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Capítulo 17 — Um Novo Caminho

A sexta-feira amanheceu movimentada na Beaumont Holding.

Maya organizava a agenda de Nicolas enquanto respondia alguns e-mails.

Era um daqueles dias em que tudo parecia acontecer ao mesmo tempo.

Reuniões.

Telefonemas.

Documentos para assinatura.

Ainda assim...

Ela não conseguia parar de olhar discretamente para o relógio.

No dia seguinte...

Gabriel teria uma consulta importante.

Talvez a mais importante de todas.

Depois de anos de tratamento...

O médico decidiria se ele finalmente poderia realizar a cirurgia.

Só havia um problema.

Mesmo que recebesse a autorização...

Ela ainda não tinha dinheiro suficiente.

Na pequena planilha que guardava em casa, ainda faltava uma quantia alta.

Mas Maya nunca deixava o desânimo aparecer.

Continuaria trabalhando.

Economizando.

Faria o que fosse preciso.

Como sempre fizera.

...

No fim da tarde...

Nicolas saiu da sala presidencial.

Encontrou Maya fechando o notebook.

— Pode ir.

Ela levantou os olhos.

— Ainda preciso organizar alguns documentos para segunda-feira.

— Segunda-feira eles continuam aqui.

Ela sorriu.

— Tudo bem.

Obrigada.

Enquanto guardava suas coisas na bolsa, Nicolas perguntou, aparentemente sem importância:

— Algum compromisso no fim de semana?

— Amanhã meu irmão tem consulta no hospital.

O médico vai dizer se ele pode fazer a cirurgia.

Ela sorriu de maneira contida.

— Estou torcendo para que dê tudo certo.

Nicolas apenas assentiu.

— Espero que sim.

Foi tudo o que disse.

Mas, por algum motivo...

Maya sentiu que aquelas palavras eram sinceras.

...

Sábado.

Pouco antes das sete da manhã.

O frio era mais intenso do que o normal.

Maya e Gabriel aguardavam o ônibus em um ponto quase vazio.

Gabriel olhava ansioso para a rua.

— Será que ele vai demorar?

— Ainda temos um tempinho.

Mas ela também estava preocupada.

Se perdessem aquele ônibus...

Provavelmente chegariam atrasados à consulta.

Foi então que um carro preto reduziu a velocidade.

Parou exatamente à frente deles.

Maya reconheceu o veículo imediatamente.

A janela traseira abaixou.

Lorenzo sorriu.

— Bom dia!

Ela arregalou os olhos.

— Senhor Martinelli?

Gabriel abriu um enorme sorriso.

— É o carro do senhor Beaumont!

Lorenzo riu.

— Acertou.

Estamos indo para uma reunião.

Mas vimos vocês aqui.

Está esperando ônibus?

Maya assentiu.

— Sim.

Lorenzo olhou para Gabriel.

Depois para a rua quase vazia.

— Entrem.

Levamos vocês até o hospital.

— Não precisa...

— Precisa, sim.

Nesse horário o transporte costuma demorar.

E vocês parecem estar com pressa.

Maya olhou para o irmão.

Depois para o relógio.

Suspirou discretamente.

— Muito obrigada.

Os dois entraram no carro.

Gabriel acomodou-se ao lado de Lorenzo.

Maya sentou-se ao lado de Nicolas.

...

Durante alguns minutos...

O silêncio predominou.

Até que Lorenzo resolveu conversar.

— Então...

Consulta de rotina?

Gabriel respondeu antes da irmã.

— Hoje o médico vai dizer se eu posso fazer minha cirurgia.

Lorenzo sorriu.

— Que notícia boa.

Tomara que dê certo.

Gabriel assentiu animado.

— Minha irmã está juntando dinheiro faz anos.

Ela trabalha muito por minha causa.

Maya abaixou a cabeça.

— Gabriel...

O menino sorriu sem perceber.

— Ela tinha dois empregos.

Dormia bem pouquinho.

Tudo para pagar minha cirurgia.

O carro ficou em silêncio.

Nicolas permaneceu olhando pela janela.

Mas cada palavra ficou gravada em sua memória.

...

Poucos minutos depois...

O carro parou diante do Hospital Santa Helena.

Gabriel abriu a porta rapidamente.

Assim que colocou um dos pés na calçada, seus olhos percorreram rapidamente a entrada principal do hospital.

