Acordei com a luz do sol atravessando as cortinas, me obrigando a sair do torpor pesado que tinha me dominado depois da noite anterior. O corpo ainda pedia mais sono, mas a mente já estava desperta, inquieta, me arrastando para fora da cama.
Passei a mão pelos cabelos bagunçados e fui direto para a cozinha. A geladeira abriu-se revelando quase nada de interessante, mas ainda assim saquei uma garrafa de água gelada e um resto de pão que estava esquecido ali. Encostei no balcão enquanto mordia distraidamente, olhando para o celular em cima da mesa. A tela piscava com dezenas de notificações: mensagens de mulheres que eu mal lembrava o nome e uma insistente sequência de recados do Leo. Suspirei, deslizei o dedo pela tela, mas ignorei tudo. Nada daquilo me interessava. Depois de comer qualquer coisa, subi, vesti uma roupa simples e enfiei as chaves do meu BMW no bolso. O metal frio entre os dedos me lembrou imediatamente de Isabella. Ela tinha ficado sem carro. Será que conseguiu resolver aquilo? A preocupação veio quase automática, mas se perdeu rápido na frustração de não ter o número dela. Não tinha como saber, então decidi ir direto para a empresa. O caminho foi rápido, o ronco do motor enchendo o silêncio dos meus pensamentos. Assim que cheguei, estacionei e meus olhos bateram no canto onde tinha deixado Isabella na noite anterior. O carro dela ainda estava lá. Parado, do mesmo jeito, como se fosse parte do cenário. Me aproximei, conferi. Trancado. Sem movimento algum. Aquilo me incomodou. Peguei o celular e liguei para alguns amigos que entendiam de carro. Pedi para darem uma olhada depois, avaliar o problema. Não deixaria Isabella naquela situação. Entrei na empresa e fui direto até onde a tinha deixado. Ela estava sentada no mesmo lugar, os olhos cansados mas ainda firmes. Quando me aproximei, ergueu o rosto e eu perguntei sem rodeios: — E aí, conseguiu resolver alguma coisa? Ela suspirou, quase encolhendo os ombros. — Não… não tenho seguro, estava tentando contato com um mecânico. — Tenho alguns amigos que entendem de carros, se quiser posso ligar pra eles. Me devem alguns favores. — Não precisa se preocupar, eu vou dar um jeito. — ela disse exibindo aquela teimosia que tanto me encantava. — Deixa de ser teimosa, eu só estou tentando ser legal. — Disse passando a mão nos cabelos os puxando para trás. — Não quero abusar, agradeço muito. Mas dessa vez percebi que ela tinha ficado pensativa, era a minha chance. — Eles virão aqui, não vão te cobrar e nem me cobrar e em troca você me ajuda.. eu preciso meio que aprender a trabalhar direito. Podemos fazer esse acordo? — Disse abrindo um sorriso pra ela. — Tudo bem, se for assim eu aceito. — Disse abrindo um sorriso para mim. — Bom... A gente se vê então, daqui a pouco. Ela assentiu. Apenas a observei por um instante. Por dentro, já tinha tomado a decisão: eu mesmo resolveria aquilo. Era uma boa forma de agradá-la, e, de certa forma, eu queria aliviar o peso daquela expressão abatida. Segui para o arquivo, mergulhando entre pilhas de documentos, organizando, separando, classificando. O trabalho, embora repetitivo, tinha algo de terapêutico, me mantinha focado, me distraía do turbilhão que sempre rodava na minha cabeça. Passei a manhã assim, indo de sala em sala, entregando papéis, recolhendo outros. Em certo momento, bati na porta da sala do meu pai, ele era o próximo da lista de entrega de documento. Entrei, estendi os documentos e, pela primeira vez em muito tempo, ele me olhou de uma forma diferente. Um sorriso discreto curvou os lábios dele. — Estou feliz em ver que você está levando a sério o trabalho. Por um segundo, fiquei estático, quase sem reação. Aquilo não era comum vindo dele. Apenas assenti, sem soltar palavra. Mas, por dentro, uma estranha satisfação queimava no peito. Saí da sala do meu pai e percebi que estava sorrindo. Sorrindo. Eu. Estranhei na hora. Fazia tempo que não me via desse jeito, ainda mais depois de uma conversa com ele. Balancei a cabeça, meio sem acreditar, quando o celular vibrou no bolso. Eram os caras. Tinham acabado de chegar pra buscar o carro. Suspirei fundo, desliguei a tela e fui em direção à Isabela. Ela estava na mesa, concentrada em alguns papéis, mas assim que me aproximei, levantou o olhar. — Eles chegaram? — perguntou, meio já prevendo a resposta. Assenti. — Sim. Vou descer com você. Ela respirou fundo, pegou a chave, mas percebi a relutância nos movimentos. Parecia estar entregando um pedaço dela mesma junto com aquele carro. Quando estendeu a chave pra mim, os dedos demoraram um segundo a mais do que o normal para soltar. — Confia em mim — falei baixo, olhando firme nos olhos dela. — Eu vou cuidar disso. Ela piscou, como se aquela frase tivesse pegado de surpresa, e por fim assentiu. Descemos juntos até o estacionamento. Os caras já estavam encostados perto da entrada, e quando viram a chave na minha mão, sorriram em cumplicidade. Entreguei o carro, dei as instruções rápidas, e em poucos minutos eles saíram dali. No silêncio que ficou, percebi Isabela ainda olhando na direção em que o carro havia ido, como se esperasse que voltasse. — Ei — chamei sua atenção, com um sorriso de canto. — Já que você ficou sem carro… aceita almoçar comigo hoje? Ela me olhou de imediato, arqueando a sobrancelha. — Eu trouxe comida. — Ah, não! — falei, teatralmente colocando a mão no peito. — Não faz isso comigo. Trouxe comida? Eu vou morrer de fome, Isabela. Você quer carregar esse peso na consciência? Ela riu, balançando a cabeça, mas ainda parecia hesitante. — Sério, eu insisto — continuei, aproveitando a brecha. — Vai ser rápido, só pra gente não passar fome juntos. — Você não vai desistir, né? — perguntou, semicerrando os olhos. — Nunca — respondi, exagerando na seriedade, o que arrancou mais uma risada dela. Por fim, ela suspirou, rendida. — Tá bom. Eu aceito. — Isso! — comemorei em voz baixa, quase como se tivesse ganhado alguma competição. Subimos juntos novamente, o clima entre nós mais leve do que antes. Assim que entramos, me virei para ela. — Obrigado por aceitar. — sorri. — Agora, vou voltar pro arquivo, antes que alguém perceba minha ausência e venha me caçar. Ela riu, e eu me afastei devagar, ainda sentindo a leveza daquele momento.