Mundo ficciónIniciar sesiónO escritório presidencial estava silencioso.
Nicolas permanecia diante da enorme janela de vidro, observando a cidade abaixo. Sobre sua mesa, uma pilha de contratos aguardava sua assinatura. Nenhum deles recebia sua atenção. A porta abriu sem cerimônia. — Você mandou me chamar? Lorenzo entrou na sala segurando uma xícara de café. Nicolas não desviou os olhos da janela. — Sente-se. Lorenzo arqueou uma sobrancelha. — Isso não parece um convite. Parece uma ordem. Nicolas finalmente virou-se. Seu semblante estava sério. Muito sério. — Preciso de uma informação. Lorenzo apoiou a xícara sobre a mesa. — Pode falar. Nicolas cruzou os braços. — Um médico do seu hospital. Ricardo Monteiro. O sorriso de Lorenzo desapareceu. — O que tem ele? — Está incomodando a Maya. Há meses. Convites. Insistência. Segundo o irmão dela, ele simplesmente não aceita um "não". Lorenzo permaneceu alguns segundos em silêncio. Depois pegou o celular. — Vou descobrir quem é esse sujeito. ... Menos de vinte minutos depois... Lorenzo voltou à sala. Seu rosto havia endurecido. Jogou uma pasta sobre a mesa de Nicolas. — Você estava certo em desconfiar dele. Nicolas abriu a pasta. Enquanto lia... Sua expressão tornava-se cada vez mais fria. Diversas reclamações internas. Denúncias de assédio contra enfermeiras. Relatos de cobranças indevidas a famílias de pacientes. Abuso de autoridade. Advertências arquivadas. Tudo escondido por influência de antigos diretores. Lorenzo fechou a pasta. — Esse homem nunca deveria ter continuado trabalhando no meu hospital. Pegou novamente o telefone. Dessa vez ligou diretamente para a diretora do Hospital Santa Helena. A ligação foi atendida rapidamente. — Bom dia, senhor Martinelli. — Quero que escute com atenção. A voz de Lorenzo tornou-se completamente profissional. — O doutor Ricardo Monteiro não estará mais naquele hospital até o nascer do sol de amanhã. A diretora permaneceu em silêncio. — Senhor... — Não estou pedindo. Estou determinando. Ele será afastado imediatamente. Quero uma investigação completa. Se for necessário transferi-lo, coloque-o na unidade mais distante que tivermos. Onde o ego dele não seja maior do que a instituição. Entendido? — Sim, senhor Martinelli. Providenciarei isso agora mesmo. Lorenzo encerrou a ligação. Olhou para Nicolas. — Resolvido. Nicolas apenas assentiu. Mas, dentro dele... A sensação era estranha. Não sentia satisfação. Sentia apenas alívio. ... Naquela mesma tarde... Ricardo foi chamado à diretoria. Assim que entrou na sala, percebeu que algo estava errado. A diretora sequer pediu que ele se sentasse. — Doutor Ricardo. A partir deste momento o senhor está afastado das suas funções. Ele riu, incrédulo. — Isso é uma piada? — Não. Será transferido imediatamente. Até segunda ordem. Ricardo fechou o semblante. — Quem fez isso? A diretora manteve a postura. — Não tenho autorização para responder. Mas aconselho que não tente descobrir. O senhor irritou alguém muito poderoso. Ricardo saiu da sala tomado pela raiva. Durante todo o caminho até o estacionamento, tentava entender. Quem? Qual paciente? Qual família? Então... Um único rosto surgiu em sua mente. Maya. A única mulher que nunca aceitou nenhum de seus convites. A única que sempre o rejeitou com educação. — Foi você... Murmurou entre os dentes. ... Domingo. Ainda antes do amanhecer. Um carro permanecia estacionado do outro lado da rua onde Maya morava. Lá dentro... Ricardo observava silenciosamente a entrada