caminhando até a porta destruída. Antes de sair, ele olhou de soslaio para a amante enfraquecida no chão.
— Os guardas estão subindo. Você passará o resto dos seus dias nas masmorras, olhando para as paredes de pedra, enquanto assiste à rainha legítima assumir seu lugar novamente nesse reino.
O Supremo bateu o que restava da porta, deixando Amanda sozinha entre os cacos de vidro e o vinho derramado, sabendo que o império que ela tanto tentou roubar estava prestes a ruir.