O estacionamento estava quase deserto, iluminado apenas pelos postes de luz que projetavam sombras compridas sobre o asfalto. O som dos meus passos ecoava no concreto enquanto eu caminhava até meu carro. Foi então que notei uma figura parada algumas vagas à frente, inclinada sobre o capô aberto de um sedan prateado.
Isabella. Ela estava ali, com os cabelos caindo pelos ombros e o rosto levemente iluminado pela luz mortiça do poste, mexendo em alguma coisa no motor como se pudesse resolver. Parecia frustrada, mas mantinha a mesma postura impecável de sempre. Dei um assobio baixo e encostei no meu carro, só para chamar a atenção. — Olha só… até você tem dias ruins, Isabella? Ela ergueu o rosto devagar, surpresa por me ver ali. — Não é da sua conta, Dante. — disse, firme, enxugando a mão na lateral da saia. Ignorei a rispidez. Dei partida no meu carro, o motor rugiu alto, mas em vez de sair dali, desliguei e saí do veículo. Caminhei até ela, devagar, com aquele sorriso torto que eu sabia que a irritava. — Deixa eu adivinhar… — falei, apoiando as mãos no capô ao lado dela, inclinando-me para olhar o motor. — Tentou ligar e nada? Ela cruzou os braços, defensiva. — Eu dou um jeito. — Você? — ri baixo, balançando a cabeça. — Isabella, nem eu consigo dar um jeito nisso aqui. — mexi em alguns cabos, fingindo avaliar com seriedade. — Esse carro só sai daqui de duas formas: ou de reboque… ou comigo. Ela estreitou os olhos. — Não preciso de você. — Ah, claro que precisa. — endireitei o corpo, limpando as mãos na calça. — Esse carro não vai a lugar nenhum hoje. Eu te deixo em casa. Simples. — Não. — respondeu sem pensar, rápida. — Eu espero o guincho. Inclinei a cabeça, encarando-a nos olhos. — Às onze da noite? Nesse estacionamento vazio? — deixei a provocação sair baixa, quase um sussurro. — Você quer mesmo ficar aqui sozinha até sabe-se lá quando? Ela mordeu o lábio inferior, claramente hesitante, mas ainda assim firme. — Eu me viro. Cruzei os braços, arqueando a sobrancelha, como se fosse apenas uma questão de tempo. — Vai ficar aqui, sozinha, rezando pra alguém aparecer com um reboque a essa hora? Ou vai aceitar minha oferta generosa e confortável? — bati na lateral do meu carro, apontando para o banco do passageiro. — Dante, eu já disse que não… — começou, mas parou quando percebeu a teimosia no meu sorriso. — Isabella… — interrompi, mais sério dessa vez. — Eu não vou te deixar aqui sozinha. Então, ou você entra no meu carro por vontade própria… ou eu vou ter que ficar plantado aqui, do seu lado, a noite toda. Ela bufou, fechando os olhos por um segundo, como se calculasse todas as opções. A tensão pairava no ar, o silêncio do estacionamento só tornava o momento mais intenso. Finalmente, suspirou fundo. — Só hoje. — disse, firme, tentando soar no controle. — Mas se você fizer alguma besteira, eu juro que desço no meio da rua. Sorri, satisfeito, e abri a porta do passageiro com um gesto quase cavalheiresco. — Relaxa, Isabella. — falei, divertido. — Hoje eu sou só o seu motorista particular. Ela entrou no carro com relutância, ajeitando-se no banco como quem ainda resistia, e eu dei a volta, assumindo o volante. O motor do meu carro rugiu alto, enchendo o silêncio. Lançei um olhar rápido para ela, e não consegui evitar o sorriso. — Viu só? — murmurei, arrancando do estacionamento. — A gente sempre chega a um acordo no fim. Ela revirou os olhos, encarando a janela. Mas eu percebi: o rubor leve nas bochechas entregava que, no fundo, aquele jogo estava apenas começando. O silêncio no carro era quebrado apenas pelo ronco grave do motor e pelo som distante da cidade que se apagava atrás de nós. Isabella mantinha os olhos fixos na janela, braços cruzados, como se cada músculo estivesse em alerta para não me dar nenhuma brecha. — Sabe… — comecei, jogando o corpo um pouco mais relaxado no banco — você fica bonita quando está contrariada. Ela virou o rosto na minha direção, rápido, o olhar afiado como lâmina. — Você não cansa de falar besteira? — Não. — respondi de imediato, sorrindo. — Principalmente quando você finge que não gosta de ouvir. Ela bufou, voltando a olhar a rua. — Eu não estou fingindo. — Tá sim. — soltei, divertido. — O rubor nas suas bochechas já me entregou antes. — Está escuro. Você não pode ter visto nada. — Isabella, eu não preciso de luz pra enxergar você. — disse mais baixo, sério o suficiente pra fazê-la apertar os lábios e desviar o olhar rápido demais. Ficamos alguns segundos em silêncio, a tensão quase palpável. Então ela resolveu contra-atacar: — Você fala assim com todas, não é? Esse charme ensaiado, esses comentários… — Com todas? — arqueei a sobrancelha, sem desviar a estrada. — Não. Só com quem vale o esforço. Ela mordeu o lábio, mas logo disfarçou. — Ainda assim, não vai funcionar comigo. — Quem disse que eu quero que funcione? — provoquei, inclinando a cabeça. — Talvez eu só goste de ver você se esforçando tanto pra resistir. Ela não respondeu. O silêncio dela era quase mais divertido que qualquer provocação. Aos poucos, as ruas foram ficando mais estreitas, menos iluminadas. As fachadas simples das casas e os pequenos portões enferrujados denunciavam que estávamos em outro bairro, bem longe da zona luxuosa onde eu costumava circular. — Pode parar aqui. — ela disse, apontando para uma rua calma, com casas geminadas, todas parecidas entre si. Estacionei em frente a uma casinha de muro baixo, pintura gasta e um jardim simples, mas bem cuidado. Diferente de tudo que me cercava no dia a dia, e ainda assim… tinha um ar aconchegante. Isabella ajeitou a bolsa no colo antes de sair, mantendo a compostura como se nada pudesse abalar aquele muro invisível que erguia ao redor de si. — Obrigada pela carona. — Só isso? — perguntei, inclinando-me no banco, tentando captar cada detalhe dela. — Uma noite inteira de resistência, e no final só ganho um “obrigada”? Ela abriu a porta e parou por um instante, antes de sair. — Não se acostume, Dante. — disse, séria, mas os olhos denunciaram um lampejo rápido, quase imperceptível, de algo além da frieza. — Tarde demais. — murmurei, sorrindo torto. Ela saiu do carro e atravessou o portão, os passos firmes ecoando no chão de cimento. Eu fiquei ali, observando até a porta se fechar atrás dela. Encostei a cabeça no banco, ainda com o sorriso preso no rosto. A casa simples, o jeito dela, a resistência… tudo era o oposto do meu mundo. Mas talvez fosse exatamente isso que me fazia querer voltar no dia seguinte.