Seis

A boate nunca esteve tão silenciosa.

Não porque a música tivesse parado — ela pulsava como sempre —, mas porque o ar estava diferente. Tenso. Os garçons se moviam com cuidado exagerado, os seguranças evitavam olhar para o camarote central, e o dono da casa suava como se estivesse prestes a desmaiar.

Daniel Moretti não negociava.

Ele determinava.

O envelope grosso repousava aberto sobre a mesa do escritório. Dentro, dinheiro suficiente para quitar dívidas, comprar outra boate, desaparecer por alguns anos se quisesse.

— Feche — Daniel disse, a voz calma demais. — Hoje. Agora.

— Mas… os clientes… — o homem tentou.

Daniel ergueu os olhos lentamente.

— Todos vão embora — completou. — A casa é minha esta noite.

Não houve discussão. Em menos de quinze minutos, o local foi esvaziado com desculpas mal elaboradas: problemas elétricos, inspeção surpresa, emergência técnica. As luzes diminuíram. As portas se fecharam.

Restaram apenas Daniel, seus homens espalhados como sombras, e uma dançarina que não fazia ideia do que estava prestes a acontecer.

Lara.

Quando foi chamada ao camarim, sentiu o estômago afundar. Algo estava errado. Muito errado. O gerente evitava seus olhos.

— Você dança hoje só pra um cliente — disse, engolindo em seco.

— O quê? — ela franziu a testa. — Isso não existe.

— Existe hoje.

Ela soube antes mesmo de entrar no palco.

O camarote estava iluminado apenas o suficiente para revelar Daniel sentado, relaxado, como um rei entediado esperando entretenimento. A boate inteira parecia menor sob sua presença.

— Você fez isso? — ela perguntou, a voz cortante, antes mesmo que a música começasse.

Daniel não respondeu. Apenas fez um gesto com a mão.

A música começou.

Lara quis sair. Quis gritar. Mas o contrato, o medo, a pressão… tudo a manteve ali. E quando seu corpo começou a se mover, não foi para ele. Foi contra ele. Cada passo carregava raiva. Cada giro, desafio.

Daniel observava como um predador faminto.

Ela nunca dançou assim. Não para seduzir. Mas para ferir.

E conseguiu.

O olhar dele escureceu. O maxilar ficou tenso. Ele não desviou os olhos nem por um segundo. Aquilo não era desejo comum — era obsessão se aprofundando, cravando raízes.

Quando a música terminou, o silêncio caiu pesado.

Lara saiu do palco sem olhá-lo.

Não esperou ordens. Não esperou pagamento. Pegou suas coisas e foi embora, o coração martelando de fúria.

Mas Daniel já estava de pé.

Ele a seguiu.

Não de longe. Não em segredo.

Ela sentiu seus passos atrás dos dela, firmes, inevitáveis. Parou no meio da calçada e se virou, os olhos ardendo.

— Você enlouqueceu?! — ela explodiu. — Isso foi humilhante!

— Foi necessário — ele respondeu.

— Você não pode comprar pessoas!

— Posso comprar lugares — corrigiu. — E vou fechar a boate todas as noites. Para que ninguém além de mim veja você dançar.

O mundo de Lara pareceu girar.

— Você é doente — ela disse, a voz falhando. — Isso não é proteção. É prisão.

Daniel se aproximou mais um passo.

— É posse.

Antes que ela pensasse, antes que o medo a travasse, sua mão subiu.

Estalo.

O tapa ecoou pela rua vazia.

O silêncio que se seguiu foi pior do que um tiro.

Daniel levou a mão ao rosto lentamente. Seus olhos não expressavam dor. Apenas algo muito mais perigoso: fúria contida.

— Nunca mais — ele disse baixo. — Nunca mais encoste em mim assim.

Ele a puxou pelo braço com força suficiente para colá-la ao seu corpo. Lara tentou se soltar, o coração disparado, mas ele era muralha, sombra, domínio absoluto.

E então, sem aviso, ele a beijou.

Não foi gentil.

Foi intenso. Quente. Carregado de tudo o que eles vinham evitando.

O mundo desapareceu.

Lara sentiu o gosto de perigo, de poder, de algo que deveria odiar. Mordeu o lábio dele com força, numa mistura de raiva e rendição. Daniel gemeu baixo, segurando-a ainda mais.

E então ela o empurrou.

— Não — sussurrou, os olhos confusos demais. — Some da minha vida.

Ela entrou no prédio, subiu as escadas correndo, trancou a porta do apartamento com as mãos tremendo.

Daniel ficou do lado de fora.

Não tentou entrar.

Porque aquele beijo já havia ultrapassado todas as linhas.

A noite se arrastou para Lara.

Ela tomou banho, mas o cheiro dele parecia grudado na pele. Deitou, levantou, andou de um lado para o outro. Raiva e desejo se misturavam como veneno.

Ela odiava o medo que sentia.

Odiava mais ainda o calor que o beijo havia deixado.

Quando finalmente adormeceu, não teve escolha.

Sonhou.

Daniel estava ali. O mesmo olhar escuro. A mesma boca. O beijo se repetia, mais lento, mais profundo. Sem violência. Sem luta. Apenas entrega.

Ela acordou ofegante, o coração acelerado, levando a mão aos lábios.

E percebeu, com pavor absoluto, a verdade que não queria admitir:

Daniel Moretti não estava apenas na sua vida.

Ele estava dentro dela.

E agora… não havia como escapar ilesa.

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