De repente, ele travou.

— Ah, não...

Gabriel instintivamente empurrou Maya para dentro do carro.

Tudo aconteceu em um segundo.

Maya perdeu completamente o equilíbrio.

Seu corpo foi lançado para trás.

Antes que pudesse cair, duas mãos firmes envolveram sua cintura.

Nicolas.

Ela ergueu os olhos imediatamente.

Os rostos ficaram próximos demais.

Por um breve instante...

Nenhum dos dois respirou.

Ela podia sentir o calor das mãos dele através do tecido do casaco.

O perfume amadeirado que ele usava pareceu envolvê-la por inteiro.

Nicolas sustentou seu olhar por um segundo a mais do que deveria.

Então a ajudou a recuperar o equilíbrio.

Gabriel levou as mãos à cabeça.

— Desculpa, Maya!

Maya franziu a testa.

— O que foi?

O menino apontou discretamente para a porta principal.

— É aquele médico de novo.

Instintivamente, Maya virou o rosto para a direção indicada.

Na entrada do hospital, um homem de jaleco branco conversava com uma enfermeira.

Ela suspirou.

— Vamos pela outra entrada.

Maya ajeitou rapidamente a bolsa no ombro, visivelmente sem graça.

— Está tudo bem.

Foi só um susto.

Gabriel olhou para Nicolas, ainda constrangido.

— Desculpa mesmo, senhor Beaumont.

É que aquele médico ali...

Ele apontou discretamente para a entrada principal.

— Desde a minha primeira consulta fica importunando a Maya.

Nicolas acompanhou o movimento com os olhos.

Sem demonstrar qualquer reação.

— Importunando?

Gabriel assentiu.

— Toda vez que a gente vem aqui ele aparece.

Fica chamando ela para sair.

Já levou flores.

Chocolate.

Até convite para um show ele já trouxe.

A Maya sempre fala não...

Mas ele nunca desiste.

Maya fechou os olhos por um instante.

— Gabriel...

O menino deu de ombros.

— Ué, é verdade.

Ela sempre recusa com educação.

Mas ele continua insistindo.

Um breve silêncio tomou conta do carro.

Nicolas permaneceu olhando para a entrada do hospital.

Seu rosto continuava impassível.

Como se aquela informação não tivesse importância alguma.

Depois perguntou, com a mesma tranquilidade de sempre:

— Qual é o nome dele?

Gabriel respondeu sem pensar.

— Ricardo Monteiro.

Nicolas apenas assentiu uma única vez.

Era tudo o que precisava saber.

Maya respirou fundo.

— Vamos, Gabriel.

Não quero que a gente se atrase.

O menino saiu do carro.

Ela voltou-se para Lorenzo e Nicolas.

Um sorriso sincero iluminou seu rosto.

— Muito obrigada pela carona.

Vocês nos ajudaram muito.

Lorenzo sorriu.

— Não foi nada.

Boa sorte na consulta.

— Obrigada.

Maya fechou a porta.

Ela e Gabriel seguiram pela entrada lateral do hospital, evitando passar pela porta principal.

Dentro do carro, o silêncio permaneceu por alguns segundos.

O motorista aguardava instruções.

Nicolas continuou observando até que os dois desaparecessem pelo corredor lateral.

Só então desviou os olhos.

— Pode seguir.

O carro voltou a se mover.

Mas, pela primeira vez naquela manhã...

O nome Ricardo Monteiro ficou gravado na memória de Nicolas Beaumont.

E ele dificilmente esquecia um nome.

....

Assim que entraram no hospital...

Foram chamados poucos minutos depois.

O doutor Henrique Vasconcellos analisou os exames em silêncio.

Folheou alguns documentos.

Observou as imagens.

Então sorriu.

— Tenho uma boa notícia.

Maya apertou discretamente a mão do irmão.

— Os exames estão ótimos.

Gabriel está apto para realizar a cirurgia.

Os olhos dela se encheram de lágrimas.

Sorriu imediatamente.

O doutor Henrique analisava os últimos exames de Gabriel quando o telefone sobre sua mesa tocou.

Ele franziu levemente a testa.

Era incomum ser interrompido durante uma consulta.

— Com licença.

Atendeu a ligação.

— Doutor Henrique.

Do outro lado da linha, a voz da diretora clínica era firme.

