Mundo de ficçãoIniciar sessãoLara passou a noite inquieta.
Mesmo cansada, o sono vinha em fragmentos curtos, interrompidos por sonhos confusos e pela sensação constante de que algo a observava do outro lado da porta. Cada ruído do prédio parecia ampliado. Um passo no corredor. Um elevador distante. O vento batendo contra a janela. Tudo fazia seu corpo reagir antes da mente. Quando o dia amanheceu, ela estava exausta. Ainda assim, levantou-se. Não tinha escolha. A faculdade agora fazia parte da sua rotina, e desistir antes mesmo de começar não era uma opção. Vestiu-se com as mesmas roupas simples do dia anterior, prendeu o cabelo e saiu, tentando ignorar o aperto persistente no estômago. O campus estava mais movimentado naquela manhã. Grupos de estudantes caminhavam juntos, riam alto, falavam sobre matérias, festas e professores renomados. Lara atravessava aquele espaço como quem entra em território estrangeiro. Sentia-se deslocada, não por falta de inteligência ou capacidade, mas por algo mais sutil e cruel. Ela sentia os olhares. Alguns eram rápidos, curiosos. Outros demoravam um pouco mais, avaliadores. Lara tentou se convencer de que era paranoia, mas havia algo diferente. Não era apenas julgamento social. Era atenção. Durante a primeira aula, sentou-se nas fileiras do meio. Abriu o caderno com cuidado, como se aquele gesto fosse um compromisso silencioso com o futuro. O professor falava sobre a história da medicina, mas Lara percebeu que tinha dificuldade em se concentrar. Sentia-se observada. Virou o rosto discretamente algumas vezes. Atrás dela, estudantes conversavam baixo. À frente, ninguém parecia prestar atenção nela. Ainda assim, a sensação não desaparecia. Era como se alguém a observasse não apenas naquele momento, mas há mais tempo do que ela conseguia lembrar. No intervalo, foi até o pátio. Sentou-se sozinha em um banco afastado, tentando respirar. Enquanto mexia no celular antigo, ouviu risadas próximas. — É aquela de novo — disse uma voz feminina. — A que parece que veio direto do ensino público? — Deve ter entrado por cota. Lara fechou os olhos por um segundo. Ela conhecia aquele tipo de desprezo. Não vinha com gritos ou ofensas diretas, mas com sorrisos tortos e cochichos. Ignorou. Levantou-se e saiu sem olhar para trás. Não daria a eles a satisfação de vê-la abalada. Mas, ao atravessar o corredor principal, algo chamou sua atenção. Um homem parado perto da escada. Ele não usava roupas de estudante. Vestia um casaco escuro, simples demais para aquele ambiente. Não parecia perdido. Estava ali como quem espera. Quando Lara passou, sentiu o olhar dele segui-la, firme, atento. Ela acelerou o passo. Ao virar o corredor, olhou para trás. O homem ainda estava lá. Falava ao celular agora, mas seus olhos se ergueram por um breve instante, encontrando os dela. Não houve surpresa. Apenas reconhecimento. O coração de Lara disparou. Ela saiu da faculdade mais cedo naquele dia. Disse a si mesma que precisava descansar, mas no fundo sabia que estava fugindo. No caminho para casa, sentiu novamente a presença invisível. Reflexos em vitrines, passos que pareciam sincronizados com os seus. E então, o carro preto. Estava estacionado do outro lado da rua quando ela chegou em casa. Não ligado. Não se movendo. Apenas ali. Lara parou por alguns segundos, fingindo procurar algo na bolsa, observando de canto de olho. Os vidros eram escuros demais. Quando deu um passo para frente, o carro ligou o motor. Não arrancou. Apenas ficou ali, como se confirmasse algo. Ela entrou no prédio rapidamente, o coração batendo forte. Subiu as escadas quase correndo. Trancou a porta e encostou-se nela, sentindo as pernas fracas. Aquilo não era mais impressão. Mais tarde, sentada no sofá, Lara tentou racionalizar. Talvez fosse alguém da boate. Algum homem rejeitado. Algum cliente insistente. Mas algo não se encaixava. Aquela atenção era silenciosa demais. Controlada demais. Não havia ameaça direta. Ainda. Naquela noite, enquanto organizava seus livros, encontrou algo estranho. Um envelope deslizou de dentro de um deles e caiu no chão. Lara franziu a testa. Não se lembrava de ter colocado nada ali. O envelope não tinha remetente. Nem endereço. Apenas o nome dela escrito à mão. LARA. Com dedos trêmulos, abriu. Dentro havia apenas uma folha dobrada. Nenhuma assinatura. Apenas uma frase escrita com letras firmes: “Você ajudou alguém que não deveria ter esquecido.” Lara sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. O estranho do sofá. Tudo começou a se conectar de forma lenta e perturbadora. O carro. O homem na faculdade. A sensação constante de ser observada. Ela não tinha salvado apenas um desconhecido ferido. Tinha cruzado o caminho de algo maior. Algo que agora a observava. Lara fechou o envelope com cuidado, como se ele pudesse morder. Caminhou até a janela e espiou por entre a cortina. O carro preto não estava mais lá. Mas ela sabia. Isso não significava que tivesse ido embora. Significava apenas que estava esperando.






