Mundo ficciónIniciar sesiónCapitulo 3 : A carta.
A carruagem abranda junto ao portão dos fundos. Reconheço o rangido discreto da madeira, o som abafado dos cascos a parar, o silêncio calculado daquele acesso que sempre me serviu de refúgio. A porta abre-se e desço depressa, o casaco ainda apertado ao corpo, o capuz puxado para a frente. A camareira espera-me, fiel como sempre. Aproxima-se sem dizer palavra, apenas com um olhar rápido à volta, garantindo que ninguém nos observa. — Pensei que a senhora já não vinha… — murmura, em tom baixo. — O baile prolongou-se — respondo secamente. Ela fecha o portão atrás de nós e seguimos pelo caminho lateral até à mansão. Entramos em silêncio, subimos as escadas como tantas outras vezes, guiadas apenas pela luz ténue dos candelabros. Ao abrir a porta do meu quarto, sinto o corpo prender-se. A governanta está à minha espera. Encontra-se de pé, junto à secretária, as mãos cruzadas à frente do corpo, o rosto rígido, iluminado pela luz de uma vela. O olhar pousa em mim como um julgamento antigo e pesado. — Espere lá fora — diz à camareira, sem sequer lhe dirigir o olhar. A camareira hesita, olha-me por um instante, mas acaba por obedecer. A porta fecha-se atrás de nós com um som seco. — Isto é inadmissível — começa a governanta, sem rodeios. — Absolutamente indigno de uma lady. Sair sozinha, a estas horas, desacompanhada, sem qualquer consideração pelo nome que carrega. Desaperto o casaco e pouso-o lentamente sobre a cadeira. Não digo nada. — Sabe muito bem o que poderia ter acontecido — continua. — Poderia ter sido vista, seguida, colocada em risco. Uma desgraça dessas não teria conserto. — Estou inteira — respondo friamente. — Como sempre. — Não se trata apenas do seu corpo — rebate ela. — Trata-se da sua reputação, do seu futuro, do que ainda resta do legado dos seus pais. Viro-me então para ela. — Não invoque os meus pais como arma — digo, num tom controlado, mas firme. Ela suspira, como quem carrega um peso antigo. — Eu cuidei de si desde a morte deles — diz. — Protegi-a quando ninguém mais o faria. O seu tio queria casá-la aos quinze anos, Léonor, quinze. Um acordo horrível, apressado, apenas para assegurar que a herança não lhe escapava das mãos. Sinto o estômago apertar-se. — Lembro-me dessa época… — murmuro. — Foi por isso que entrámos num acordo — prossegue. — Eu ficaria com a sua tutela até que amadurecesse, até que se casasse como convém. Para a proteger. Para preservar o que os seus pais lhe deixaram. Caminho lentamente até à janela, abro ligeiramente as cortinas, deixando entrar a luz pálida da lua. — Recebeu mais alguma carta dos meus tios? — pergunto, sem me virar. O silêncio instala-se por um segundo. Depois ouço o som de papel a ser movido. — Sim — responde ela. — Foi precisamente por isso que vim ao seu quarto… e não a encontrei. Estende-me um envelope. Pego nele e reconheço de imediato a caligrafia dura e formal. Abro a carta e começo a ler, em voz alta, como se cada palavra precisasse de ser dita: “Senhorita Léonor Alencourt, Recordamos-lhe que o acordo estabelecido após a morte de seus pais permanece em vigor. Caso não contraia matrimónio num prazo máximo de um ano, a totalidade da herança será transferida para o seu tio legal, conforme estipulado. Consideramos que tempo suficiente lhe foi concedido.” Baixo lentamente a carta. O quarto parece mais pequeno, mais apertado. — Isto é chantagem — digo, sentindo o sangue ferver. — Dona Léonor, por favor… — começa a governanta. — Não — corto de imediato. — Não agora. O tom da minha voz eleva-se, sem que eu o planeie. — Estou cansada de ser tratada como moeda de troca! Cansada de ultimatos, de prazos, de decisões tomadas sobre a minha vida como se eu não existisse! Ela abre a boca para responder, mas levanto a mão. — Falaremos amanhã — digo firmemente. — Amanhã, com a cabeça fria. Esta conversa termina aqui. A governanta observa-me por longos segundos. Vejo ali preocupação, mas também uma rigidez que nunca aprendeu a largar. — Muito bem — responde por fim. — Amanhã. A camareira ajuda-me a despir o vestido com cuidado, soltando lentamente os botões, libertando-me do peso do tecido e das exigências do mundo que ele representa. As joias são retiradas uma a uma e pousadas sobre a cómoda, onde brilham ainda sob a luz trémula da vela. Por fim, ajuda-me a vestir a camisa de noite, simples, longa, feita de tecido leve, apropriada à compostura que sempre se esperou de mim, mesmo dentro da intimidade do meu próprio quarto. Quando fico sozinha, sento-me na beira da cama por um instante. O silêncio envolve-me, mas não me tranquiliza. Deito-me sem demora, apago a vela e fecho os olhos, tentando ordenar os pensamentos, mas eles regressam, insistentes. A conversa com a governanta, as palavras da carta, o prazo imposto, a sensação constante de estar encurralada por decisões que nunca foram verdadeiramente minhas. Antes de adormecer, dei por mim a pensar também em Henry Ashford, no seu ar petulante e excessivamente confiante, na forma como falava como se o mundo lhe devesse obediência, algo que me desagradou desde o primeiro instante, mas que eu não podia negar estar associado a um nome sólido, a um estatuto claro e a tudo aquilo que a sociedade ainda esperava de mim, deixando-me com a incómoda sensação de que, gostasse ou não, ele representava o tipo de futuro que me estavam a tentar impor.






