Mundo de ficçãoIniciar sessãoDaniel
O sangue ainda escorria quando Lara o puxou para dentro de casa. Ela não sabia quem ele era. Não sabia do nome, do passado, nem do preço que aquela ajuda custaria. Só viu um homem ferido, pálido, com os olhos escuros queimando de dor e urgência, e fez o que sempre fez desde que a vida a endurecera cedo demais: ajudou. Daniel mal se lembrava de como chegou ali. Apenas flashes — os capangas traidores, o disparo ardendo no flanco, a corrida cega pelas ruas molhadas, e então aquela mulher. Lara. Voz firme, mãos trêmulas, mas decididas. Ela limpou o ferimento, costurou como pôde, ficou acordada a noite inteira. Ele observava em silêncio, guardando cada detalhe: o jeito como ela mordia o lábio ao se concentrar, o medo disfarçado por coragem, a bondade imprudente. Na manhã seguinte, quando ela finalmente dormiu no sofá, Daniel foi embora. Sem adeus. Sem explicações. Porque homens como ele não deixam rastros… só consequências. Meses depois, o nome Daniel Moretti fazia as famílias da cidade estremecerem. Ele havia aniquilado um por um os responsáveis pela traição. Não houve misericórdia. Não houve negociação. Quando o último caiu, Daniel assumiu o lugar que sempre fora seu por direito: Dom. Chefe absoluto. Temido. Intocável. E ainda assim… assombrado. Porque nenhuma noite passava sem que o rosto de Lara surgisse em sua mente. O cheiro da casa simples. O toque cuidadoso. O fato de ela tê-lo salvado sem pedir nada em troca. Daniel sabia que ela tinha medo dele agora. Seus homens haviam descoberto tudo — onde ela morava, onde trabalhava, quem ela era. Ele nunca se aproximava. Apenas observava. Garantia que nada lhe faltasse. Que ninguém ousasse tocá-la. Até a noite da boate. A música pulsava quando ele entrou. O lugar inteiro pareceu se curvar, mesmo sem saber por quê. Então as luzes mudaram… e ela surgiu no palco. Lara dançava. Não era vulgar. Era intensa. Forte. Triste e bela de um jeito que deixou Daniel completamente fora de si. Cada movimento era uma provocação involuntária, cada olhar perdido no vazio era um golpe direto no peito dele. Ele nunca quis algo tanto. Quando ela desceu do palco, um dos gerentes a chamou. Daniel esperava em um camarote escuro. — Dinheiro não é problema — ele disse, a voz baixa, perigosa. — Uma noite comigo. O que você quiser. Lara congelou. Ela o reconheceu na mesma hora. Os olhos. O peso da presença. O medo que percorreu sua espinha confirmou tudo o que ela já suspeitava. — Não — respondeu, firme, mesmo com o coração disparado. — Eu não sou esse tipo de mulher. E não quero nada que venha de você. Ela virou as costas antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa. Daniel não se moveu. Não ficou irritado. Não gritou. Apenas sorriu — um sorriso lento, quase doloroso. Porque, naquele instante, ele entendeu duas coisas: Lara nunca seria comprada. E ele jamais conseguiria deixá-la ir. Depois daquela noite na boate, Daniel deixou de dormir. Não por culpa. Isso ele não sentia há anos. Era fome. Lara havia dito “não” sem hesitar. Não tremera. Não negociara. Aquilo o atingiu mais forte do que qualquer bala. Todos à sua volta o temiam. Mulheres se jogavam aos seus pés. Homens imploravam por sua aprovação. Mas ela? Ela o enfrentou sem sequer tentar agradá-lo. E isso a tornou perigosa. Daniel não voltou à boate, mas a boate nunca mais foi a mesma. O gerente recebeu um aviso claro: qualquer homem que tocasse Lara sem consentimento perderia os dedos. Um segurança novo passou a ficar sempre perto dela. Um cliente inconveniente desapareceu depois de segui-la até o beco. Lara sentia. O ar ao redor dela estava mais pesado. Mais atento. Como se algo a observasse o tempo todo. E observava. Daniel acompanhava cada detalhe de sua vida através de relatórios frios: horários, rotinas, expressões, medos. — Ela sorriu hoje — disse um de seus homens certa vez. Daniel esmagou o copo de vidro na mão. Ele não gostava da ideia de alguém fazê-la sorrir. Enquanto isso, no submundo, o reinado de Daniel se consolidava com sangue. Famílias inteiras foram extintas por suspeita de deslealdade. Um antigo aliado tentou negociar — foi encontrado pendurado na própria mansão, com a língua cortada. Daniel não gritava. Não precisava. Seu silêncio era pior. — O medo mantém a ordem — dizia ele. — Mas a obsessão mantém o controle. E Lara… era a única coisa fora de seu controle. Isso o enfurecia. Uma noite, ela sentiu. Ao sair do trabalho, o carro preto estava ali. Não bloqueava o caminho. Não se aproximava. Apenas esperava. O vidro abaixou lentamente. Daniel. — Você está me seguindo — ela acusou, a voz firme demais para alguém apavorada. — Estou te protegendo — ele respondeu, sem mentir… do jeito dele. — Eu não pedi isso. — Pediu quando me salvou. O silêncio entre eles era denso, quase sufocante. — Você destrói tudo o que toca — ela disse. — Eu vi nos seus olhos naquela noite. Você é morte. Daniel saiu do carro. A rua pareceu encolher. — E ainda assim você me curou — murmurou. — Tocou em mim quando ninguém mais ousaria. Não finja que não sente o que nos liga. — Não existe “nós”. Ele deu um passo mais perto. Não tocou nela. Nunca forçaria — não assim. — Existe, sim — disse baixo. — E quanto mais você foge, mais fundo eu afundo nisso. Lara percebeu então a verdade mais assustadora de todas: Daniel não a queria como posse. Ele a queria como redenção. E homens como ele não sobrevivem sem destruir aquilo que desejam.