do prédio. Passara horas ali. Esperando. Pensando. Quanto mais lembrava do afastamento... Mais convencia a si mesmo de que Maya era a culpada. Na sua mente distorcida... Ela havia destruído sua carreira. E faria com que pagasse por isso. ... Na manhã de segunda-feira... Maya saiu de casa carregando a bolsa. Assim que caminhou alguns metros... Ouviu uma voz conhecida. — Senhorita Maya. Ela virou-se. Ricardo aproximava-se usando roupas comuns. Sem o jaleco. Com um sorriso aparentemente tranquilo. Ela demonstrou surpresa. — Doutor Ricardo? O que faz aqui? Ele respirou fundo. — Vim me despedir. Fui transferido. Recebi a notícia no sábado. Maya sorriu com sinceridade. — Sinto muito. Ele abaixou a cabeça. — Antes de ir embora... Gostaria apenas de tomar um último café com você. Sem insistir. Sem convites. Quero apenas pedir desculpas por ter sido inconveniente. Ela hesitou. Ricardo parecia diferente. Mais calmo. Mais resignado. Depois de alguns segundos... Assentiu. — Tudo bem. Mas só um café. — Prometo. Ele abriu a porta do carro para ela. Ricardo ligou o carro lentamente. Por alguns instantes, nenhum dos dois disse uma palavra. O rádio tocava baixo. Maya observava a cidade pela janela. Ela ainda acreditava que aquele seria apenas um café de despedida. Ricardo foi o primeiro a quebrar o silêncio. — Faz tempo que não a vejo no Café Firenze. Ela sorriu discretamente. — O café fechou. Ele fingiu surpresa. — Fechou? — Dona Célia resolveu se aposentar. Ricardo assentiu lentamente. — E a lanchonete? Ainda trabalha lá à noite? — Não. Também saí. — Então encontrou outro emprego? — Encontrei. Ela sorriu com um orgulho discreto. — Agora trabalho na Beaumont Holding. As mãos de Ricardo apertaram o volante por uma fração de segundo. — Beaumont Holding... Sua voz saiu quase como um sussurro. Maya continuou, sem perceber a mudança em seu tom. — Sim. Comecei como recepcionista, mas fui promovida. Hoje sou assistente pessoal do senhor Nicolas Beaumont. O silêncio tomou conta do carro. Ricardo sentiu o sangue ferver. Então era isso. Não havia sido uma coincidência. Não havia sido a diretoria. Nem um paciente influente. Era Nicolas Beaumont. O homem mais poderoso do país. Foi ele. Foi por causa dela. Respirou fundo. Forçou um sorriso para que Maya não percebesse absolutamente nada. — Vejo que sua carreira mudou bastante. Ela sorriu, completamente inocente. — Mudou. Foi uma oportunidade que eu nunca imaginei ter. Ricardo apertou ainda mais o volante. Por dentro, uma única certeza crescia. "Então foi você..." Durante meses, ela recusara todos os seus convites. Agora trabalhava diretamente para Nicolas Beaumont. Na mente distorcida de Ricardo... Aquilo não era uma coincidência. Era a prova de que ela havia colocado o homem mais poderoso do país contra ele. Seu orgulho não aceitava aquela ideia. E, naquele instante... A obsessão transformou-se em algo muito mais perigoso. Mesmo assim... Ele continuou sorrindo. Como se nada tivesse mudado. — Fico feliz por você, Maya. Ela sorriu de volta. — Obrigada. Foi a última resposta que deu antes de sentir um leve cansaço tomar conta do corpo. Piscou algumas vezes. Levou a mão à testa. — Eu... estou me sentindo um pouco estranha... Ricardo olhou rapidamente pelo retrovisor. O sorriso desapareceu. — Eu sei. Seu corpo perdeu as forças. A última coisa que viu... Foi Ricardo olhando para ela, com um grande litro de água na mão. Com um sorriso que jamais havia mostrado antes. Então... Tudo ficou escuro.