— Doutor, a partir deste momento, o atendimento da senhorita Maya Fernandes e do irmão dela passa a ser prioridade absoluta.

Henrique olhou discretamente para Maya, sem entender.

— Houve alguma alteração no prontuário?

— Não. É uma solicitação da diretoria. Faça todos os procedimentos necessários e providencie a cirurgia sem qualquer impedimento financeiro.

O médico permaneceu alguns segundos em silêncio.

— Entendido.

A ligação foi encerrada.

Henrique colocou o telefone sobre a mesa, ainda tentando compreender o que acabara de acontecer.

Voltou sua atenção para o computador.

Consultou rapidamente algumas informações.

Então um pequeno sorriso surgiu em seu rosto.

— Agora tudo faz sentido.

Maya o encarava, confusa.

— Aconteceu alguma coisa, doutor?

Ele fechou o prontuário.

— Senhorita Maya... acho que a senhora acabou de receber uma notícia muito melhor do que imaginava.

Ela franziu a testa.

— Eu... não entendi.

Henrique respirou fundo antes de continuar.

— Acabei de receber uma determinação da diretoria do hospital para que o tratamento do Gabriel seja realizado com prioridade total.

Maya arregalou os olhos.

— Prioridade?

— Sim.

E não apenas isso.

A cirurgia dele será realizada sem qualquer custo para a senhora.

Ela permaneceu completamente imóvel.

— Como assim... sem custo?

— Este hospital pertence ao Grupo Martinelli.

O senhor Lorenzo Martinelli entrou em contato com a diretoria logo após a chegada de vocês.

Além disso...

O senhor Nicolas Beaumont solicitou que toda a assistência necessária fosse oferecida à senhora e ao seu irmão.

Por alguns segundos...

Maya simplesmente perdeu a capacidade de falar.

As palavras pareciam não fazer sentido.

— O... senhor Beaumont?

Sua voz saiu quase como um sussurro.

O médico assentiu.

— Pelo que fui informado, os dois fizeram questão de que Gabriel recebesse o melhor atendimento possível.

Os olhos de Maya começaram a se encher de lágrimas.

Ela balançou a cabeça lentamente.

— Eles... fizeram isso por nós?

— Fizeram.

E posso garantir uma coisa.

Gabriel será operado pelos melhores especialistas do hospital.

Não haverá lista de espera.

Nem qualquer preocupação financeira.

Uma lágrima escorreu pelo rosto de Maya.

Ela levou as mãos à boca, completamente emocionada.

Durante anos...

Trabalhara em dois empregos.

Dormira poucas horas por noite.

Abrira mão da faculdade.

Economizara cada centavo pensando naquele momento.

E, de repente...

Tudo mudara.

Gabriel abraçou a irmã com força.

— Eu falei que a gente ia conseguir.

Ela o abraçou de volta, chorando sem conseguir conter a emoção.

Mas, no fundo do coração...

Uma única pergunta insistia em ecoar.

Por que Nicolas Beaumont faria tudo aquilo por ela?

...

Ao saírem do consultório...

Uma voz conhecida chamou por ela.

— Senhorita Maya.

Ela virou-se.

Um médico alto, de cabelos escuros e jaleco branco caminhava em sua direção.

Era o doutor Ricardo Monteiro.

Sorridente, como sempre.

— Fico feliz em ver esse sorriso.

Imagino que receberam boas notícias.

Maya sorriu educadamente.

— Sim.

Graças a Deus.

Ele pareceu sinceramente contente.

Depois respirou fundo.

— Aproveitando que hoje não estou de plantão...

Gostaria de fazer um convite.

Ela já imaginava qual seria.

— Gostaria de jantar comigo qualquer dia desses?

Maya manteve o sorriso gentil.

— O senhor é muito simpático, doutor Rafael.

Mas eu realmente não tenho interesse.

Ele não pareceu ofendido.

Sorriu de lado.

— Tudo bem.

Mas ainda não perdi as esperanças.

Ela soltou uma pequena risada, sem graça.

— Acho melhor perder.

Os dois se despediram cordialmente.

Enquanto caminhava ao lado da irmã...

Gabriel olhou para ela e fez uma careta.

— Ele vai desistir um dia?

Maya sorriu.

— Espero que sim.

Sem perceber...

O destino acabava de colocar mais uma peça importante no caminho de Maya.

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