Mundo de ficçãoIniciar sessãoA boate nunca esteve tão silenciosa.
Não porque a música tivesse parado — ela pulsava como sempre —, mas porque o ar estava diferente. Tenso. Os garçons se moviam com cuidado exagerado, os seguranças evitavam olhar para o camarote central, e o dono da casa suava como se estivesse prestes a desmaiar. Daniel Moretti não negociava. Ele determinava. O envelope grosso repousava aberto sobre a mesa do escritório. Dentro, dinheiro suficiente para quitar dívidas, comprar outra boate, desaparecer por alguns anos se quisesse. — Feche — Daniel disse, a voz calma demais. — Hoje. Agora. — Mas… os clientes… — o homem tentou. Daniel ergueu os olhos lentamente. — Todos vão embora — completou. — A casa é minha esta noite. Não houve discussão. Em menos de quinze minutos, o local foi esvaziado com desculpas mal elaboradas: problemas elétricos, inspeção surpresa, emergência técnica. As luzes diminuíram. As portas se fecharam. Restaram apenas Daniel, seus homens espalhados como sombras, e uma dançarina que não fazia ideia do que estava prestes a acontecer. Lara. Quando foi chamada ao camarim, sentiu o estômago afundar. Algo estava errado. Muito errado. O gerente evitava seus olhos. — Você dança hoje só pra um cliente — disse, engolindo em seco. — O quê? — ela franziu a testa. — Isso não existe. — Existe hoje. Ela soube antes mesmo de entrar no palco. O camarote estava iluminado apenas o suficiente para revelar Daniel sentado, relaxado, como um rei entediado esperando entretenimento. A boate inteira parecia menor sob sua presença. — Você fez isso? — ela perguntou, a voz cortante, antes mesmo que a música começasse. Daniel não respondeu. Apenas fez um gesto com a mão. A música começou. Lara quis sair. Quis gritar. Mas o contrato, o medo, a pressão… tudo a manteve ali. E quando seu corpo começou a se mover, não foi para ele. Foi contra ele. Cada passo carregava raiva. Cada giro, desafio. Daniel observava como um predador faminto. Ela nunca dançou assim. Não para seduzir. Mas para ferir. E conseguiu. O olhar dele escureceu. O maxilar ficou tenso. Ele não desviou os olhos nem por um segundo. Aquilo não era desejo comum — era obsessão se aprofundando, cravando raízes. Quando a música terminou, o silêncio caiu pesado. Lara saiu do palco sem olhá-lo. Não esperou ordens. Não esperou pagamento. Pegou suas coisas e foi embora, o coração martelando de fúria. Mas Daniel já estava de pé. Ele a seguiu. Não de longe. Não em segredo. Ela sentiu seus passos atrás dos dela, firmes, inevitáveis. Parou no meio da calçada e se virou, os olhos ardendo. — Você enlouqueceu?! — ela explodiu. — Isso foi humilhante! — Foi necessário — ele respondeu. — Você não pode comprar pessoas! — Posso comprar lugares — corrigiu. — E vou fechar a boate todas as noites. Para que ninguém além de mim veja você dançar. O mundo de Lara pareceu girar. — Você é doente — ela disse, a voz falhando. — Isso não é proteção. É prisão. Daniel se aproximou mais um passo. — É posse. Antes que ela pensasse, antes que o medo a travasse, sua mão subiu. Estalo. O tapa ecoou pela rua vazia. O silêncio que se seguiu foi pior do que um tiro. Daniel levou a mão ao rosto lentamente. Seus olhos não expressavam dor. Apenas algo muito mais perigoso: fúria contida. — Nunca mais — ele disse baixo. — Nunca mais encoste em mim assim. Ele a puxou pelo braço com força suficiente para colá-la ao seu corpo. Lara tentou se soltar, o coração disparado, mas ele era muralha, sombra, domínio absoluto. E então, sem aviso, ele a beijou. Não foi gentil. Foi intenso. Quente. Carregado de tudo o que eles vinham evitando. O mundo desapareceu. Lara sentiu o gosto de perigo, de poder, de algo que deveria odiar. Mordeu o lábio dele com força, numa mistura de raiva e rendição. Daniel gemeu baixo, segurando-a ainda mais. E então ela o empurrou. — Não — sussurrou, os olhos confusos demais. — Some da minha vida. Ela entrou no prédio, subiu as escadas correndo, trancou a porta do apartamento com as mãos tremendo. Daniel ficou do lado de fora. Não tentou entrar. Porque aquele beijo já havia ultrapassado todas as linhas. A noite se arrastou para Lara. Ela tomou banho, mas o cheiro dele parecia grudado na pele. Deitou, levantou, andou de um lado para o outro. Raiva e desejo se misturavam como veneno. Ela odiava o medo que sentia. Odiava mais ainda o calor que o beijo havia deixado. Quando finalmente adormeceu, não teve escolha. Sonhou. Daniel estava ali. O mesmo olhar escuro. A mesma boca. O beijo se repetia, mais lento, mais profundo. Sem violência. Sem luta. Apenas entrega. Ela acordou ofegante, o coração acelerado, levando a mão aos lábios. E percebeu, com pavor absoluto, a verdade que não queria admitir: Daniel Moretti não estava apenas na sua vida. Ele estava dentro dela. E agora… não havia como escapar ilesa.






