Mundo ficciónIniciar sesiónAntes mesmo de alcançar o jardim, sinto os olhares a prenderem-se em mim.
Não passam despercebidos. Uma jovem sozinha num baile nunca passa. A ausência de um acompanhante é vista como convite, desafio ou falha — depende de quem observa. Algumas senhoras cochicham discretamente, outras medem-me de alto a baixo, como se tentassem adivinhar a razão da minha solidão. Os homens solteiros não tardam a aproximar-se. — Concederia esta dança? — pergunta um deles, com um sorriso confiante demais. — Talvez mais tarde — respondo, com educação contida. Outro surge logo depois, estendendo a mão antes mesmo de falar. Recuso novamente. Depois um terceiro. E um quarto. Cada recusa pesa. Sei bem o que isso significa para aquela sociedade: é deselegante. Uma jovem deve aceitar, sorrir, corresponder. Recusar um convite para dançar é quase um insulto silencioso, uma quebra das regras não escritas que regem aqueles salões. Sinto a tensão crescer à minha volta, como se estivesse a cometer um erro sem sequer levantar a voz. É por isso que me afasto. O ar do jardim é mais fresco, mais húmido, carregado de aromas que não existem dentro da mansão. Flores abertas apenas à noite libertam um perfume intenso, quase inebriante — jasmim, rosas tardias, algo mais profundo que não sei nomear. Respiro fundo, como se o próprio jardim me convidasse a permanecer. A paz que aquele momento me traz é maravilhosa. — Boa noite. A senhorita precisa de ajuda? A voz surge atrás de mim… — Eu?… Senhorita?… — respondo, com uma ponta de arrogância. — Creio que não preciso de ajuda, obrigada. O homem dá um passo à frente, medindo cuidadosamente a distância entre nós. — Perdoe-me — diz, com um leve sorriso ensaiado. — Permita-me apresentar-me. Sou Henry Ashford. O sobrenome não passa despercebido. Era impossível que passasse. — Imagino que já tenha ouvido o meu nome — acrescenta, com uma naturalidade cuidadosamente estudada. — Não, nunca tinha ouvido falar de si — respondo, com sinceridade. — Chamo-me Léonor Alencourt — acrescento apenas, sem inclinar a cabeça, sem qualquer gesto que indique interesse maior. O olhar dele ilumina-se, satisfeito. — Senhorita Alencourt… — repete, como se saboreasse o som. — É uma honra conhecê-la. Confesso que não esperava encontrar alguém como a senhora sozinha num evento destes. — As expectativas costumam ser enganosas — respondo. Ele sorri, aceitando o comentário como desafio, não como recusa. — Talvez me conceda então uma breve caminhada — propõe. — O jardim fica magnífico sob o luar… e seria um desperdício não aproveitá-lo acompanhado. Hesito por um instante. — Muito bem — concedo. — Uma curta caminhada. Começamos a andar lado a lado pelos caminhos de pedra. O jardim está silencioso, pontuado apenas pelo som distante da música e pelo murmúrio abafado vindo do salão. — É raro encontrar uma mulher que prefira o exterior à pista de dança — comenta Henry. — Ainda mais alguém na sua posição. — O senhor já ouviu falar de mim? — pergunto, devolvendo-lhe a curiosidade. — Conheci o seu pai — responde. — Um homem observador, respeitado, com um bom estatuto social. — Talvez eu prefira ser como ele… observar — digo. — Observar é o primeiro passo para compreender o jogo — responde. — E poucos sabem jogá-lo bem. Olho-o de soslaio. — E o senhor considera-se um bom jogador? Ele ri, confiante. — Digamos que aprendi cedo. — Faz uma pausa calculada. — Em breve, terei responsabilidades maiores. Um nome, um património… um lugar bem definido na sociedade. A maneira como diz em breve soa a petulância. — Imagino que muitas mulheres considerem isso atraente — comento. — Não todas — responde. — Algumas preferem algo… menos previsível. — Ou talvez prefiram homens que não se definam apenas pelo que esperam herdar — digo, com calma. Por um segundo, ele parece surpreendido. Depois, recupera o sorriso. — Gosto da sua franqueza, senhorita Alencourt. É refrescante. — Costuma dizer isso a todas? — pergunto. Henry ri, mas não responde de imediato. — Apenas às que merecem ser lembradas. Chegamos novamente perto da entrada da mansão. As luzes, a música e o burburinho aproximam-se. Paro. — A caminhada foi agradável — digo. — Agradeço-lhe a companhia, senhor Ashford. — O prazer foi todo meu — responde, estendendo a mão para a minha. Inclina ligeiramente a cabeça, confiante de que ainda não terminou ali. — Espero revê-la esta noite. Sorrio, educada e distante. — Desejo-lhe uma boa noite, senhor Henry Ashford. Dou meia-volta e entro novamente na mansão, deixando-o ali, sob a luz da lua, confiante demais para perceber que foi apenas… tolerado. As doze badaladas do sino ecoam pelo salão. Uma… duas… três… até doze… Meia-noite. O som impõe-se sobre a música, sobre as conversas, como um aviso silencioso. Endireito-me de imediato. É hora de partir. Não gosto de prolongar as minhas aparições. Permanecer demais é dar espaço às perguntas. Dirijo-me para a saída, atravessando o salão com passos rápidos, mas controlados. É então que me apercebo — não estou sozinha. Henry Ashford segue-me a curta distância. Não olho para trás. Apresso o passo. Chego à porta principal e paro apenas o tempo necessário para que um serviçal traga o meu casaco. Visto-o depressa, puxo o capuz, abafando qualquer tentativa de reconhecimento, e saio para a rua antes que ele tenha tempo de me alcançar. O ar da noite envolve-me de imediato. O cocheiro apercebe-se da minha presença e apressa-se a fazer avançar a carruagem. Abro a porta sem esperar ajuda, sento-me e fecho-a quase com impaciência. — Vamos — ordeno. A carruagem parte. Enquanto o som ritmado dos cascos ecoa pela estrada escura, volto a pensar na conversa no jardim. Henry Ashford… Diz-se herdeiro. Fala como se já fosse conde. No entanto, no salão, os murmúrios eram outros. Falavam de um herdeiro que teria fugido. Se Henry se afirma como próximo conde de Ashford, então j**a alto, demasiado alto. O ego exagerado, as palavras bem ensaiadas, a confiança que não admite fissuras — tudo isso revela mais do que ele imagina. A beleza pode abrir portas, mas não sustenta verdades. Fecho os olhos por um instante, encostando-me ao banco da carruagem. Alguns homens confundem presença com valor e aprendem tarde demais que não são a mesma coisa.






