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Capitulo 2 : uma caminhada ao luar

Acordo sentindo a preocupação pesar, sufocar-me.

Arthur ainda dorme quando me levanto. Observo-o por alguns segundos, calmo, alheio ao peso que começa a instalar-se no meu peito.

Não o acordo. Não quero justificar a minha saída.

Se lhe disser que vou à cidade sozinha, tentará impedir-me. E eu preciso de respostas.

Visto-me com simplicidade, o suficiente para não levantar suspeitas. Não peço ajuda a Lucy, para não a alarmar.

Já faz muito tempo que não vou à cidade.

Prefiro a calmaria dos meus campos, dos meus jardins floridos, sem comentários desnecessários nem olhares constrangedores.

Antes de sair da casa do capataz, olho uma última vez para Arthur.

O cocheiro deixa-me na praça principal, e eu ordeno que volte dentro de uma hora.

Assim que desço da carruagem, sinto os olhares sobre mim.

Primeiro, apenas observam. Depois, cochicham e, por fim, afastam-se.

Caminho devagar, mantendo a postura erguida. Não darei a ninguém o prazer de me ver encolhida.

Duas senhoras, que conversam animadamente junto à chapelaria, interrompem-se quando passo. Uma segura o braço da outra e murmura algo ao ouvido. Ambas me olham como se eu fosse uma curiosidade indecente.

O meu coração b**e mais rápido.

Continuo.

Um grupo de homens à porta da taberna cala-se subitamente. Um deles solta um riso baixo.

— É ela… — ouço claramente.

Ela?

Não me chamam Léonor, nem senhora, apenas ela.

Tenho a sensação de que a cidade inteira sabe algo que eu desconheço.

Tento convencer-me de que é imaginação.

Decido entrar na confeitaria da rua principal.

O sino acima da porta toca quando entro.

O cheiro a açúcar e pão quente costuma trazer-me conforto. Mas, neste instante, até o aroma me deixa enjoada.

A senhora atrás do balcão ergue o olhar e reconhece-me. A expressão muda imediatamente.

Endireita-se.

— Bom dia — cumprimento, mantendo a voz firme. — Gostaria de alguns pastéis de amêndoa, por favor.

Ela hesita.

O silêncio prolonga-se.

— Lamento, minha senhora… mas… — começa, evitando olhar-me diretamente — hoje não podemos servi-la.

Pisco os olhos, confusa.

— Desculpe?

— Recebemos ordens…

Sinto o sangue gelar.

— Ordens de quem?

A mulher engole em seco.

— Não me compete dizer.

O meu orgulho luta contra a humilhação que começa a subir-me ao rosto.

— Está a recusar-se a vender-me pão? — pergunto, incrédula.

Nesse momento, duas jovens que estão sentadas a uma mesa levantam-se discretamente e saem, como se a minha presença contaminasse o espaço.

A senhora do balcão baixa a voz.

— É melhor que compreenda… há comentários a circular. A sua reputação…

A palavra atinge-me como uma bofetada.

Reputação.

Saio da confeitaria sem dizer mais nada, mas começo a entender o que se passa.

Sinto-me exposta, vulnerável, observada.

A certeza forma-se dentro de mim como um nó apertado.

Henry não gritou, não ameaçou, mas prometeu que não terminaria ali.

E agora cumpre.

Talvez até o meu tio esteja envolvido também.

Respiro fundo. Ainda tenho um destino: encontrar um detetive.

Caminho até à rua mais afastada do centro, onde os estabelecimentos são menos vistosos e as pessoas menos curiosas — ou pelo menos fingem melhor.

O escritório fica no segundo andar de um prédio discreto, com uma placa pequena e quase apagada: Investigação e Assuntos Privados.

Subo as escadas sentindo cada degrau como uma transgressão.

Nunca imaginei que pisaria um lugar assim.

Bato à porta.

— Entre. — responde uma voz grave do outro lado.

Aperto a maçaneta.

Se a cidade inteira já me julga, então ao menos quero saber a verdade.

Porque, neste momento, compreendo algo com uma clareza dolorosa:

O preço da minha escolha não se paga apenas dentro de casa.

Paga-se nas ruas, nos olhares e nas portas fechadas.

E isto é apenas o começo.

A porta range quando a empurro.

O gabinete é mais pequeno do que imagino. O ar cheira a tabaco antigo e papel envelhecido. A luz entra por uma única janela alta, filtrada por cortinas pesadas de veludo escuro. Faixas douradas recortam o chão de madeira gasta.

No centro, uma secretária robusta de carvalho escuro domina o espaço. Sobre ela repousam pilhas organizadas de documentos, um tinteiro de vidro, uma pena apoiada num suporte metálico e um relógio de bolso aberto.

Atrás da secretária, uma estante ocupa a parede inteira. Pastas numeradas, caixas etiquetadas, livros de capa grossa. Tudo meticulosamente ordenado.

À esquerda, duas cadeiras simples aguardam visitantes.

Fecho a porta atrás de mim.

O homem levanta-se. Alto, postura firme, cabelos escuros com fios grisalhos nas têmporas. O olhar é atento, avaliador.

— Faça o favor de se sentar.

Aproximo-me devagar e sento-me. As mãos repousam no colo para esconder o leve tremor.

Ele contorna a secretária e senta-se.

Observa-me por alguns segundos antes de falar.

— Confesso que estou surpreendido. Não é comum receber uma lady desacompanhada. Normalmente são os homens que procuram os meus serviços.

Inclina ligeiramente a cabeça.

— Em que posso ajudá-la, dona…?

— Dona Léonor.

Ele repete lentamente:

— Da família Alencourt?

O meu coração aperta.

— Sim.

Ele recosta-se na cadeira.

— Não é um nome que se ouça por acaso.

Respiro fundo.

— Quero que descubra tudo o que puder sobre o Conde Henry Ashford e sobre Arthur, o meu esposo.

Ele pega na pena e começa a escrever.

— Conde Henry… — murmura.

Quando digo “Arthur”, a pena abranda ligeiramente, mas continua a escrever.

— O seu nome completo é Arthur William Carter.

O meu coração dispara.

William… Carter…

No baile, ele apresentou-se apenas como William Carter.

Nunca mencionou Arthur.

Nunca me disse que William não era o primeiro nome.

Arthur William Carter.

Sinto um arrepio percorrer-me a espinha.

Ele não mentiu, mas também não disse a verdade completa.

— Presumo que conheceu o seu marido por outro nome? — pergunta o detetive, atento à mudança na minha expressão.

Engulo em seco.

No baile conheci William,

É muita coincidencia que os dois tenham nomes iguais.

E eu nunca questionei, não tive interesse em saber da sua vida antes de chegar à mansão.

O detetive volta a olhar para o documento.

— Não há irregularidades formais no registo — diz calmamente. — Está legalmente casada com Arthur William Carter.

Legalmente.

Mas quem é ele?

Arthur… ou William?

Porque escolheu apresentar-se pelo segundo nome naquela noite?

Porquê ocultar o primeiro?

A dúvida instala-se como uma sombra.

Não é uma mentira direta, é algo pior.

Levanto o olhar lentamente.

— Quero que descubra tudo — digo, agora com mais firmeza. — Tudo o que houver sobre Arthur William Carter.

O detetive fecha o documento com cuidado.

— Nesse caso, Dona Léonor… prepare-se para não gostar do que pode encontrar.

O meu peito aperta.

Talvez ele tenha razão.

Porque, pela primeira vez, começo a perceber que não me casei apenas com um homem, casei-me com um mistério.

E algo dentro de mim sussurra que há uma parte da história que ele nunca quis que eu soubesse.

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