Mundo de ficçãoIniciar sessãoA noite já estava avançada quando Lara deixou a boate. O brilho do néon ficou para trás assim que ela atravessou a porta, e o ar frio da rua tocou sua pele como um lembrete brusco da realidade. Ela puxou o casaco para mais perto do corpo e começou a caminhar em direção ao ponto de ônibus, os saltos agora guardados na bolsa, substituídos por passos mais silenciosos.
A rua estava quase vazia. No começo, ela não soube dizer exatamente quando a sensação surgiu. Não foi um som específico, nem um movimento claro. Foi algo mais instintivo, um arrepio que percorreu sua nuca, como se alguém a observasse atentamente. Lara diminuiu o passo por reflexo e olhou de relance para o outro lado da rua. Nada. Continuou andando. Alguns metros depois, ouviu o ruído baixo de um motor. Um carro preto avançava devagar, sem pressa, acompanhando o ritmo dela. Não era incomum ver carros àquela hora, mas algo naquele movimento controlado demais fez o estômago de Lara se contrair. Ela acelerou o passo. O carro também. Lara tentou manter a calma, dizendo a si mesma que era paranoia, cansaço acumulado, noites demais dormindo pouco. Mesmo assim, apertou a alça da bolsa com força e virou a esquina mais próxima. O som do motor continuou presente, constante, próximo demais. O coração começou a bater mais rápido. Ela andou ainda mais depressa, quase correndo agora. O salto ecoava na calçada vazia, denunciando sua pressa. Quando finalmente criou coragem, parou de repente e olhou para trás. A rua estava vazia. Nenhum carro. Nenhum som de motor. Apenas postes de luz e o silêncio desconfortável da madrugada. Lara ficou alguns segundos parada, tentando recuperar o fôlego. O coração ainda batia forte, mas não havia nada ali que justificasse o medo. Talvez o carro tivesse dobrado outra esquina. Talvez nunca tivesse sido sobre ela. — Você está cansada — murmurou para si mesma. Mesmo assim, apressou o passo até chegar em casa. Trancou a porta com cuidado, conferiu as janelas e só então se permitiu relaxar um pouco. Ainda assim, demorou a pegar no sono. Deitada na cama, ficou ouvindo os sons do prédio, cada estalo parecendo alto demais. A imagem do carro preto voltava à mente sempre que fechava os olhos. Quando finalmente adormeceu, o sono foi inquieto. Na manhã seguinte, Lara acordou cedo. O sol entrava tímido pela janela, e por alguns segundos ela quase esqueceu a tensão da noite anterior. O dia tinha um peso especial. Era o dia em que iria à faculdade. Ela se arrumou com cuidado, escolhendo roupas simples, limpas, discretas. Não havia luxo, nem marcas. Apenas o necessário. Antes de sair, olhou mais uma vez para os livros sobre a escrivaninha, como se eles fossem testemunhas silenciosas daquele momento. A faculdade de medicina era imponente. O prédio antigo, bem cuidado, parecia carregar décadas de histórias e conquistas. Ao atravessar o portão, Lara sentiu um nó se formar na garganta. Ela tinha sido aceita. Aquilo era real. Enquanto aguardava na secretaria para finalizar a inscrição, observava os outros estudantes. Roupas caras, mochilas novas, conversas cheias de segurança. Alguns riam alto, outros falavam sobre viagens e cursinhos renomados. Lara manteve-se em silêncio. Perto dela, um grupo de moças cochichava. — Você viu aquela ali? — disse uma delas, sem muito cuidado em baixar a voz. — Veio de onde, será? — Olha a roupa… nem parece que pertence a esse lugar. Lara ouviu tudo. Por um instante, sentiu o rosto esquentar. Não era a primeira vez que era julgada pela aparência, mas ali doía de um jeito diferente. Aquele lugar representava o futuro que ela lutara tanto para alcançar, e ainda assim parecia haver quem quisesse lembrá-la de que não era “suficiente”. Ela respirou fundo. Não respondeu. Não reagiu. Pegou os documentos, finalizou a inscrição com a funcionária e saiu dali com a cabeça erguida. Não permitiria que comentários vazios diminuíssem aquele momento. Do lado de fora, o sol parecia mais forte. Lara caminhou alguns minutos pelo campus, tentando absorver a sensação. Ela estava ali. Apesar de tudo. No caminho de volta para casa, porém, a mesma sensação voltou. Não era medo explícito. Era algo sutil, persistente. Como se olhos invisíveis a acompanhassem. Lara olhou para vitrines, reflexos de carros, janelas. Às vezes achava ver um movimento, uma sombra, mas quando virava o rosto não havia ninguém. Ainda assim, o desconforto não ia embora. Chegou em casa com a impressão de que alguém observava o prédio do outro lado da rua. Subiu as escadas rapidamente e entrou, trancando a porta atrás de si. Encostou as costas na madeira por alguns segundos, tentando controlar a respiração. — É só impressão — repetiu, como um mantra. Mas, enquanto caminhava até a janela e espiava discretamente a rua lá embaixo, Lara não conseguia afastar a sensação de que sua vida, silenciosamente, havia mudado. Algo estava em movimento. Algo que ela não entendia ainda. O estranho do sofá. O carro preto. Os olhares que pareciam segui-la. Ela fechou a cortina devagar. Lara não sabia o que estava por vir, mas uma certeza começava a se formar, pesada e inevitável: ela não estava mais invisível. E, gostasse ou não, alguém havia começado a observá-la. E isso a assustava mais do que qualquer proposta feita sob luzes artificiais.






