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Capítulo 23 — Recomeços

Maya já estava sentada na cama, terminando de organizar suas poucas coisas.

Recebera alta naquela manhã.

O médico sorriu enquanto assinava os últimos documentos.

— Está liberada.

Mas nada de exageros pelos próximos dias.

— Pode deixar.

— E qualquer sintoma diferente, volte imediatamente.

Ela assentiu.

— Obrigada por tudo, doutor.

Ele sorriu.

— Cuide-se.

Você teve muita sorte.

Maya abaixou discretamente os olhos.

Sorte…

Era uma palavra curiosa.

Porque, até aquele momento…

Ainda não fazia ideia de quem a havia encontrado.

Nem de quem havia chegado a tempo de salvá-la.

A única certeza era que alguém movera o mundo inteiro para encontrá-la.

E isso continuava sendo um mistério.

Gabriel apareceu na porta do quarto.

— Pronta?

Ela sorriu.

— Prontíssima.

Ele pegou sua mochila.

— Vamos para casa.

Os dois saíram do hospital.

Ao atravessar o corredor principal, Maya notou um dos seguranças vestido de preto.

Era o mesmo homem que permanecera em frente ao seu quarto durante toda a internação.

Assim que ela passou, ele fez um discreto movimento com a cabeça.

Como se confirmasse alguma informação pelo rádio.

Ela estranhou.

Mas preferiu não perguntar.

….

No outro dia já em casa..

A luz da manhã atravessava lentamente a janela do quarto.

Maya despertou com o canto dos pássaros.

Pela primeira vez em muitos dias…

Dormira sem pesadelos.

Ainda sentia um leve desconforto na cabeça, mas o médico garantira que era normal.

Virou o rosto para o relógio sobre a cômoda.

Já passava das oito.

Ouviu vozes vindas da cozinha.

Sorriu discretamente.

Gabriel.

Levantou-se devagar e caminhou até a porta.

Assim que apareceu no corredor, encontrou o irmão tentando preparar o café da manhã.

As fatias de pão estavam um pouco queimadas.

O café havia derramado sobre a pia.

Mesmo assim…

Ele sorria.

— Bom dia!

Maya riu baixinho.

— Acho que você ainda precisa praticar um pouco.

Gabriel cruzou os braços, fingindo indignação.

— Eu fiz tudo sozinho.

Ela aproximou-se e bagunçou seus cabelos.

— Eu vi.

E agradeço por isso.

Os dois tomaram café juntos.

Pela primeira vez em muito tempo…

Sem que Maya precisasse sair correndo para o trabalho.

Naquela mesma manhã…

Seu celular tocou.

Na tela apareceu o nome de Patrícia.

Ela atendeu imediatamente.

— Bom dia, Patrícia.

— Bom dia, Maya.

Como você está?

— Bem melhor.

Obrigada por perguntar.

Patrícia sorriu do outro lado da linha.

— Fico feliz.

Olha…

Não se preocupe com o trabalho.

Descanse o tempo que precisar.

Maya arregalou os olhos.

— Mas eu já fiquei afastada dias demais.

— Não se preocupe.

Seu cargo continua esperando por você.

Ela respirou aliviada.

— Muito obrigada.

Patrícia hesitou por um instante.

Depois completou:

— Foi um pedido do senhor Beaumont.

Maya ficou em silêncio.

— Do… senhor Beaumont?

— Sim.

Ele disse que sua saúde vem primeiro.

Então descanse.

Só volte quando estiver realmente bem.

A ligação terminou.

Maya permaneceu alguns segundos olhando para o celular.

Aquilo era inesperado.

O senhor Beaumont sempre parecia tão sério.

Tão distante.

Talvez…

Fosse apenas um bom chefe.

Sorriu de leve.

Mesmo assim, aquele gesto a deixou profundamente agradecida.

Na Beaumont Holding…

Nicolas permanecia diante de sua mesa.

Havia uma pilha de contratos esperando sua assinatura.

Mas sua atenção fugia constantemente para a cadeira vazia diante de sua sala.

A cadeira onde Maya costumava trabalhar.

Tentou voltar ao relatório.

Não conseguiu.

Apertou o botão do interfone.

— Patrícia.

Poucos segundos depois, ela entrou.

— Sim, senhor?

Nicolas manteve o olhar sobre os documentos.

Como se a pergunta não tivesse importância.

— Alguma notícia da senhorita Fernandes?

Patrícia sorriu discretamente.

— Ela está em casa.

Descansando.

O médico pediu alguns dias de repouso.

Ele apenas assentiu.

— Ótimo.

Patrícia permaneceu parada por alguns segundos.

Esperando outra pergunta.

Ela veio.

— Gabriel está bem?

— Está, senhor.

Ele sorriu quando conversou comigo ontem.

Nicolas voltou a olhar os documentos.

— Obrigado.

Patrícia saiu da sala.

Assim que a porta se fechou…

Nicolas soltou lentamente o ar que nem percebera estar prendendo.

Ela estava segura.

Era tudo o que precisava saber.

Os dias passaram lentamente.

Maya aproveitou o tempo para descansar.

Leu alguns livros.

Preparou o almoço com Gabriel.

Organizou a pequena casa.

E, todas as noites…

Pensava na mesma pergunta.

Quem a havia encontrado?

Quem chegara antes que fosse tarde?

Nenhuma resposta aparecia.

Quatro dias depois…

Maya vestiu novamente seu blazer azul-marinho.

Prendeu os cabelos em um coque simples.

Respirou fundo diante do espelho.

Sentia-se pronta para voltar.

Gabriel apareceu na porta do quarto.

— Nervosa?

Ela sorriu.

— Um pouquinho.

— Vai dar tudo certo.

Como sempre.

Ela abraçou o irmão.

— Obrigada.

Pouco antes das oito da manhã…

As portas da Beaumont Holding se abriram.

Assim que Maya entrou, vários funcionários interromperam o que faziam.

— Maya!

— Que bom que você voltou!

— Estávamos com saudade!

Ela sorriu, emocionada.

Recebeu abraços.

Ouviu palavras de carinho.

Nunca imaginou que fosse tão querida por todos.

Patrícia aproximou-se e a abraçou com força.

— Nunca mais faça um susto desses.

Maya riu.

— Prometo que vou tentar.

As duas ainda conversavam quando a porta da sala presidencial se abriu.

O ambiente silenciou naturalmente.

Nicolas saiu.

Terno impecável.

Expressão séria.

Como sempre.

Maya levantou-se imediatamente.

— Bom dia, senhor Beaumont.

Por um breve instante…

Os olhos dele encontraram os dela.

Havia algo diferente.

Algo mais suave.

Ele percorreu discretamente seu rosto.

Depois seus braços.

Como se precisasse confirmar que ela realmente estava bem.

Só então respondeu.

— Bom dia, senhorita Fernandes.

Fez uma pequena pausa.

Quase imperceptível.

— Seja bem-vinda de volta.

Maya sorriu.

— Obrigada.

Nicolas apenas assentiu.

Entrou novamente em sua sala.

E fechou a porta.

Assim que ficou sozinho…

Apoiou as duas mãos sobre a mesa.

Fechou os olhos por um instante.

Ela estava de volta.

Segura.

Sorrindo outra vez.

Era tudo o que ele queria.

Mesmo que jamais tivesse coragem de admitir isso.

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