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Capítulo 24 — Perto Demais

A rotina voltou ao normal.

Ou, pelo menos…

Era o que todos acreditavam.

Quatro dias após retornar ao trabalho, Maya já parecia ter retomado completamente seu lugar na presidência.

Organizava a agenda de Nicolas.

Respondia ligações.

Recebia visitantes.

Resolvia pequenos imprevistos antes mesmo que chegassem até ele.

E, como sempre…

Sorria.

Para todos.

Na Beaumont Holding, sua presença parecia tornar o ambiente mais leve.

Era algo que ninguém conseguia explicar.

Mas todos percebiam.

Dentro da sala presidencial…

Nicolas analisava um contrato milionário.

As páginas estavam abertas diante dele.

Os números exigiam atenção.

Ainda assim…

Sua concentração era constantemente interrompida pela voz que vinha da recepção.

Mesmo com a porta fechada, ele a reconhecia sem dificuldade.

Calma.

Doce.

Paciente.

— Bom dia.

Pode aguardar só mais alguns minutos, por favor?

Alguns segundos depois…

Uma risada suave atravessou a porta.

Nicolas ergueu os olhos do documento.

Sem perceber…

Um discreto sorriso surgiu no canto de seus lábios.

Só notou quando já era tarde.

A expressão desapareceu imediatamente.

Fechou a pasta com mais força do que pretendia.

— Ridículo…

Murmurou para si mesmo.

Aquilo precisava acabar.

Precisava.

Alguns minutos depois, uma batida discreta interrompeu o silêncio.

— Entre.

Patrícia entrou segurando uma pasta.

— Senhor Beaumont, o fornecedor da Itália chegou mais cedo.

Nicolas levantou os olhos.

— Pode encaminhá-lo.

Ela fez um leve aceno, mas parou antes de sair.

— Posso dizer uma coisa?

Ele apenas a encarou.

— A Maya realmente faz falta quando não está.

Nicolas arqueou levemente uma sobrancelha.

— Faz?

Patrícia sorriu.

— A recepção ficou completamente diferente durante aqueles dias.

Muito mais silenciosa.

Ela tem um jeito de fazer todo mundo se sentir bem-vindo.

Nicolas permaneceu em silêncio.

Limitou-se a fazer um breve movimento de cabeça.

Como se aquela informação não tivesse importância.

Mas, assim que Patrícia saiu…

Percebeu que pensava exatamente a mesma coisa.

Na hora do almoço…

O movimento diminuíra bastante.

Maya aproveitou para organizar alguns documentos que haviam ficado acumulados.

Nem percebeu quando André se aproximou-se de sua mesa.

Trazia dois copos de café.

— Você ainda não almoçou?

Ela levantou os olhos e sorriu.

— Ainda não.

— Então aceita um café?

Maya olhou para os papéis espalhados sobre a mesa.

— Obrigada.

Mas acho melhor não.

Ainda preciso terminar isso aqui.

André riu.

— Então eu espero.

Ela balançou a cabeça, divertida.

— Não precisa.

Sério.

Os dois continuaram conversando por alguns minutos.

Nada além de uma conversa amigável.

Naquele mesmo instante…

As portas do elevador privativo se abriram.

Nicolas acabara de sair de uma reunião.

Enquanto caminhava pelo corredor…

Seu olhar encontrou, sem querer, a recepção.

E parou.

André sorria.

Maya ria de alguma coisa que ele acabara de dizer.

O café permanecia entre os dois.

Os passos de Nicolas diminuíram quase imperceptivelmente.

Sentiu algo apertar seu peito.

Uma sensação desagradável.

Incômoda.

Conhecida.

Ciúmes.

A palavra surgiu em sua mente antes que pudesse impedi-la.

Franziu discretamente a testa.

Não.

Aquilo era absurdo.

Continuou andando.

Mas seus olhos demoraram mais do que deveriam para se afastar daquela cena.

André despediu-se alguns minutos depois.

— Depois a gente conversa.

— Combinado.

Assim que ele entrou no elevador, Maya voltou aos documentos.

Nem percebeu Nicolas aproximando-se.

Levantou-se imediatamente.

— Boa tarde, senhor Beaumont.

Ele respondeu apenas com um leve movimento de cabeça.

Seu olhar caiu sobre o copo de café ainda intacto.

— Não vai beber?

Ela acompanhou seu olhar.

Sorriu.

— O André trouxe.

Mas acabei nem tendo tempo.

Nicolas observou o café por alguns segundos.

Depois falou, num tom completamente neutro.

— Café frio não presta.

Ela soltou uma pequena risada.

— Acho que o senhor tem razão.

Ele virou-se para entrar na sala.

Mas parou com a mão na maçaneta.

Sem olhar para trás, disse:

— Senhorita Fernandes.

— Sim?

— A partir de amanhã…

Almoce no horário certo.

Ela piscou, surpresa.

— Desculpe?

Ele finalmente voltou o rosto em sua direção.

— Não quero minha assistente trabalhando o dia inteiro sem comer.

Por alguns segundos…

Maya apenas o observou.

Depois sorriu com sinceridade.

— Pode deixar.

Obrigada pela preocupação.

Nicolas apenas assentiu.

Entrou na sala.

E fechou a porta.

Assim que ficou sozinho…

Permaneceu imóvel.

As mãos apoiadas sobre a mesa.

Os olhos fechados.

Respirou profundamente.

Ele nunca havia perguntado se algum funcionário havia almoçado.

Nunca se importara com horários de descanso.

Nunca observara quem conversava com quem.

Muito menos sentira aquele desconforto ao ver outro homem arrancar um sorriso de uma mulher.

Mas Maya…

Quebrava todas as regras que ele construíra para si mesmo.

Sem fazer esforço.

Sem perceber.

E era justamente isso que mais o assustava.

Porque Nicolas Beaumont sempre acreditou que controlava tudo à sua volta.

Os negócios.

As pessoas.

A própria vida.

Até descobrir que existia algo impossível de controlar.

O próprio coração.

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