Início / Lobisomem / O preço do Vínculo Quebrado / Capítulo 4: As Garras do Passado
Capítulo 4: As Garras do Passado

A paz que Eliz construiu com tanto esforço em Kaled foi estraçalhada em uma manhã de névoa densa. A jovem caminhava pelo mercado periférico, carregando uma cesta com suprimentos para a estalagem. De repente, o ar ficou denso, impregnado com um cheiro que ela reconheceria até se estivesse cega: pinho, gelo e sangue. O cheiro dos guerreiros do Norte.

Eliz tentou recuar para uma viela, mas foi cercada por quatro lobos de elite da guarda pessoal do Supremo. Cassandra, sua única amiga no exílio, percebeu o perigo e avançou contra o rastreador mais próximo para dar tempo de a jovem fugir. Mas a força deles era esmagadora. Eliz ouviu o estalo brutal de um soco e viu Cassandra cair desacordada no chão de terra. Antes que pudesse invocar a sua loba para lutar, dois braços como barras de ferro a prenderam por trás. Um pano embebido em clorofórmio foi pressionado contra o seu rosto. Ela lutou, mordendo e arranhando, mas a toxina agiu rápido. A visão de Eliz borrou e o mundo desmoronou em trevas.

Quando os olhos da jovem finalmente se abriram, o teto abobadado de pedra úmida e o cheiro de mofo misturado com sangue seco disseram exatamente onde ela estava: as masmorras profundas do Palácio de Cristal. O mesmo palácio onde ela havia sido pisoteada.

O som de passos firmes ecoou pelo corredor de celas. A pesada porta de ferro rangeu ao ser aberta, e Sloan entrou. Ele continuava imponente, com os ombros largos cobertos por um manto escuro e a coroa de ouro brilhando entre seus cabelos loiros. Mas o olhar do Supremo havia mudado. Não havia mais o nojo ou o desprezo do passado; em vez disso, seus olhos azuis queimavam com uma mistura de alívio, culpa e uma possessividade selvagem que causou náuseas em Eliz.

— Você achou que poderia desaparecer da minha vida para sempre, Eliz? — a voz dele saiu rouca, preenchendo o espaço confinado da cela. Ele deu um passo na direção dela, com os nós dos dedos tensos. — O Norte está ruindo. Eu preciso de você. Preciso da minha Luna de volta.

Eliz levantou-se devagar da esteira de palha, ignorando a tontura que ainda persistia em seu corpo. Limpou a poeira de suas calças de couro, ergueu o queixo e o encarou de frente. Olhar para Sloan depois de tantos meses fez o peito da jovem queimar com uma mágoa que ela julgava ter enterrado na neve.

Não era uma mágoa fraca, daquelas que imploram por colo; era um rancor gélido, afiado, que havia se solidificado no peito de Eliz a cada noite que passou chorando sozinha no exílio, a cada cicatriz que ganhou nas ruas de Kaled enquanto ele cobria Amanda de ouro e luxúria. A jovem se lembrou do som dos gemidos deles no quarto real. Lembrou-se do peso do comando de Alfa de Sloan esmagando a sua alma diante de centenas de pessoas que riram de sua desgraça. Lembrou-se do cheiro de fumaça e do metal das adagas dos assassinos que a amante dele mandou para queimá-la viva enquanto ela ainda sangrava pela rejeição. Sloan não tinha o direito de ir até lá e exigir a presença de dela apenas porque a sua coroa estava pesando demais.

Eliz deu um sorriso calmo, gélido e cortante.

— Você pode me trazer de volta arrastada, Alfa. Pode usar seus guardas, suas masmorras e suas correntes — respondeu ela, e sua voz saiu firme, sem um único traço de hesitação, ecoando pelas paredes de pedra. — Mas você jamais poderá me obrigar a confiar em você novamente ou a amar você. O laço que você quebrou por capricho não pode ser emendado com ordens de Alfa.

Sloan parou no lugar, com o choque visível em suas feições ao perceber que a garota assustada e submissa do passado desaparecera por completo. Ele estendeu a mão, tentando tocar a lateral do rosto de Eliz, mas a jovem deu um passo para trás com nojo claro em suas feições, fazendo-o recuar.

— Eu cometi um erro, Eliz... Eu fui cego pelo passado, pela raiva que eu sentia pela morte do meu pai — confessou Sloan, dando mais um passo na direção dela, com a voz embargada pela urgência de um Alfa que percebe que está prestes a perder o controle do próprio destino. — Eu mudei. Eu vou reconquistar o meu lugar no seu coração. Nem que eu tenha que queimar este reino inteiro para provar o meu arrependimento.

— Você quer falar de erros, Sloan? — Eliz deu um passo à frente, deixando que a aura gélida que herdeu do exílio batesse contra a dele. — Você não me rejeitou em um quarto fechado. Você me jogou aos lobos, permitiu que a sua corte me cuspisse e depois virou as costas enquanto a sua amante tentava atear fogo ao meu corpo. Minha mágoa por você não cabe nas suas desculpas baratas. Você quer uma Luna para salvar o seu trono? Pois fique sabendo: se eu sentar naquele trono, não será para governar com você. Será para governar apesar de você.

Sloan recuou um milímetro, engolindo em seco. O silêncio pesado que se instalou na masmorra deixou claro que a caçada dele havia terminado, mas a guerra de Eliz estava apenas começando.

 

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App